UOL Notícias Internacional
 

20/10/2008

Astronautas americanos têm segundo lar na Rússia

The New York Times
John Schwartz
Star City, Rússia
Garrett Reisman estava no Aeroporto Kennedy, a caminho desta ex-base secreta militar para começar um treinamento que duraria semanas, quando seu celular tocou. Era seu chefe, Steven W.
Lindsey, diretor do departamento de astronautas da NASA.

"Volte para Houston. Eles cancelaram seu treinamento - estão jogando duro", Reisman lembra seu chefe ter dito. Ele foi pego momentaneamente numa disputa importante entre a NASA e a agência espacial russa, a Roscosmos.

Por fim, a viagem abortada de Reisman foi apenas um obstáculo na estrada a caminho do espaço: ele passou três meses a bordo da Estação Espacial Internacional no começo deste ano, andou no espaço e até mesmo trocou piadas com Stephen Colbert através de um link de vídeo.

Todos que trabalham para o programa espacial russo contam histórias similares sobre burocratas implacáveis, regras bizantinas e decisões que, na melhor das hipóteses, parecem caprichosas.

E muitas dessas histórias acontecem aqui em Star City, onde os cosmonautas e, agora, os astronautas do mundo todo treinam para voar na espaçonave russa Soyuz para ir para a Estação Espacial Internacional de US$ 100 bilhões.

Star City se transformou num segundo lar importante para os americanos que trabalham com os colegas russos, e deve se tornar ainda mais importante. No intervalo de cinco anos a partir do momento que a NASA interromper seu programa de naves espaciais em 2010 até a estréia da nova geração de espaçonaves americanas em 2015, a Rússia terá o único ponto de decolagem para a estação.

O intervalo, que foi planejado pelo governo Bush para criar a próxima geração de espaçonaves americanas sem aumentar significativamente o orçamento da NASA, é controverso. Mas também é quase inevitável, porque a maior parte do trabalho para interromper as viagens espaciais já está acontecendo, e será difícil reduzir o tempo para a construção da nova espaçonave Constellation, mesmo com mais financiamento.

Os que trabalham lado a lado com os russos dizem que as fortes relações e o respeito mútuo são resultado de muitos anos de colaboração. E dizem que quaisquer que sejam as preocupações geopolíticas mais amplas em relação a confiar na Rússia para o transporte espacial durante os cinco anos em que os Estados Unidos não poderão chegar à estação espacial com seus próprios meios, eles acreditam que a parceria multinacional que construiu a estação irá se sustentar.

"É um feito politico impressionante", disse Reisman. "Passamos por tantos governos diferentes", não apenas nos Estados Unidos e na Rússia, mas também nas demais nações que participaram da construção do laboratório em órbita. "Ela sobreviveu a tudo isso", diz. "A parceria se sustentou, e apenas se fortalece com o tempo à medida que aprendemos a trabalhar juntos". Para entender porque pessoas como Reisman acreditam que os próximos sete anos podem dar certo, é importante entender os últimos 15 anos, quando os Estados Unidos e a Rússia uniram forças, primeiro colocando os americanos a bordo da estação espacial russa Mir e depois construindo a Estação Espacial Internacional juntos. Essa união de forças aconteceu aqui, em Star City. E em vários aspectos, não teve um começo muito auspicioso.

Nos primeiros tempos da parceria, em meados dos anos 90, depois do colapso da União Soviética e com o penoso processo de renascimento da Rússia, a escassez de suprimentos significava passar fome.

"Não havia nenhuma comida nas prateleiras", diz Michael Barratt, que trabalhou entre as primeiras equipes que preparavam os astronautas que atuariam a bordo da Mir. "Cinco noites em cada sete, tínhamos apenas arroz e feijão."

John McBrine, atual diretor de operações americanas em Star City, disse que perdeu 13 quilos durante sua primeira estadia, de julho a outubro de 1994.

Aqueles primeiros tempos também foram marcados pela cautela e desconfiança, e os primeiros americanos tinham uma forte impressão de que estavam sendo observados. Mark Bowman, um dos primeiros contratados na Rússia, que agora está em Moscou como diretor do programa de vôo espacial humano da NASA na Rússia, lembra-se de uma teleconferência semanal com seu chefe em Houston. "A linha ficava muda depois de trinta minutos de chamada", disse Bowman. "E isso acontecia a cada 30 minutos."

Um dia, aos 28 minutos da teleconferência, Bowman alertou que a linha estava prestes a ficar muda, e disse irritado: "Queria que esses sacanas da KGB comprassem fitas mais longas".

"A teleconferência seguinte", lembra-se Bowman, "juro para você, durou
45 minutos e depois ficou muda". Aparentemente, diz ele, seus anfitriões haviam comprado fitas cassete de 90 minutos.

A Energia, fabricante de espaçonaves próxima ao Centro de Controle de Missões em Korolev, nos arredores de Moscou, não deixava os americanos entrarem em suas instalações. Em vez disso, a companhia alugou parte de uma universidade de engenharia vizinha para construir as peças americanas da estação.

"O aquecimento não funcionava", diz Bowman, e o inverno de 1994-95 foi especialmente rigoroso, com temperaturas que atingiram 30 graus negativos.

Os funcionários usavam luvas e casacos dentro do prédio. Experimentos biológicos delicados planejados para o uso dentro da estação climaticamente controlada congelaram e tiveram de ser substituídos.

A Energia por fim colocou um aquecedor no escritório americano: os funcionários enrolaram um fio feito de uma liga de nicrômio, resistente ao calor, em torno de tubos cobertos de asbestos, e plugaram nas tomadas. O fio exposto era duplamente perigoso, lembra-se
Bowman: bastava um esbarrão, e "você levava um choque e uma queimadura ao mesmo tempo". O brilho já era um sinal de alerta; ninguém tocava naquilo.

Além da falta de conforto, o alto nível de segredo do programa russo incomodava ainda mais profundamente os americanos. Os russos não explicaram totalmente em junho de 1997, por exemplo, o quão arriscado seria para a Mir e sua tripulação uma tentativa de estacionar manualmente um veículo de carga na estação. Quando o encontro resultou numa colisão que colocou em risco as vidas de dois cosmonautas e de Michael Foale, o astronauta americano à bordo estação frágil na época, os americanos estavam praticamente no escuro.

Os sete anos seguintes parecem mais brilhantes, e calorosos.

"As coisas melhoraram muito desde então", diz Bowman. O sistema russo ficou mais aberto, e o nível de conforto e conveniência pessoal melhorou bastante.

Em vez do um sistema telefônico duvidoso de antigamente, o sistema de telefonia digital de Bowman pode ser acessado como se fosse um telefone local do PABX da NASA. "É como se eu estivesse no Johnson Space Center", diz ele.

Os escritórios americanos em Star City estão num prédio conhecido como Prophy, que vem de Prophylactorium, onde os cosmonautas vivem em quarentena antes dos vôos. Hoje ele é chamado de Apollo-Soyuz Hotel, em homenagem ao encontro histórico. Pelo menos, os americanos o chamam assim, diz McBrine; os russos o "chamam de Soyuz-Apollo Hotel".

A NASA aluga o segundo andar de escritórios sem graça com painéis de madeira e luzes fluorescentes esverdeadas. Aqui os tradutores interpretam os volumosos materiais de curso para os astronautas - que aprendem russo e fazem aulas na língua - e os assistentes administrativos agendam as vans que levam os visitantes dos aeroportos para Star City e para Moscou.

Ao todo, sete funcionários civis da NASA, nove contratados americanos e 55 russos estão trabalhando na Rússia para a agência espacial americana.

Um fluxo constante de astronautas, controladores de vôo, médicos, cientistas, engenheiros e oficiais passa por lá.

Muitos deles querem ser levados para ver os pontos turísticos e restaurantes de Moscou.

"É um ambiente de trabalho duro e diversão na mesma medida", diz McBrine, mas ele acrescentou que a diversão costumava ser muito mais pesada.

As histórias de excessos dos primeiros tempos da parceria russo-americana são lendárias; muitas envolvem os anfitriões russos incentivando seus convidados a rodadas épicas de brindes de vodca. Com o tempo, diz McBrine, "A novidade perdeu um pouco a graça". Em vez de testar a capacidade mútua de tolerância ao álcool, diz ele, "nos tornamos colegas e grandes amigos. Não existe mais aquela pressão."

Muitos dos americanos vivem em apartamentos duplex em Star City, que se parecem com condomínios do subúrbio dos EUA que parecem ter sido largados do espaço nessa paisagem soviética de prédios de tijolos, cercas e obstáculos. Eles foram projetados e construídos segundo os padrões americanos para que os visitantes pudessem, por exemplo, plugar seus laptops na parede sem ter que sair a procura de um adaptador.

McBrine e sua equipe trabalham para construir um senso de comunidade.
Os dias começam na casa de campo de McBrine com uma reunião em torno de um grande bule de café para os americanos que trabalham longos períodos ou estão apenas de passagem. Jantares regulares em que cada um leva um prato são um incentivo ainda maior para lutar contra a sensação de isolamento. Em uma noite qualquer, a sala de jantar de McBrine pode estar repleta de astronautas americanos, membros da equipe da NASA, cosmonautas russos, funcionários de agências espaciais do Japão e da Europa, e um ocasional turista espacial multimilionário.

Num jantar típico em abril, dois astronautas, Barratt e o comandante Scott J. Kelly, conversavam sobre comida. Barratt falava com entusiasmo sobre um prato tailandês farto e picante de frango com amendoim e de um salmão defumado excelente do mercado Pike Place Fish, de Seattle. Kelly, sob a ótica de um morador de Nova Jersey, exaltava as virtudes do Jimmy Buffs, um restaurante em West Orange onde os cachorros-quentes são carregados de cebola, pimenta e batatas. "Ataque cardíaco num prato!", disse com orgulho.

No andar de baixo, o Bar Shep's esperava por eles. É uma sala pouco iluminada no porão, descendo um lance de escadas rústicas de madeira, com poucos sofás e cadeiras, uma televisão de tela grande, uma mesa de bilhar e uma decoração cansada de bar. Espiando por um buraco retangular em uma das paredes, pode-se ver a sala de ginástica, cheia de esteiras e outros aparelhos de exercício.

"Shep" é William Shepherd, o primeiro comandante da Estação Espacial Internacional, que montou o lugar com doações particulares. McBrine elogia o ponto de encontro e diz que ele é "nossa pequena Americana", um lugar familiar longe de casa.

Atualmente, o Shep é um assunto delicado. A NASA ainda está irritada com um relatório de 2007 que sugeriu que alguns astronautas podem ter voado bêbados. O relatório se referia a dois incidentes em acusações anônimas de cirurgiões espaciais, e ninguém foi descoberto de fato pilotando uma espaçonave bêbado. E nada no relatório tinha a ver com o Shep's Bar. Mas as piadas de fim de noite e as charges editoriais criaram a imagem de uma agência espacial cheia de beberrões, e os funcionários como McBrine ainda temem reforçar essa impressão ao falar sobre seu modesto clube.

"Sabe o que mais fazemos no Shep's Bar?", perguntou. "Nós simplesmente vemos filmes."

"Deveríamos na verdade mudar o nome para Cinema Shep's", disse.

Qualquer que seja o nome, diz McBrine, é um lugar confortável para tomar uma cerveja e relaxar numa noite tranqüila. "Ou uma Coca", disse McBrine, com um certo nervosismo. "Ou uma limonada".

Ainda existem diferenças culturais significativas entre os russos e os americanos aqui. Por exemplo, trabalhar lado a lado com os russos, dizem os americanos, os tem ajudado a entender a abordagem do país em relação à segurança.

Barratt disse que quando ele andou pela primeira vez pelos quarteirões de Star City, ele ficou surpreso com a irregularidade das calçadas. Na NASA, diz ele, "existiriam grandes placas vermelhas" alertando as pessoas para tomarem cuidado ao andar. E se alguém caísse, um processo viria logo em seguida. Na Rússia, diz ele, as pessoas simplesmente olham onde pisam.

O ponto por trás disso, diz Mark Thiessen, assistente de McBrine, é que "os russos aceitam o risco". Os americanos tentam "eliminar o risco em vez de minimizá-lo". A abordagem americana é louvável, diz ele, mas nem sempre possível, e os americanos acabam sendo mais cautelosos do que os russos. "Ninguém quer dizer: 'Eu aceito o risco'", diz ele.

Muitos que escrevem sobre o programa espacial russo focam na impressão de uma época decrépita que o programa pode transmitir - por conta dos prédios abandonados e da ferrugem no centro de lançamento em Baikonur, Cazaquistão, e do fato de que o desenho básico da espaçonave Soyuz não mudou nada em cerca de 40 anos.

Mas os especialistas americanos sugerem que o descaso russo pela perfeição e o desenvolvimento estético é irrelevante, e que a época do design da espaçonave mostra uma abordagem conservadora em relação aos riscos das viagens espaciais que tem funcionado bem.

"Eles gastam dinheiro onde devem gastar", diz Philip Cleary, ex-diretor do programa de vôo espacial da NASA na Rússia. "Eles não estão tão preocupados em jogar uma nova camada de pintura num prédio se isso não for necessário."

Os americanos disseram que, a despeito das aparências, os russos levam a segurança tão a sério quanto eles. O resultado, dizem vários astronautas, é que eles confiam na Soyuz, que é tão forte e segura quanto um rifle Kalashnikov.

"Seu design inerente é bastante robusto", diz Edward T. Lu, astronauta que morou na estação em 2003 e agora trabalha para o Google. Ele voou para a estação espacial e voltou numa Soyuz, e cuidou de duas reentradas recentes da espaçonave, nas quais a cápsula teve problemas e caiu na Terra numa parábola íngreme que submeteu os tripulantes a forças gravitacionais mais altas do que o normal. Os astronautas ficaram a salvo, entretanto, por causa da simplicidade e da força do desenho da Soyuz.

Como coloca o capitão Mark E. Kelly, astronauta e irmão gêmeo de Scott Kelly, "você poderia jogar aquilo na atmosfera como se fosse uma pedra", orientada "de lado e de ré", e "desde que o pára-quedas abra, a tripulação provavelmente vai sobreviver. Não dá pra fazer isso com a espaçonave americana, como todos sabem."

Mas a espaçonave americana sairá de cena em breve. Aqueles que estão mais familiarizados com os esforços conjuntos do país no espaço dizem que a pausa controversa entre os vôos americanos pode acontecer com tranqüilidade, se os políticos simplesmente ficarem fora do caminho.

Os americanos dizem que aprenderam bastante sobre como fazer as coisas na Rússia. Eles sabem que a primeira resposta para qualquer pedido provavelmente é um não, mas que as negociações podem freqüentemente terminar em sim. Conhecer as pessoas com as quais se negocia é mais importante do que as regras. "Nenhum acordo é melhor do que o relacionamento entre as partes", diz Barratt.

E ninguém questiona a dedicação dos colegas russos. No pior momento da crise econômica soviética, diz Barratt, os funcionários "foram mandados de férias" por alguns meses para que não fossem pagos. "Mas eles apareceram para trabalhar no dia seguinte", lembra-se.

Michael Foale, que viveu a bordo tanto da Mir quanto da Estação Espacial Internacional disse: "a Rússia sempre foi vista pelos EUA como o inimigo número 1 e o parceiro número 1". Os líderes têm uma visão de longo alcance, diz ele, e "eles não jogam xadrez mal".

A coisa mais importante para assegurar a cooperação futura, diz Foale, é firmar uma estratégia de cooperação internacional para chegar à Lua, para que a Rússia tenha sua parcela na parceria e nos resultados. "Nós precisamos apenas sugerir uma estratégia, e não acho que teremos problemas", diz ele. "Mas temos que ter uma estratégia".

Os funcionários americanos em Star City dizem que no âmbito pessoal, a geopolítica simplesmente não tem importância. Thiessen diz que quando esses assuntos surgem nas conversas com os colegas russos, eles dizem:
"Isso é política. Deixe o governo se preocupar com o governo. Nós somos engenheiros. Vamos resolver esse problema." Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,21
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host