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04/11/2008

Com a Internet, uma intensa disputa presidencial reescreve as regras

The New York Times
Adam Nagourney
A disputa de 2008 pela Casa Branca que chega ao fim nesta terça-feira modificou fundamentalmente a forma como as eleições presidenciais são disputadas nos Estados Unidos, um fato que quase passou desapercebido com toda a atenção dirigida à batalha entre John McCain e Barack Obama.

Ela reescreveu as regras sobre como alcançar os eleitores, arrecadar verbas, organizar os apoiadores, lidar com a mídia, identificar e moldar a opinião pública e desfechar - e suportar - ataques políticos, incluindo muitos realizados por blogues que quatro anos atrás não existiam. Ela desafiou a visão consensual quanto ao campo norte-americano de batalhas eleitorais, sugerindo que os democratas podem ser no mínimo competitivos em Estados e regiões que são há muito tempo bastiões republicanos.

O tamanho e as características do eleitorado podem ter mudado devido aos esforços democratas para registrar e colocar em ação novos eleitores negros, hispânicos e jovens. Esta mudança poderá ter conseqüências duradouras para aquilo que ambos os partidos fazem no sentido de construir coalizões resistentes, especialmente se os programas para a mobilização do eleitorado, intensivos e tecnologicamente orientados, tiverem sucesso em fazer com que mais gente se registre e vá às urnas.

"Creio que durante anos analisaremos esta eleição como uma disputa original e transformadora", afirma Mark McKinnon, assessor nas campanhas de Bush em 2000 e 2004. "O ano em que as campanhas aproveitaram a Internet de formas nunca imaginadas. O ano em que passamos à hiper-velocidade. O ano em que o paradigma foi virado ao avesso, passando realmente a ser orientado de baixo para cima, em vez de o contrário".

Republicanos dizem que, em grande parte, isto é resultado da maneira como a campanha de Obama procurou entender a Internet e tirar proveito dela (e de outras modalidades da chamada nova mídia) a fim de organizar apoiadores e atingir eleitores que não se baseiam mais principalmente nas informações de jornais e da televisão. As plataformas vão do YouTube, que não existia em 2004, às mensagens de telefone celular que a campanha enviava na segunda-feira aos eleitores para lembrá-los de votar.

"Implementamos coisas muito inovadoras no que diz respeito aos dados, e fizemos algum trabalho com a Internet", afirma Sara Taylor, que foi diretora política da Casa Branca durante a campanha pela reeleição de Bush. "Mas naquela época apenas 40% do país tinha acesso à Internet de banda larga. Hoje em dia há pessoas que não possuem mais telefones fixos. E Obama fez um ótimo trabalho ao implementar uma campanha por meio do novo desafio de mídia. Não sei quanto a você, mas eu vejo uma Internet de Obama todos os dias. E faz seis meses que vejo isso".
Ainda mais crucial para a forma como esta campanha transformou a política tem sido o sucesso de Obama em usar a Internet para criar uma enorme rede de contribuidores que permitiu a ele arrecadar dinheiro suficiente - após ter se recusado a participar do sistema de financiamento público - para expandir o mapa democrata e competir em Estados tradicionalmente republicanos.

Não importa quem ganhe, republicanos ou democratas, os esforços de Obama em Estados como Indiana, Carolina do Norte e Virgínia - organizando a campanha e fazendo propaganda dirigida a eleitores que anteriormente foram pouco expostos às idéias e aos candidatos democratas - obrigarão os futuros candidatos a pensar diferentemente.

"O grande impacto que esta eleição terá para o futuro reside no fato de ela ter acabado para sempre com o financiamento público", afirma o estrategista da campanha de McCain, Steve Schmidt. "Isso significa que a próxima campanha presidencial republicana - e eu espero que seja pela reeleição de McCain - precisará ser um negócio de um bilhão de dólares para fazer frente àquilo que os democratas conseguiram com o uso da Internet e do marketing viral para comunicarem-se e arrecadaram dinheiro".

"Foi um profundo salto à frente sob o ponto de vista tecnológico", acrescenta Schmidt. "Os republicanos precisarão descobrir como fazer frente a isso para que tornem-se novamente competitivos em um nível nacional em disputas pelas cadeiras da Câmara e do Senado".

A transformação não aconteceu somente neste ano. Em 2000, a campanha de Bush, liderada por Karl Rove e Ken Mehlman, foi pioneira na utilização da técnica de "micro-targeting" para encontrar e agradar potenciais novos apoiadores. Em 2004, a campanha presidencial de Howard Dean foi considerada a primeira a enxergar o potencial da Internet para arrecadar verbas e recrutar voluntários, uma plataforma que Obama expandiu tremendamente.

"Eles são a Apolo 11, e nós fomos os Irmãos Wright", afirma Joe Trippi, gerente da campanha de Dean.

Terry Nelson, diretor político da campanha de Bush em 2004, afirma que a evolução tem se constituído em um desafio para os profissionais que trabalharam para todas as campanhas presidenciais, e diz que esta tendência continuará em 2012 e após aquela futura eleição.
"Estamos em meio a uma transformação fundamental da forma como as campanhas são feitas", opina Nelson. "E esta transformação ainda não acabou".

As mudanças vão além daquilo que Obama fez e refletem uma modificação cultural nos eleitores, que produziu um público que é ao mesmo tempo mais informado, mais cético e que, com base no que se lê nos blogues, às vezes dissemina boatos e informações suspeitas. Como resultado, esse novo eleitorado tende a questionar mais aquilo que as campanhas lhe dizem e usam a Web com freqüência para verificar se as informações são verdadeiras.

"Você faz um trabalho focado em um grupo e as pessoas dizem, 'Eu vi tal propaganda e fui a este website para verificar se ela é verdadeira'", diz David Plouffe, gerente da campanha de Obama. "O eleitor está policiando as campanhas".

Segundo Schmidt, a velocidade e a diversidade do ciclo de notícias esfacelaram a forma tradicional como os eleitores recebiam informações, e proporcionou às campanhas oportunidades e desafios, na hora de tentar administrar as notícias.

"O ciclo de notícias está hiper-acelerado, e é dirigido por novos protagonistas no cenário, como o "Politico" e o "Huffington Post", o que gera competição para organizações como a Associated Press, onde há uma recompensa substancial para quem chega primeiro", diz ele. "Isto hiper-acelera um ciclo de redes de notícias a cabo dirigido ao conflito, ao drama e à trivialidade".

Entre as maiores mudanças ocorridas neste ano está o novo e intenso interesse em política, refletido no grande aumento do número de registros de eleitores, na votação antecipada e no comparecimento aos comícios de Obama. Em grande parte, isto é um reflexo do interesse incomum gerado pela campanha do candidato democrata. Assim, não se sabe ao certo se um futuro candidato que utilizasse todas as inovações aplicadas por Obama e a sua campanha teria necessariamente o mesmo sucesso.

"Sem o candidato que mobilize as pessoas, a melhor estratégia e máquina eleitoral terão pouca valia", adverte Plouffe.
Trippi, que trabalhou para John Edwards, um dos rivais de Obama na campanha das eleições primárias democratas, diz: "Todos os fatores aglutinaram-se para uma pessoa, Barack Obama. Mas, agora que o fenômeno ocorreu, trata-se de uma mudança permanente". UOL

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