UOL Notícias Internacional
 

04/11/2008

Aquele barulho na selva é de 15 mil motocicletas

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Tabatinga, Brasil
Este abafado posto avançado na Amazônia é uma cidade de fronteira em movimento - em duas rodas motorizadas.

Durante a hora do rush vespertina, a principal avenida de Tabatinga é um mar de motos e scooters. Famílias inteiras se amontoam sobre uma única scooter, até mesmo famílias de cinco: marido, esposa e três filhos. Mães amamentam bebês enquanto pais dirigem por uma rua quase colocada em ordem pelos semáforos.

Com mais de 15 mil motos e apenas 47 mil habitantes, Tabatinga lembra uma pequena versão de Ho Chi Minh, Vietnã, outro local caótico onde os carros ficam em um distante segundo lugar como meio preferido de transporte.

"Eu nunca vi um lugar com tantas motos", disse Sabrina D'Assumpção, uma moradora do Rio de Janeiro que recentemente esteve visitando seu marido, um oficial militar, na base do Exército daqui. "É praticamente uma cidade toda tomada por motocicletas".

Tabatinga deve muito de sua obsessão por motos à sua localização ao longo da fronteira do extremo oeste do Brasil. Situada ao lado da Colômbia e separada do Peru apenas por um rio estreito, a cidade evoluiu no último quarto de século de uma cidade militar para um centro de comércio interfronteiras.

A fronteira aberta com Letícia, na Colômbia, permite aos brasileiros comprarem motos de fabricação japonesa por cerca de US$ 2 mil, metade do que custam no Brasil. Os modelos de fabricação chinesa, que são menos populares junto aos moradores, podem ser comprados por apenas US$ 900 na ilha fluvial de Santa Rosa, no Peru, disse Ulianov Mejia, gerente da loja da Yamaha em Tabatinga.

"Aqui você pode tomar café da manhã no Brasil, almoçar na Colômbia e jantar no Peru, porque é uma tríplice fronteira", disse Mejia, um colombiano que se casou com uma brasileira e vive aqui desde 2001.

Nos últimos anos, a força relativa da economia brasileira e de sua moeda, o real, facilitou para os brasileiros terem acesso às motos. O crédito fácil permite que as pessoas comprem em até 24 prestações e a maioria das pessoas sai de uma loja com uma moto após uma entrada de apenas 30%, disse Mejia. Para alguns, pode até ser mais fácil que isso.

"Se um pescador do rio não tem documentos, não tem conta corrente, mas se você o conhece, sabe onde ele mora, conhece a família dele, eu vendo para ele sem problema", disse Mejia.

A facilidade para aquisição de uma moto ajudou a alimentar o crescimento da cidade, cuja população dobrou nos últimos 20 anos, superando a vizinha Letícia, que tem cerca de 35 mil habitantes e cerca de 10 mil motos.

"Há famílias que têm seis ou sete motos", disse Joel Santos de Lima, o prefeito de Tabatinga. "Elas são baratas e fáceis de comprar, e elas mantêm a economia em movimento."

Para aqueles que não podem comprar sua própria moto, Tabatinga conta com 500 mototáxis controlados por quatro empresas. Por 70 centavos, um mototáxi leva você a qualquer lugar na cidade.

Os mototaxistas são um modelo de eficiência e confiabilidade, disse Waldery Nobre Mesquita, um médico que utiliza diariamente o serviço para visitar pacientes. Segundo a lei, os mototáxis só podem transportar um passageiro, disse Anderson de Souza, o coordenador de transporte público de Tabatinga.

Mas aí parece ser onde a lei termina e a ilegalidade começa. Tabatinga não exige que as motos sejam registradas ou que os moradores usem capacete. O processo de pedido de licenciamento da moto e aquisição de seguro é repleto de burocracia e custa cerca de US$ 500, mais do que a maioria dos moradores pode pagar.

Como a lei do capacete é aplicada do outro lado da fronteira colombiana, em Letícia, os motoqueiros param na fronteira e pegam um capacete sem viseira em bancas ao longo da rua. Os capacetes são alugados por 75 centavos, e devem ser devolvidos na fronteira.

Em Tabatinga, a questão é mais complicada. As autoridades municipais daqui temem que a reputação da fronteira de tráfico violento de drogas torne qualquer um que usar um capacete um suspeito potencial.

"Onde há tráfico, há morte", disse Souza. "Quando os assassinos querem matar, eles usam capacetes para não serem reconhecidos."

Por esse motivo, Tabatinga proíbe informalmente o uso de capacetes em motos, apesar de não ser uma lei oficial, ele disse.

Isso dificulta a situação quando chove - e as chuvas podem ser torrenciais na região amazônica.

A maioria dos mototaxistas veste uma capa de chuva e continua trabalhando, alguns usando capacetes. A chuva é o único momento em que os táxis de quatro rodas têm uma chance de competir. Mas boa sorte em achar um sem chamá-lo primeiro.

Tentando consolidar a cultura da motocicleta da região, há uma década Mejia e um amigo tentaram realizar uma fila de motos de cinco quilômetros, de Tabatinga até Letícia. Um representante do Guinness Book dos Recordes Mundiais compareceu para testemunhar a tentativa de quebra de recorde, ele disse. Mas no final na dupla não conseguiu atingir seu objetivo.

"Se tivesse sido algo organizado pela prefeitura, com recursos, nós poderíamos ter entrado para o livro", disse Mejia. "Fora da Ásia ninguém é capaz de superar Tabatinga e Letícia em quantidade de motos, ninguém." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host