UOL Notícias Internacional
 

25/10/2008

A fé de Sarah Palin

The New York Times
Laurie Goodstein
Em uma entrevista nesta semana para a "Christian Broadcasting Network", foi pedido à governadora do Alasca, Sarah Palin, a candidata republicana à vice-presidência, para que esclarecesse sua fé, "exatamente no que você acredita", incluindo seu envolvimento com o Pentecostalismo.

Palin respondeu de forma geral, mas extensa, sobre como se volta a Deus à procura de força, orientação e sabedoria. "Minha fé sempre foi bastante pessoal", ela disse. Mas não falou mais especificamente sobre a igreja à qual é afiliada ou suas crenças.

A fé de Palin passou a sofrer maior escrutínio depois que dois vídeos realizados em sua antiga igreja apareceram no YouTube e se tornaram imediatamente uma sensação. O primeiro mostrava um pastor visitante do Quênia rezando fervorosamente sobre Palin em voz grave, pedindo a Deus que favorecesse a campanha dela para governadora e a protegesse de "toda forma de feitiçaria".

O segundo mostrava Palin em um evento em junho, elogiando a oração do pastor africano como "incrível" e "muito, muito poderosa". Ela também é vista aprovando enquanto seu ex-pastor de Wasilla ora sobre ela e declara que o Alasca "é um dos Estados-refúgio dos Últimos Dias", uma profecia popular entre algumas redes de oração e que prevê que à medida que o "fim dos tempos" se aproximar, as pessoas rumarão para o Alasca em busca de seus abundantes espaços abertos e recursos naturais.

Palin se recusou na entrevista a responder questões específicas sobre sua fé, assim como a campanha de McCain. Logo, é difícil dizer com certeza no que ela acredita.

Mas o que se sabe é que Palin há muito mantém associações com líderes religiosos que praticam uma forma particularmente urgente e assertiva de pentecostalismo conhecida como "Guerra Espiritual".

Seus seguidores acreditam que forças demoníacas podem possuir indivíduos e colonizar áreas geográficas específicas, e que os "guerreiros espirituais" devem "combatê-los" e afirmar o controle de Deus, usando a oração e a evangelização. A fixação do movimento em demônios, sua agressividade e as alegações de seus líderes de autoridade espiritual incomodam até mesmo alguns cristãos pentecostais.

Palin fez um entusiasmado discurso de formatura para uma classe de jovens guerreiros espirituais em junho, na Assembléia de Deus de Wasilla, a igreja na qual ela foi criada.

Como governadora, Palin nomeou Patrick Donelson, um pastor e guia de pesca que ajudou a fundar um ministério da guerra espiritual, à única cadeira reservada a membros do clero no Conselho de Prevenção a Suicídios do Estado.

O bispo Thomas Muthee, o pastor queniano mostrado no vídeo no YouTube a abençoando enquanto ela concorria ao governo estadual, é celebrado internacionalmente como um guerreiro espiritual eficaz, que liderou um movimento de oração que expulsou uma feiticeira de sua cidade no Quênia. A remoção da feiticeira, disse Muthee, resultou em queda na criminalidade, no alcoolismo e nos acidentes de trânsito.

Líderes religiosos no Alasca, incluindo Donelson, se recusaram a dar entrevista, com vários dizendo que foram instruídos pela campanha de McCain-Palin a não falarem com membros da mídia.

Russell P. Spittler, reitor emérito do Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califórnia, e um estudioso eminente do pentecostalismo, disse: "A maioria dos cristãos aceita a idéia de que há forças e poderes no mundo que se opõem às virtudes cristãs". Mas, acrescentou Spittler, "a Guerra Espiritual transforma em religião a identificação de demônios pelo nome e código postal".

Os promotores da Guerra Espiritual dizem que seu vocabulário soa mais militante do que seus métodos.

"O termo 'guerra espiritual' pode soar assustador se você não for letrado na Bíblia", disse George Otis Jr., presidente do Grupo Sentinela, em Seattle, que ajudou a espalhar o movimento ao produzir documentários em vídeo da Guerra Espiritual em ação.

"Ele é tirado do capítulo seis de 'Efésios', que fala que as armas de nossa guerra não são deste mundo", disse Otis. "O que significa, nós não respondemos com armas ou violência. Se temos um problema com alguém, nós oramos."

Os críticos dizem que a meta do movimento Guerra Espiritual é criar uma teocracia. Bruce Wilson, um pesquisador da Talk2Action, um site que monitora os grupos religiosos, disse: "Um dos imperativos do movimento é conquistar o poder mundial, incluindo o controle político. Então será possível expulsar os demônios de forma mais eficaz. A meta última é purificar a Terra".

Palin mencionou os "guerreiros de oração" em uma entrevista de rádio na quarta-feira com o dr. James C. Dobson, o fundador da Foco na Família, um ministério multimídia cristão conservador. Dobson disse a Palin que ele e sua esposa, Shirley, estavam rezando por ela, e que reuniram 430 pessoas no último fim de semana para rezar para que "a vontade perfeita de Deus seja feita em 4 de novembro".

Ela respondeu: "Eu posso sentir o poder da oração e a força que é fornecida pelos nossos guerreiros da oração por todo este país".

Palin foi batizada católica romana quando bebê, mas quando era jovem sua mãe levou a família para a igreja da Assembléia de Deus de Wasilla. A igreja faz parte das Assembléias de Deus, uma denominação pentecostal com 2,8 milhões de membros nos Estados Unidos e 60 milhões em todo o mundo.

O pentecostalismo é a forma de cristianismo que mais cresce, tanto nos Estados Unidos quanto no mundo. Os pentecostais acreditam que o Espírito Santo pode tocar diretamente os fiéis por meio de "dons" espirituais, como falar em línguas desconhecidas, curas divinas, expulsão de demônios e a habilidade de profetizar. A Guerra Espiritual é apenas uma corrente nas igrejas pentecostais e carismáticas.

Desde que Palin deixou a igreja da Assembléia de Deus de Wasilla há seis anos, ela não ingressou em outra igreja. Dentre as quatro igrejas que freqüenta com mais assiduidade, três são pentecostais ou "carismáticas". A última é uma igreja que adota práticas pentecostais, mas não faz parte da denominação pentecostal.

Palin mantém relações amistosas com o pastor da igreja da Assembléia de Deus de Wasilla, Ed Kalnins. Em junho, ela e outros políticos foram abençoados por Kalnins diante de milhares no "Domingo do Único Senhor", um evento patrocinado por múltiplas igrejas no complexo esportivo de Wasilla.

O relacionamento da governadora com os praticantes da Guerra Espiritual parece remontar muitos anos. Mary Glazier, uma cidadã do Alasca que ajudou a formar as redes de guerreiros de oração no Estado, disse em uma conferência de oração em junho que Palin "se tornou parte de nosso grupo de oração em Wasilla" quando tinha 24 anos, e que "Deus começou a falar" para ela para entrar na política.

Glazier não respondeu às mensagens deixadas em seu escritório. Mas um amigo dela, J. Lee Grady, editor da revista "Charisma", disse que Glazier lhe disse recentemente que quando Palin estava na faixa dos 20 anos, ela fazia parte de sua rede de oração.

Grady, cuja revista cobre e promove o cristianismo carismático, e outros líderes pentecostais disseram se sentir profundamente perturbados com a forma como as crenças religiosas de Palin são retratadas como bizarras ou assustadoras.

"Nós não vemos nenhum problema no fato de um pastor africano rezar por ela e acreditar que Jesus é mais poderoso do que a atividade demoníaca", ele disse. George El Khouri Andolfato

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