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24/10/2008

Editorial: Barack Obama para presidente

The New York Times
A hipérbole é moeda corrente nas campanhas presidenciais, mas este ano o futuro do país realmente está pendente na balança.

Os EUA estão debilitados e à deriva depois de oito anos de liderança fracassada do presidente Bush. Ele está legando a seu sucessor o peso de duas guerras, uma imagem global maculada e um governo sistematicamente desprovido de capacidade para proteger e ajudar seus cidadãos - seja quando eles fogem das inundações de um furacão, buscam tratamentos de saúde acessíveis ou lutam para conservar suas casas, empregos, poupanças e aposentadorias em meio a uma crise financeira que foi prevista e era evitável.

Nestes tempos difíceis, a escolha de um novo presidente é fácil. Depois de quase dois anos de uma campanha árdua e agressiva, o senador Barack Obama, de Illinois, provou que é a opção certa para ser o 44º presidente dos EUA.

Obama enfrentou uma série de desafios, crescendo como líder e dando substância a suas primeiras promessas de esperança e mudança. Ele demonstrou cabeça fria e opinião sólida. Acreditamos que ele tem a vontade e a capacidade de gerar um amplo consenso político que é essencial para se encontrar soluções para os problemas desta nação.

Ao mesmo tempo, o senador John McCain, do Arizona, recuou cada vez mais para as margens da política americana, conduzindo uma campanha com base na divisão partidária, na guerra de classes e até em sugestões de racismo. Suas políticas e sua visão de mundo estão presas ao passado. Sua escolha de uma parceira de chapa tão evidentemente inadequada para o cargo foi um último ato de oportunismo e erro de avaliação que eclipsou suas realizações em 26 anos no Congresso.

Dada a natureza especialmente agressiva da campanha de McCain, é forte o ímpeto de escolher com base na pura emoção. Mas há mais valor em examinar de perto os fatos da vida nos EUA hoje e as prescrições que os candidatos oferecem. As diferenças são profundas.

McCain oferece mais da ideologia republicana do cada-um-por-si, que hoje jaz em ruínas em Wall Street e nas contas bancárias dos americanos. Obama tem outra visão do papel e das responsabilidades do governo.

Em seu discurso na convenção em Denver, Obama disse: "O governo não pode solucionar todos os nossos problemas, mas o que ele deve fazer é o que não podemos fazer por nós mesmos: nos proteger do perigo e oferecer a todas as crianças uma educação decente; manter nossa água limpa e nossos brinquedos seguros; investir em novas escolas, novas estradas e nova ciência e tecnologia".

Desde a crise financeira, ele corretamente identificou a terrível ausência de regulamentação do governo que levou os mercados à beira do colapso.

A ECONOMIA

O sistema financeiro americano é vítima de décadas de políticas republicanas de desregulamentação e antiimpostos. Essas idéias se mostraram erradas, a um preço incalculável, mas McCain - um autoproclamado "soldado raso na revolução de Reagan" - ainda acredita nelas.

Obama percebe que serão necessárias reformas profundas para proteger os americanos e as empresas americanas.

McCain fala muito em reformas, mas sua visão é estreita. Sua resposta para qualquer pergunta econômica é eliminar os gastos desnecessários - cerca de US$ 18 bilhões em um orçamento de US$ 3 trilhões -, cortar impostos e esperar que os mercados resolvam o problema sem intervenção.

Para Obama, está claro que a estrutura fiscal do país deve ser modificada para que seja mais justa. Isso significa que os americanos abastados que se beneficiaram desproporcionalmente dos cortes fiscais de Bush terão de pagar um pouco mais. Os trabalhadores americanos, que viram seu padrão de vida cair e as opções de seus filhos se reduzirem, serão beneficiados. Obama quer aumentar o salário mínimo e atrelá-lo à inflação, restaurar um clima em que os trabalhadores sejam capazes de organizar sindicatos, se desejarem, e expandir as oportunidades educacionais.

McCain, que já foi contra os cortes de impostos do presidente Bush para os ricos como fiscalmente irresponsáveis, hoje quer torná-los permanentes. Enquanto ele fala em manter impostos baixos para todos, suas propostas de cortes beneficiariam majoritariamente o 1% de americanos mais ricos, enquanto mergulhariam o país em um buraco fiscal mais profundo.

SEGURANÇA NACIONAL

Os militares americanos - pessoal e equipamento - estão perigosamente estressados. Bush negligenciou a guerra necessária no Afeganistão, que ameaça entrar em uma espiral para a derrota. A guerra desnecessária e incrivelmente cara no Iraque deve ser terminada com a maior rapidez e responsabilidade possíveis.

Enquanto os líderes iraquianos insistem em uma retirada rápida das tropas americanas e em um prazo para o fim da ocupação, McCain ainda fala em uma mal definida "vitória". Em conseqüência, ele não ofereceu um plano real para retirar as tropas americanas e limitar novos danos ao Iraque e seus vizinhos.

Obama foi um adversário precoce e consciente da guerra no Iraque, e apresentou um plano militar e diplomático para a retirada das forças dos EUA. Obama também advertiu corretamente que enquanto o Pentágono não começar a tirar as tropas do Iraque não haverá tropas suficientes para derrotar os taleban e a Al Qaeda no Afeganistão.

Assim como Bush, McCain só se concentrou tardiamente na perigosa evolução no Afeganistão e na ameaça de que o vizinho Paquistão poderá segui-lo rapidamente.

Obama teria um período de aprendizado em relações exteriores, mas já demonstrou uma avaliação mais sólida do que seu adversário sobre essas questões críticas. Sua escolha do senador Joseph Biden - que tem uma profunda perícia em política externa - como seu candidato a vice é outro sinal desse julgamento sólido. O antigo interesse de McCain por política externa e os muitos perigos que ameaçam este país tornam mais irresponsável sua escolha da governadora Sarah Palin, do Alasca.

Os dois candidatos presidenciais falam em reforçar alianças na Europa e na Ásia, incluindo a Otan, e em apoiar firmemente Israel. Ambos falam em reparar a imagem dos EUA no mundo. Mas parece claro para nós que Obama tem muito maior probabilidade de fazer isso - e não apenas porque o primeiro presidente negro mostraria uma nova face americana ao mundo.

Obama quer reformar as Nações Unidas, enquanto McCain quer criar uma nova entidade, a Liga de Democracias - uma medida que provocaria novas fúrias anti-americanas em todo o mundo.

Infelizmente, McCain, assim como Bush, vê o mundo dividido entre amigos (como a Geórgia) e adversários (como a Rússia). Ele propôs expulsar a Rússia do Grupo dos 8 países industrializados mesmo antes da invasão da Geórgia. Não temos simpatia pela prepotência de Moscou, mas também não desejamos reencenar a Guerra Fria. Os EUA devem encontrar uma maneira de conter os piores impulsos dos russos, enquanto preservam a capacidade de trabalhar com eles no controle de armas e outras iniciativas vitais.

Os dois candidatos falam com firmeza sobre terrorismo, e nenhum deles descartou a ação militar para pôr fim ao programa de armas nucleares do Irã. Mas Obama pediu um sério esforço para tentar dissuadir Teerã de suas ambições nucleares com medidas diplomáticas mais verossímeis e sanções mais duras. A disposição de McCain a brincar sobre bombardear o Irã foi assustadora.

A CONSTITUIÇÃO E O ESTADO DE DIREITO

Sob Bush e o vice-presidente Dick Cheney, a Constituição, a Carta de Direitos, o sistema judiciário e a separação entre os poderes sofreram ataques incessantes. Bush decidiu explorar a tragédia de 11 de setembro de 2001, o momento em que ele pareceu o presidente de uma nação unida, para tentar se colocar acima da lei.

Bush reivindicou o poder de prender homens sem acusações e intimidou o Congresso a lhe conceder uma autoridade ilimitada para espionar os americanos. Ele criou um número incontável de programas "negros", incluindo prisões secretas e tortura terceirizada. O presidente emitiu centenas ou milhares de ordens secretas. Tememos que sejam necessários anos de pesquisa forense para descobrir quantos direitos fundamentais foram violados.

Os dois candidatos renunciaram à tortura e se comprometeram a fechar o campo de prisioneiros na baía de Guantánamo em Cuba.

Mas Obama foi além, prometendo identificar e corrigir as agressões de Bush ao sistema democrático. McCain se calou sobre o tema.

McCain melhorou a proteção para os detidos. Mas depois ajudou a Casa Branca a aprovar o terrível Ato de Comissões Militares de 2006, que negou aos detidos o direito a uma audiência em um tribunal real e colocou Washington em conflito com as Convenções de Genebra, aumentando enormemente o risco para as tropas americanas.

O próximo presidente terá a oportunidade de indicar um ou mais juízes para a Suprema Corte, que está prestes a ser dominada por uma ala de direita radical. Obama poderá indicar juízes menos liberais do que alguns de seus seguidores poderiam prever, mas McCain certamente escolherá ideólogos rígidos. Ele disse que nunca nomearia um juiz que acredite nos direitos reprodutivos da mulher.

OS CANDIDATOS

Será um enorme desafio apenas colocar o país de volta onde estava antes de Bush, começar a reparar sua imagem no mundo e restaurar sua autoconfiança e seu respeito próprio. Fazer tudo isso e levar os EUA adiante exigirá força de vontade, caráter e intelecto, julgamento sóbrio e mão firme e fria.

Obama tem essas qualidades em abundância. Observá-lo sob pressão na campanha há muito eliminou as reservas que nos levaram a apoiar a senadora Hillary Rodham Clinton nas primárias democratas. Ele atraiu legiões de novos eleitores com mensagens fortes de esperança e possibilidade e apelos ao sacrifício comum e à responsabilidade social.

McCain, que escolhemos como melhor indicado republicano nas primárias, gastou as últimas fichas de sua reputação por princípios e julgamento sólidos para aplacar as exigências ilimitadas e a visão estreita da extrema-direita. Sua justa fúria ao ser eliminado nas primárias de 2000 em uma onda racista que visou sua filha adotiva foi substituída por um abraço zeloso às mesmas táticas e os mesmos estrategistas para ganhar a qualquer preço.

Ele abandonou sua posição de pensador independente na pressa para adotar as políticas fiscais ilegítimas de Bush e abandonar sua posição de liderança sobre a mudança climática e a reforma da imigração.

McCain poderia ter aproveitado o atual enfoque para a energia e o meio ambiente. No início de sua carreira ele apresentou o primeiro projeto de lei plausível para controlar as emissões de gases do efeito estufa nos EUA. Hoje suas posições são uma caricatura disso: pense em Palin entoando slogans de "perfure, baby, perfure".

Obama endossou algumas perfurações oceânicas, mas como parte de uma estratégia abrangente que inclui grandes investimentos em novas tecnologias limpas.

Obama suportou alguns dos mais duros ataques de campanha já armados contra um candidato. Ele foi chamado de anti-americano e acusado de ocultar uma fé secreta no islamismo. Os republicanos o ligaram a terroristas domésticos e questionaram o amor de sua esposa pelo país. Palin também questionou o patriotismo de milhões de americanos, chamando os estados de tendência republicana de "pró-América".

Essa política de medo, divisão e assassinato de caráter ajudou Bush a eliminar McCain nas primárias republicanas de 2000 e a derrotar o senador John Kerry em 2004. Foi o tema dominante de sua presidência fracassada.

Os problemas do país são simplesmente graves demais para serem reduzidos a cortar "telefonemas robóticos" e propaganda negativa. Este país precisa de uma liderança sensata, uma liderança compassiva, uma liderança honesta e uma liderança forte. Barack Obama demonstrou que tem todas essas qualidades. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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