UOL Notícias Internacional
 

29/10/2008

Friedman: Insone em Teerã

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Eu sempre me senti em dúvida em relação à oferta de Barack Obama de negociar com o Irã - não por não acreditar que seja a estratégia certa, mas porque não acredito que tenhamos uma vantagem suficiente para ter sucesso. E negociar no Oriente Médio sem alguma vantagem é como jogar beisebol sem um taco.

Bem, se Obama chegar à presidência, meu instinto me diz que ele terá uma chance de negociar com os iranianos -empunhando um taco.

Você viu as reportagens de que o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, está sofrendo de exaustão? Provavelmente se deve ao fato de não estar dormindo à noite. Eu sei o motivo. Assistir os preços do petróleo caírem de US$ 147 o barril para US$ 57 não é como contar carneiros. É o tipo de coisa que dá a um autocrata iraniano sonhos ruins.

Afinal, foi o colapso dos preços globais do petróleo no início dos anos 90 que provocaram o colapso da União Soviética. E o Irã atualmente está parecendo bem soviético para mim.

Como Vladimir Mau, presidente da Academia da Economia Nacional da Rússia, apontou para mim, foi o longo período de preços altos do petróleo seguido por preços acentuadamente mais baixos que matou a União Soviética. A alta dos preços do petróleo nos anos 70 iludiu o Kremlin a aumentar exageradamente os subsídios em casa e invadir o Afeganistão no exterior - e então o colapso dos preços nos anos 80 ajudou a derrubar esse império aumentado de forma exagerada.

(Por acaso, foi exatamente isso o que aconteceu com o xá do Irã: 1) Repentino aumento nos preços do petróleo. 2) Ilusões de grandeza. 3) Contração repentina dos preços do petróleo. 4) Queda dramática. 5) Você já era.)

Sob Ahmadinejad, os mulás do Irã promoveram uma orgia de subsídios domésticos - usando o dinheiro do petróleo para amortecer os preços dos alimentos, gasolina, hipotecas e para criar empregos- visando comprar o povo iraniano. Mas uma coisa que Ahmadinejad não pôde comprar foi crescimento econômico real. O Irã atualmente possui 30% de inflação, 11% de desemprego e imenso subemprego, com milhares de jovens universitários recém-formados, engenheiros e arquitetos vendendo pizza e dirigindo táxis. E agora com a queda dos preços do petróleo, o Irã - como a União Soviética - terá de cortar gastos em todas as áreas. Prendam seus cintos de segurança.

A ONU impôs três rodadas de sanções contra o Irã desde que Ahmadinejad tomou posse, em 2005, por causa da recusa do Irã em suspender o enriquecimento de urânio. Mas os altos preços do petróleo minimizaram essas sanções; o colapso dos preços do petróleo agora ampliarão essas sanções. Se os preços permanecerem baixos, há uma boa chance de que o Irã se abrirá para negociar seu programa nuclear com o próximo presidente americano.

Isso é uma coisa boa porque o Irã também financia o Hizbollah, o Hamas, a Síria e os xiitas antiamericanos no Iraque. Se os Estados Unidos quiserem sair do Iraque e deixarem para trás um resultado decente, além de romper os impasses no Líbano e em Israel-Palestina, é preciso colocar um fim à Guerra Fria com o Irã. É possível? Eu não sei, mas o colapso dos preços do petróleo deve nos dar uma oportunidade.

Mas vamos usar nossa vantagem de forma inteligente e não exagerar a força do Irã. Assim como acredito que devemos reduzir a recompensa pela captura de Osama Bin Laden - de US$ 50 milhões para um centavo, mais uma foto autografada de Dick Cheney - nós também precisamos deflacionar os mulás iranianos. Deixem que eles nos procurem.

Karim Sadjadpour, um especialista em Irã do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, comparou isso a pechinchar por um tapete persa em Teerã. "Quando você entra na loja de tapetes, a primeira coisa que você deve fazer é supostamente fingir desinteresse", ele explicou. "A última coisa que você deseja sugerir é 'nós não sairemos sem aquele tapete'. 'Ora', dirá o vendedor, 'se você o deseja tanto...'"

A outra lição do mercado de tapete, disse Sadjadpour, "é que nunca há um preço definido para qualquer tapete. O vendedor não está à procura de um preço fixo, mas do preço mais alto que puder receber - e o preço no Irã está constantemente flutuando dependendo do preço do petróleo". Vamos usar isso agora em nosso prol.

Barack Hussein Obama apresentaria outro desafio para os mulás do Irã. Todo argumento deles para serem como são é que estão resistindo a um poder americano hegemônico que deseja manter todos submissos. De repente, na próxima semana, os iranianos poderão olhar e ver que o país que seus líderes chamam de "O Grande Satã" acabou de eleger "um sujeito cujo segundo nome é o da figura central no Islã xiita - Hussein - e cujo sobrenome - Obama - quando feita a transliteração para o farsi, significa 'Ele está conosco'", disse Sadjadpour.

O Irã está maduro para um esvaziamento. Seu poder foi inflado pelo poder do petróleo e pela popularidade de seu líder, que era aplaudido apenas por sua disposição de cutucar os Estados Unidos. Mas como verdadeiro empreendimento de construção de uma nação, a Revolução Islâmica no Irã tem sido um fracasso abjeto.

"Quando se pergunta aos jovens árabes que líderes na região eles mais admiram", disse Sadjadpour, eles geralmente respondem os líderes do Hamas, Hizbollah e do Irã. "Quando é perguntado em que lugar do Oriente Médio eles mais gostariam de viver", ele acrescentou, "a resposta geralmente é em lugares socialmente mais abertos como Dubai e Beirute. A República Islâmica do Irã nunca está entre os 10 mais". George El Khouri Andolfato

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