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20/10/2008 - 00h01

Coleção de manuscritos medievais é colocada online

Por John Tagliabue
St. Gallen (Suíça)
Uma das coleções mais antigas e valiosas do mundo de livros medievais escritos à mão, abrigada nas salas barrocas da biblioteca da abadia desta cidade, será publicada online com a ajuda de uma bolsa de US$ 1 milhão da Fundação Andrew W. Mellon.

Durante séculos, acadêmicos do mundo todo peregrinaram para Stiftsbibliothck - que significa, literalmente, biblioteca da abadia - nesta antiga cidade abrigada entre as cadeias de montanha do leste da Suíça, para estudar sua vasta coleção de manuscritos, muitos deles escritos e ilustrados antes do ano 1000.

A coleção inclui material tão variado quanto maldições contra ladrões de livros, baladas de amor, canções de embriaguês e uma planta baixa de um monastério medieval desenhada à mão, esboçada em torno de 820 D.C., o único documento desse tipo existente.

Acredita-se que a biblioteca foi fundada no século 9, cerca de dois séculos depois que um monge irlandês chamado Gallus estabeleceu o monastério que se tornaria o centro da cidade que hoje leva seu nome.
O monastério foi dissolvido por autoridades locais em 1805. A biblioteca é hoje propriedade da Igreja Católica Romana.

Hoje, com o avanço da tecnologia dos computadores, escanear as coleções de bibliotecas tornou-se lugar comum. O Google iniciou um projeto ambicioso para compilar bibliotecas inteiras em bases de dados. No mês passado, o braço executivo da União Européia destinou US$ 175 milhões para o programa conhecido como Europeana, para digitalizar as bibliotecas européias.

A idéia de escanear os manuscritos da biblioteca - principalmente os 350 que datam de antes do ano 1000 - surgiu como uma reação às enchentes devastadoras que acabaram com as obras de arte de Dresden, na Alemanha, em 2002, disse Ernst Tremp, especialista em história medieval e diretor da biblioteca.

O que começou como um projeto piloto em 2005 ganhou grande impulso no ano passado, quando o projeto Gallen foi incorporado a um programa para digitalizar todos os quase 7 mil manuscritos medievais da Suíça.
Ao mesmo tempo, a Fundação Mellon concordou em financiar o projeto St.
Gallen com uma bolsa de US$ 1 milhão por dois anos, com uma opção de estender o financiamento por mais dois anos depois de 2009. Donald J.
Waters, da fundação, escreveu numa mensagem de e-mail que St. Gallen "se encaixa num plano maior para ajudar disponibilizar online as principais fontes de evidências para estudos medievais."

Então agora, todos os dias, uma equipe de especialistas em escaneamento trabalha numa pequena sala sobre a biblioteca, colocando os manuscritos com cuidado sobre dois grandes quadros que utilizam mecanismos de sucção para esticar as páginas, e lasers que garantem que elas não sejam esticadas demais para não estragar a encadernação.

Câmeras digitais de alta resolução e câmeras de vídeo copiam as páginas e transferem as imagens para uma base de dados, onde são preparadas para apresentação no site da biblioteca, www.cesg.unifr.ch.
Já existem 200 manuscritos na base de dados, e 144 estão disponíveis online.

Christoph Flueler, especialista em manuscritos antigos que supervisiona o escaneamento, diz que colocar uma base de dados como essa online só se tornou possível financeiramente por conta do preço reduzido das memórias de computador, que segundo ele, custam um quinto do preço que tinham no começo da década.

"Agora podemos atingir uma qualidade muito boa", diz ele. "Seis ou sete anos trás, essa memória era simplesmente muito cara."

O projeto aumentou o número de visitantes na biblioteca da abadia para inesperados 130 mil este ano, mais do que os 100 mil de uma década atrás. Além disso, um número cada vez maior de pessoas estuda os manuscritos da biblioteca em seus computadores em vez de na própria biblioteca.

"A biblioteca ganhou mais visibilidade", diz Flueler. "Agora temos mais visitantes na internet do que na biblioteca real."

O projeto também está tornando a biblioteca mais acessível aos moradores do local. Apesar das exibições regulares de livros excepcionais, alguns dizem que os horários de visita eram sempre limitados e as áreas de recepção eram pequenas; os visitantes tinham que ficar em fila num corredor estreito, e não havia uma loja de presentes nem uma cafeteria.

"É uma jóia", diz o Dr. Uwe Lorenz, sobre a biblioteca. O médico, diretor aposentado de ginecologia no principal hospital de St. Gallen, é um acadêmico que estuda James Joyce e um conhecedor da história literária da cidade.

Apesar do elogio, Lorenz, como outros, têm suas críticas. "Eles deveriam ter feito muito mais", disse. "Sei de muitas pessoas em St.
Gallen que nunca colocaram os pés na biblioteca."

Outros ficaram indignados com o fato de que foi necessário dinheiro estrangeiro para colocar os manuscritos online.

"O governo colocou a biblioteca num cartão postal, com a legenda 'St.
Gallen pode fazê-lo'", disse o jornal local Tagblatt. "Tudo muito bonito. Mas quem fez foi os EUA."

Durante a maior parte da história da cidade, as relações entre o monastério e os moradores locais foram tensas. Michael Fischbacher, cuja empresa familiar Christian Fischbacher comercializava produtos têxteis, o tradicional carro-chefe da economia local, desde 1819, disse que a biblioteca da abadia é "algo de que nos orgulhamos".

"É a coisa mais importante nessa cidade", continuou.

Mas a história da cidade, acrescentou, foi marcada por uma "divisão entre os moradores, basicamente entre a classe mercantil e os monges, mesmo antes da Reforma."

Quando veio a Reforma, a cidade tornou-se protestante, enquanto os territórios vizinhos, governados pelo príncipe-abade do monastério, permaneceram católicos. A igreja protestante da cidade, um edifício alto estilo neogótico, fica em frente à catedral católica.

"Um vigiando o outro", diz Fischbacher. "Bastante suíço".

O escaneamento aumentou os pedidos de museus e bibliotecas para emprestarem os manuscritos e usá-los na ilustração de livros e outras publicações. A demanda cresceu tanto que Flueler montou uma pequena companhia no ano passado para atender aos pedidos, com os lucros voltados para financiar o escaneamento.

Ainda assim, diz ele, a disponibilidade online não evitará que os acadêmicos visitem a biblioteca. "Deveria ser sempre possível ver os manuscritos fisicamente", diz ele.

E, é claro, o projeto também elevou a biblioteca aos olhos dos moradores.

"De fato é o orgulho deles", diz David Stern, um músico americano nomeado recentemente como principal maestro da orquestra sinfônica e ópera municipal.

Esse orgulho aparentemente não irá evitar que o projeto procure parceiros. Será que ele vai se associar ao Google? Flueler enfatizou que o projeto do Google envolve o escaneamento rápido de livros publicados, e não o escaneamento página por página de manuscritos sem preço.

Mesmo assim, se alguém do Google viesse nos visitar, diz ele, "eu gostaria de conversar."

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