UOL Notícias Internacional
 

01/11/2008

Com a tensa calma no Congo, hora de avaliar os estragos

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Kibumba, Congo
Os cadáveres de soldados do governo estavam espalhados na lama.

Aldeões famintos estavam abrigados em casas caindo aos pedaços, sobrevivendo de cenouras cruas e mamões ainda verdes, duros.

Os soldados rebeldes vitoriosos, sem camisa e musculosos, se exercitavam em uma antiga base militar da ONU, levantando pesos improvisados feitos com equipamento saqueado.

Esta era a aparência do leste do Congo atrás das linhas rebeldes na sexta-feira. Enquanto milhares de pessoas deslocadas iniciavam a longa caminhada para casa, os rebeldes que expulsaram o exército nacional do Congo no início desta semana reforçavam seu controle sobre o território que tomaram.

O cessar-fogo pedido pelos rebeldes na noite de quarta-feira, enquanto estavam prestes a entrar na cidade estratégica de Goma, parece estar sendo mantido. Funcionários de ajuda humanitária o aproveitaram para retomar a distribuição de alimentos para centenas de milhares de pessoas deslocadas nas últimas semanas. Diplomatas pressionavam ambos os lados, o governo congolês e os rebeldes, a retornarem para a mesa de negociação.

Os civis que foram pegos pelo combate finalmente tiveram um momento para avaliar a destruição que os obrigou a fugir.

"Veja este lugar", disse Wabo Gatambara-Kari, um chefe em Kibumba, esquadrinhando sua aldeia em pedaços, que foi bombardeada pelos rebeldes, vandalizada pelos soldados do governo em retirada e então invadida pelos combatentes rebeldes.

Até mesmo alguns campos de refugiados não parecem seguros. Funcionários da ONU estão investigando as alegações de que os rebeldes saquearam e incendiaram acampamentos a cerca de 90 quilômetros ao norte de Goma, em áreas controladas pelos rebeldes.

"Nós estamos extremamente preocupados com o destino de cerca de 50 mil pessoas deslocadas que vivem nesses campos", disse Ron Redmond, porta-voz chefe da agência de refugiados da ONU, segundo seu site na Internet.

Por mais de uma década, o Congo suportou rodada após rodada de rebelião. Mas nesta semana o país viu alguns dos combates mais ferozes nos últimos anos, com um grupo rebelde liderado por Laurent Nkunda, um enigmático general renegado, quase capturando Goma, uma cidade antes considerada segura.

Uma jornada pela estrada de 32 quilômetros de Goma a Kibumba, uma aldeia de cerca de 15 mil habitantes, conta parte da história.

Ela começa no centro de Goma, onde as lojas abriram na sexta-feira pela primeira vez em dias, enquanto que mulheres que temiam ser estupradas voltavam ao mercado e a vida lentamente retomava a normalidade.

Mas nos arredores da cidade, milhares de pessoas estavam tomando a estrada em colunas intermináveis, retornando para as aldeias onde os combates ocorreram há poucos dias. No processo, as pessoas deixavam os grandes campos de refugiados improvisados onde estavam reunidas.

"Quem sabe se a paz durará?" disse Kabando Rusisi, um agricultor marchando em sandálias de dedo amarelas. "Mas estamos com fome."

Sem comida. Sem abrigo. Sob chuva. Bebês doentes. Rusisi descreveu a triste escolha: retornar para sua aldeia, agora sob controle rebelde, ou definhar na grama aguardando por uma ajuda que não parece que virá. "Nós estamos melhores por conta própria", ele disse.

O êxodo dos dias anteriores, de pessoas partindo de suas aldeias pela suposta segurança de Goma, agora se inverte. Na estrada para Kibumba, meninos empurravam bicicletas empilhadas com 2,5 metros de roupas e cobertores. Velhas caminhavam ao lado deles, ocasionalmente se sentando à beira da estrada para recuperar o fôlego e descansar seus pés inchados.

Aproximadamente 16 quilômetros além da cidade, no campo de refugiados de Kibati, funcionários de ajuda humanitária distribuíam biscoitos energéticos para crianças desnutridas com barrigas pronunciadas, a primeira distribuição do gênero em vários dias. É perigoso demais se aventurar no interior. "É uma verdadeira emergência", disse Jaya Murthy, um funcionário do Unicef, enquanto permanecia em meio a uma roda de crianças que se penduravam nos seus bolsos, pedindo "biscoito, biscoito".

Mais alguns poucos quilômetros e não havia sinais do exército congolês. Os soldados adolescentes do governo com boinas curvadas e tênis de cano alto, aqueles que eram acusados de saquear hospitais, atirar contra funcionários da ONU, estuprar mulheres e matar crianças enquanto fugiam de Goma na noite de quarta-feira, desapareceram.

Uma terra de ninguém vazia e bucólica se estendia por vários quilômetros. O cenário nesta parte da África é como um sonho. Vulcões verde-esmeralda, com seus topos cônicos enterrados nas nuvens. Campos cobertos de milho, feijão, batata e banana que sobem pelas encostas. Ribeirões lamacentos da cor de leite achocolatado.

A certa altura, uma turba de mototaxistas enfurecidos bloqueava a estrada e cercava um carro cheio de jornalistas. Eles pareciam agressivos. E agitados. Alguns empunhavam porretes. Eles estavam livres para fazer o que quisessem. Não há lei nem ordem em muitas partes do Congo, especialmente em zonas de conflito onde o governo praticamente desapareceu.

No final, tudo o que os mototaxistas queriam era um pouco de solidariedade. Eles disseram que os rebeldes os impediam de voltar para Goma e deixaram os jornalistas passarem após expressarem seu ultraje.

Perto dali se encontravam corpos. Um soldado do governo estava de costas, com o crânio despedaçado por uma bala, suas botas gastas afundadas na lama. Outro soldado foi baleado no peito, aparentemente através de uma pequena Bíblia que carregava no bolso, que apresentava um buraco de bala.

A estrada estava repleta de projéteis de tanque, cartuchos usados de rifles, caixas de munição de madeira quebradas, pacotes de ração, uniformes molhados descartados e outros resíduos do exército congolês em fuga encharcados pela chuva.

Perto de Kibumba, os rebeldes finalmente apareceram. Um, dois e depois grupos de cinco ou seis. Eles se portavam de forma diferente das tropas do governo, mais eretos, mais sérios. Usavam camuflagem apropriada e botas longas de borracha pretas. Empunhavam rifles de assalto Kalashnikov bem cuidados. Eles escutavam seus rádios e limpavam suas armas nas mesmas bases militares que há cinco dias eram ocupadas pelos soldados do governo e pela força de paz da ONU.

Eles disseram que o trabalho deles era dar boas-vindas aos refugiados. "Os únicos locais seguros neste país estão sob nosso controle", disse um porta-voz rebelde, Babu Amani.

Kibumba é claramente deles. Os soldados rebeldes estavam trabalhando com os anciões da aldeia para avaliar os estragos causados pela partida das forças do governo, que moradores disseram ter saqueado dezenas de casas e roubado o banco local, arrombando o cofre e levando as economias dos aldeões. Mas as tropas de Nkunda podem ter cometido abusos semelhantes. "Essas pessoas também são ruins", sussurrou um homem em Kibumba.

Mas ele não quis elaborar.

Em vez disso, fugiu, seguindo na direção de uma plantação de feijão. Esta é a estação de plantio, e muitas pessoas disseram que se não puderem voltar ao trabalho, logo não haverá nada para comer. George El Khouri Andolfato

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