UOL Notícias Internacional
 

27/10/2008

Tour de barco acadêmico oferece nova visão de Istambul

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Istambul (Turquia)
Murat Belge é um dos mais importantes intelectuais turcos. Ele é também - quando bate a vontade - um dos guias de turismo mais eruditos da cidade.

Então, quando ele entra no barco nas manhãs de domingo para um passeio subindo o estreito de Bósforo para falar sobre sua amada cidade, várias centenas de pessoas fazem fila para ouvi-lo.

Seu interesse por história, e a sua fala estão repletos de fofocas do século 19. O sultão paranóico que vivia diretamente no mar para poder controlá-lo. A empregada que se prostituiu para sustentar sua patroa, cujo marido albanês havia roubado o dinheiro do casal. Uma árvore da época das Cruzadas que foi cortada em 1934 para uma escola de jardinagem.

A história pode ser dúbia na Turquia, que se tornou um Estado moderno em 1923, costurado a partir do mosaico étnico do que sobrou do Império Otomano. A versão oficial é mantida a sete chaves, e os escritores podem ser até mesmo punidos por tentar desvendá-la.

Belge (pronuncia-se BEL- geh), um esquerdista proeminente que ensina literatura comparada na Universidade de Bilgi em Istambul, sabe bem disso. Ele foi preso por dois anos durante um golpe militar nos anos 70, e foi processado (mas não preso) nos últimos anos, por conta de textos que havia escrito apoiando uma conferência sobre os armênios no início do século 20, na época do genocídio da população armênia no Império Otomano.

Mas isso não parece ter minado a sua irreverência, que fluía tão livremente como o licor de anis do almoço num restaurante de frutos do mar durante um tour neste verão. "Temos uma relação muito pouco saudável com nossa história", disse. "Ela é basicamente uma coleção de mentiras."

No doloroso nascimento da Turquia, no final da 1ª Guerra Mundial, seu fundador, Mustafa Kemal Ataturk, desmantelou a estrutura do Estado Otomano, que existia há 600 anos. Em vez de moldar uma identidade nacional baseada nos otomanos, ele enfatizou a "personalidade turca", evocando o passado hitita de 2600 A.C.

"Estabelecer um Estado é fácil, mas criar uma nação é extremamente difícil", diz Belge. "Nós ainda estamos sofrendo as conseqüências."

Mas seu objetivo não é o confronto. Pelo contrário, seu grande afeto por esta bela cidade - empilhada sobre si mesma ao longo dos séculos - e sua atenção cuidadosa aos detalhes oferecem ao público um olhar novo sobre o ambiente em que vive.

A jornada começa na Europa (parte da cidade está na Europa e parte na Ásia), não longe de Dolmabahce, um palácio otomano construído no século 19 quando o império já estava em profundo declínio. As varandas, diz Belge, foram trazidas à Turquia por projetistas europeus.

"O Tanzimat surgiu nessa península", diz Belge, apontando para uma faixa verde de terra, onde os minaretes da Mesquita Azul do século 17 despontam no céu.

Tanzimat, nome de um período de reformas durante o século 19, foi uma breve tentativa de modernização em que os otomanos estabeleceram o parlamento e uma constituição, além de concederem mais direitos para minorias étnicas e religiosas.

Foi uma época de comércio internacional vigoroso, com muitos mais navios chegando ao porto do que nos primeiros anos da república turca, disse ele, acrescentando que "os otomanos eram muito mais globalizados nesse sentido."

Os otomanos não queriam que seu poder tivesse nenhuma concorrência, então, ao contrário da sociedade européia, não havia nenhuma classe de nobres donos de terras, diz Belge. As pessoas podiam conseguir riqueza e status rapidamente.

Foi assim para um militar analfabeto, que se tornou comandante-chefe do exército. Ele assinava seu nome usando os números arábicos 7 e 8, com alguns desenhos ondulados no meio, porque aquilo parecia escrita para ele. Sua mulher, uma lavadeira, nunca se acostumou com seu importante novo status, e envergonhava os convidados recusando-se a sentar-se na presença deles, algo que era inaceitável para os serviçais na época.

As mansões de frente para a água, ou yalis (pronuncia-se YAW-luhs), estão entre os pontos favoritos de Belge no Bósforo. Ele morou em uma delas durante o verão de 1974 e desde então tenta desenterrar suas histórias. Foi isso, na verdade, que o levou a trabalhar como guia turístico.

Como professor e escritor, ele gosta de dividir aquilo que sabe, então começou a guiar passeios a pé. No século 19, até mesmo os homens de negócios viviam nos yalis de frente para a água. Belge apontou para um conhecido como o "yali do produtor de couro para sapatos".

O yali da cobra recebeu esse nome quando um sultão fez elogios sobre o local a um servo. O homem conhecia o dono do yali que, com medo que a mansão fosse tomada pelo sultão, respondeu que o yali parecia bonito por fora, mas estava infestado de cobras.

Belge chamou a atenção para um antigo tribunal incendiado. "Na Turquia, é comum que os prédios da justiça peguem fogo, para que os arquivos desapareçam", disse em tom irônico. Então indicou um espaço vazio onde um yali havia sido destruído por uma balsa fora de controle. "Viver no Bósforo é bom, mas existem os riscos", disse. Eloise De Vylder

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