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30/10/2008

Países de economia saudável deverão receber empréstimos do FMI

The New York Times
Mark Landler
Em Washington (EUA)
Assim como a crise financeira, a iniciativa de socorro aos países com problemas também tornou-se global.

Na quarta-feira (29), o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou que emprestará US$ 100 bilhões aos países de economia saudável que estão tendo problemas para receber empréstimos devido à confusão nos mercados globais. E o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) anunciou que reservará uma quantia de US$ 30 bilhões para cada um dos seguintes países: Brasil, México, Coréia do Sul e Cingapura. O empréstimo permitirá que esses países convertam com mais facilidade as suas moedas em dólares.

O objetivo dessas medidas coordenadas é restaurar a confiança nos países emergentes, onde as ações e as moedas despencaram nos últimos dias, quando os fundos de hedge e outros investidores recuaram dos mercados.

Na quarta-feira, após estas notícias, as ações e as moedas locais dispararam em locais como São Paulo e Cidade do México.

"Estaríamos cometendo um erro grande e infeliz se permitíssemos que os problemas dos sistemas financeiros dos Estados Unidos e da Europa se disseminassem e prejudicassem inadvertidamente as economias dos emergentes", afirma Charles H. Dallara, diretor do Instituto para Finanças Internacionais, um grupo de mais de 300 bancos internacionais que fizeram pressão pela aprovação das medidas.

Algumas economias frágeis, como Islândia, Hungria e Ucrânia já quase entraram em colapso, e estão recebendo empréstimos emergenciais do fundo.

Este novo programa - potencialmente um dos maiores da história do FMI - é feito para países que apresentam estrutura financeira mais estável e crescimento sólido, e que subitamente enfrentam a ameaça de inadimplência corporativa, ou até mesmo governamental, à medida que os investidores vão embora.

Países que se enquadram nesta categoria, incluindo o Brasil, o México e a Coréia do Sul, dependem de capital estrangeiro para financiar o comércio e os investimentos. Alguns também endividaram-se pesadamente em divisas estrangeiras, e a desvalorização acentuada de suas moedas fazem com que seja muito mais difícil quitar tais dívidas.

Segundo o programa, os países poderão pegar emprestado o quíntuplo do que normalmente têm direito a receber - US$ 25 bilhões, no caso do Brasil - sem as condições rígidas que normalmente acompanham tais empréstimos. Embora os empréstimos sejam para apenas três meses, eles podem ser renovados três vezes, permitindo que esses países tenham quase um ano para cobrir a carência de verbas.

Os empréstimos não estarão vinculados a nenhuma das condições que normalmente são exigidas pelo fundo, incluindo as exigências de elevação das taxas de juros e de redução dos gastos públicos.

A iniciativa do Fed permitirá que Coréia do sul, Cingapura, México e Brasil elevem a quantidade escassa de dólares que está circulando nestes mercados.

Os acordos são similares aos que o Fed estabeleceu com o Bank of Japan, o Reserve Bank da Austrália, o Banco Central Europeu e outros com o objetivo de aliviar a crise de crédito nas economias desenvolvidas.

O Fed recebeu bem a iniciativa do fundo. E o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., disse que as medidas demonstraram o aprofundamento da cooperação internacional duas semanas antes de uma reunião de líderes mundiais em Washington para a discussão da crise.

Tem circulado boatos de que o Fed e outros bancos centrais poderiam ajudar a financiar o programa de empréstimos do FMI. Mas Dallara afirma que o Fed teria achado isso estranho, já que a contribuição dos Estados Unidos ao fundo é feita através do Tesouro.

O fundo anunciou que financiará esses empréstimos com recursos próprios, que totalizam cerca de US$ 200 bilhões. A instituição está solicitando mais dinheiros de países com amplas reservas de moeda estrangeira, como a China, o Japão e os exportadores de petróleo.

O fundo já concordou em emprestar US$ 15,7 bilhões à Hungria, US$ 16,5 bilhões à Ucrânia e US$ 2,1 bilhões à Islândia. Ele está em meio a conversações com o Paquistão sobre um empréstimo que poderia ser ainda maior. É praticamente certo que a lista de países em apuros continuará crescendo.

"Provavelmente necessitaremos de mais recursos", afirmou em uma coletiva à imprensa Dominique Strauss-Kahn, diretor do FMI. "O fundo não tem condições de resolver o problema sozinho".

O programa de empréstimos expande bastante o papel do fundo em um momento de crise no qual os líderes mundiais estão dando início a um debate a respeito de como criar uma nova estrutura financeira global. Como os países ocidentais estão sobrecarregados com as suas próprias e dispendiosas iniciativas de resgate financeiro, tem-se a impressão de que o fundo continuará sendo um grande fornecedor de apoio às economias de mercado emergente.

Essa perspectiva incomoda alguns críticos, que reclamam de que o fundo está prescrevendo as mesmas medidas radicais que causaram sofrimento desnecessário em alguns países asiáticos durante a crise financeira naquela região uma década atrás.

Eles observam que a Islândia acabou de elevar as suas taxas de juros em 3%, para um patamar de 18%, a fim de estabilizar a sua moeda, que foi dizimada após a bancarrota dos bancos. Autoridades do FMI dizem que a elevação das taxas de juros foi uma exigência para a concessão do empréstimo de emergência à Islândia.

"Eles recorreram ao mesmo vocabulário usado em crises passadas, afirmando que nós precisamos restaurar a confiança", diz Joseph E. Stiglitz, economista ganhador do prêmio Nobel da Paz, que já foi economista graduado do Banco Mundial. "Isso não restaura a confiança; só leva a mais falências".

Ele acrescentou que se o FMI aplicar tais remédios em um país socialmente instável como o Paquistão, os riscos serão enormes. Mesmo assim, Stiglitz se diz encorajado pelo novo programa de empréstimos.

O governo da Hungria advertiu na quarta-feira que a tomada de um empréstimo junto ao FMI implicará em sacrifícios para a população. Um ex-presidente do banco central do país, Peter Akos Bod, disse que teme que o fundo pressione a Hungria a elevar as suas taxas de juros, que já estão elevadas e que, segundo ele, contribuíram para o hábito de companhias e indivíduos húngaros tomarem dinheiro emprestado em moeda estrangeira.

A suspeita em relação ao fundo é um fenômeno global: o governo sul-coreano declarou que não aceitará empréstimos da instituição. Lá inda existem mágoas relacionadas à crise financeira asiática, durante a qual o FMI obrigou a Coréia do Sul e outros países a aumentarem drasticamente as suas taxas de juros.

Strauss-Kahn, que é ex-ministro das Finanças da França, disse estar consciente da resistência motivada pela crise asiática, e afirmou que está tentando fazer com que esses empréstimos ajustem-se mais às condições específicas desses países. UOL

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