UOL Notícias Internacional
 

26/10/2008

Para combater problemas de auxílio alimentar, tente as batatas

The New York Times
Elisabeth Rosenthal
Em Vitoria-Gasteiz (Espanha)
Com os governos enfrentando problemas para alimentar o número crescente de pobres famintos e os preços dos grãos flutuando exageradamente, os estudiosos da alimentação estão propondo uma nova solução para a crise mundial de alimentos: deixem que comam batatas.

Grãos como trigo e arroz são há muito tempo a dieta básica na maior parte do mundo e a principal moeda de ajuda humanitária em alimentos. Hoje, vários cientistas, nutricionistas e especialistas em ajuda humanitária estão cada vez mais convencidos de que as humildes batatas deveriam exercer um papel muito maior para assegurar um suprimento constante de alimentos no mundo em desenvolvimento.

Os países pobres poderiam plantar mais batatas, dizem, para complementar ou até mesmo substituir os grãos que na maioria das vezes percorrem longas distâncias e ficam sujeitos às severas oscilações do mercado.

Mesmo antes do aumento drástico no começo deste ano, os governos de países como a China, Peru e Malawi começaram a incentivar tanto o plantio quanto o consumo do tubérculo como uma forma de assegurar a segurança alimentar e aumentar o lucro rural.

A produção na China cresceu 50% de 2005 a 2007, e o governo chamou o vegetal de "uma saída para a pobreza". No Peru, onde as batatas são tradicionalmente parte da dieta das altitudes, o presidente Alan Garcia liderou uma campanha para promover o consumo nas cidades, atingindo 20% de aumento neste ano.

Há uma década, a maior parte das variedades de batata eram cultivadas e consumidas nos países desenvolvidos, principalmente na Europa e nas Américas. Hoje, a China e a Índia - nenhum deles grandes consumidores do alimento no passado - ficaram em primeiro e terceiro lugar, respectivamente, na produção mundial de batatas. E em 2005, pela primeira vez, os países em desenvolvimento foram responsáveis pela maior parte da produção no mundo.

"Cada vez mais, a batata é vista como uma cultura vital de subsistência alimentar e como um substituto para as custosas importações de grãos", diz NeBambi Lutaladio, especialista em raízes e tubérculos na FAO, a agência da ONU para agricultura e alimentação, em Roma.
"O consumo de batata está se expandindo fortemente nos países em desenvolvimento, onde a batata é uma fonte cada vez mais importante de alimento, emprego e receita", disse.

Apesar de os preços dos grãos terem caído nos últimos meses em relação às altas históricas, eles ainda estão bem mais caros do que eram há apenas dois anos. A agência da ONU continua a encorajar os países para diversificar com a produção de batatas, diz Lutaladio, acrescentando:
"A economia mundial entrou numa fase de oscilações extremas. Novos preços, ainda mais altos, podem estar logo virando a esquina."

Assim, a imagem da batata está mudando de um alimento tipicamente presente na dieta de camponeses e porcos (e associada mais com um período de fome devastadora na Irlanda) para um auxílio nutricional sério e um objeto de estudos científicos. Quando a ONU anunciou no ano passado que 2008 seria o Ano da Batata, poucos levaram a sério. Isso foi antes que os preços dos grãos dobrassem entre o começo de 2007 e a primavera de 2008, e o Programa de Alimentos da ONU anunciasse que precisava de meio bilhão de dólares extra para comprar grãos.

Pamela K. Anderson, diretora do Centro Internacional da Batata, um centro de pesquisa científica global em Lima, Peru, disse que já no ano passado a pergunta mais comum que ela respondeu dizia respeito à sua receita de batatas favorita. "Agora o sistema alimentar é tão frágil que as pessoas pararam de rir. Elas estão se perguntando: 'Como as batatas podem resolver o problema?'".

Anderson estava entre as dezenas de cientistas internacionais que se encontraram este mês no centro do país Basco em Neiker Technicalia, um núcleo de pesquisas sobre o tubérculo que existe há 200 anos. Seu objetivo: discutir os avanços no cultivo de batata, como o desenvolvimento de variedades resistentes a pragas e seca que poderiam ser usadas em países mais pobres.

As batatas são uma boa fonte de proteína, amido, vitaminas e nutrientes como o zinco e o ferro. Enquanto cultura, elas requerem menos energia e água do que o trigo, levando apenas três meses desde o plantio até a colheita.

Uma vez que são pesadas e não resistem bem ao transporte, elas normalmente não são comercializadas nos mercados financeiros mundiais, tornando seu preço menos vulnerável à especulação. E elas ainda não são usadas para produzir biocombustíveis, o que ajuda a diminuir o preço.

Os preços dos grãos aumentaram no ano passado em parte porque eles eram necessários para a produção de biocombustíveis. Enquanto esses valores subiam aos céus, os preços das batatas continuaram estáveis.

Além disso, as safras do vegetal podem ser facilmente ampliadas na maior parte do mundo, onde elas são plantadas de forma ineficiente e em pouca quantidade.

Graças à "revolução verde" dos anos 70, safras de trigo, arroz e milho cresceram mais de 50% em uma década à medida que eram usados fertilizantes e novas técnicas de plantio. As batatas nunca receberam esse tipo de atenção.

Em países pobres, a safra de batatas é relativamente baixa, de apenas cinco toneladas por hectare, menos de 15% da produção nos países desenvolvidos.

Da perspectiva dos programas tradicionais de auxílio alimentar - que compram ou recebem alimentos de lugares onde eles são produzidos a baixo custo e com eficiência e os enviam para onde são necessários - os tubérculos têm limitações.

Porque elas apodrecem rápido e são pesadas para transportar, grupos como o Programa Mundial de Alimentos as evitam. Comparativamente, elas contêm menos proteína do que o trigo; se bem que, por outro lado, um acre de batatas produz mais proteína do que um acre de trigo.

"Elas são bastante perecíveis, especialmente nos climas quentes; elas brotam e apodrecem bem rápido", diz Tina Vanden Briel, especialista em nutrição no Programa Mundial de Alimentos. Ela disse também que as batatas são atualmente um alimento básico em poucos países, apesar de serem amplamente usadas em ensopados.

"Passar do arroz para as batatas é um grande salto para as pessoas", disse.

Entretanto, a agência tornou uma prioridade aumentar a produção de alimentos para auxílio nos países necessitados, tanto para diminuir os custos de transporte numa época de combustíveis caros quanto para auxiliar as economias locais. Eloise De Vylder

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