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04/11/2008

Saúde pessoal: as possibilidades da hipnose

The New York Times
Jane E. Brody
O meu marido, Richard, fumou cigarros durante 50 anos, tendo fracassado em várias tentativas de parar por conta própria. Quando uma amiga disse a ele, em agosto de 1994, que a hipnose a ajudara a deixar de fumar, ele decidiu fazer uma tentativa.

"Não funcionou; eu não fui hipnotizado", declarou ele após a sua única sessão de hipnose. Mas, a verdade é que funcionou; desde aquele dia ele nunca mais deu uma tragada.

Gloria Kanter, de Boynton Beach, na Flórida, achou que a sua tentativa, em 1985, de usar a hipnose para superar o seu medo de viajar de avião, havia fracassado. "Quando a terapeuta me conduziu para fora da sala, eu disse que o tratamento não funcionou", recordou Kanter, durante uma entrevista. "Eu disse a ela: 'Ouvi tudo o que você disse'".

Não obstante, na próxima vez em que Kanter e o marido seguiram para o aeroporto, ela não ficou banhada de suor nem paralisada de medo. "Me senti muito bem, e desde então continuei me sentindo bem", afirma.

Assim como várias outras pessoas cujo conhecimento a respeito da hipnose foi obtido em filmes e shows, o meu marido e Kanter não entenderam o verdadeiro significado da hipnose. Durante um transe hipnótico, a pessoa não está nem inconsciente nem adormecida, mas sim em um estado de relaxamento profundo que deixa a mente altamente focada e pronta a aceitar sugestões para ajudar o indivíduo a realizar as suas metas.

Durante dois séculos a hipnose esteve cercada de polêmicas, e os seus benefícios foram freqüentemente exagerados. Por exemplo, ela não ajuda a todos que querem parar de fumar. Mas, vale a pena observar, nenhum outro tratamento faz tal coisa.

E a atitude do paciente é um fator crítico. "O poder da hipnose reside na verdade no paciente, e não no médico", afirma Brian Alman, um psicólogo que pratica a hipnose em San Diego.

Roberta Temes, hipnotizadora clínica em Scotch Plains, no Estado de Nova Jersey, insiste que a hipnose não é capaz de obrigar a pessoa a fazer algo que não queira. A hipnose só tem sucesso em ajudar as pessoas a fazerem mudanças que desejam, disse ela em uma entrevista.
No seu livro, "The Complete Idiot's Guide to Hypnosis" ("Guia do Completo Idiota para a Hipnose"), Temes observa que o sucesso em alcançar uma meta é a melhor prova de que o indivíduo foi de fato hipnotizado. Ela também sugere uma segunda ou terceira sessão caso a pessoa não concretize de fato os seus objetivos após a primeira tentativa.

Na verdade, a hipnose é a epítome da medicina de mente e corpo. Ela é capaz de permitir que a menta diga ao corpo como reagir, e de modificar as mensagens que o corpo envia à mente. Ela tem sido usada para conter a náusea associada à gravidez ou à quimioterapia, a ansiedade vinculada a tratamentos dentários ou provas, a dor provocada por cirurgia, tratamento de canal e parto, medo de voar e de falar em público, o hábito de puxar compulsivamente o cabelo e os soluços que resistem a todo tratamento, entre vários outros perturbadores problemas de saúde.

"Dentro de cada paciente há um potencial útil para se beneficiar da hipnose. O objetivo da hipnose médica moderna é ajudar os paciente a usarem esse potencial inconsciente", disse Alman em um artigo publicado em 2001 no periódico "The Permanent Journal".

Alman descreveu uma sobrevivente de um campo de concentração, de 65 anos de idade, que engasgava repetidamente ao tentar engolir, embora exames do seu esôfago não revelassem nenhuma obstrução. Após três sessões de hipnotismo, o problema foi resolvido. "Eu fui libertada do meu esôfago", disse a paciente.

Você pode nem precisar ficar face a face com um hipnotizador para obter benefícios de saúde. Segundo Temes, a hipnose pode ser útil mesmo se feita com uma fita cassete ou um CD, ou por telefone, algo que ela oferece como parte da sua prática na área. Ela diz que muitos CDs podem ser encontrados na Internet no site www.hypnosisnetwork.com.

Ellen Fineman, uma fisioterapeuta de Portland, no Estado de Oregon, passou por cinco cirurgias para reparar uma retina que descolava-se sem parar. Esperando que uma sexta operação desse certo, ela usou uma fita de hipnose preparada por Temes para pacientes que serão submetidos a cirurgia.

"A fita é muito relaxante e transmite confiança", disse Fineman em uma entrevista. "Ela me disse que eu estaria nas mãos dos profissionais que cuidariam muito bem de mim e que eu teria um mínimo de inchação. Desta vez a cirurgia correu muito bem - nada de inflação ou inchação, e não houve mais descolamento. O cirurgião ficou surpreso e me perguntou o que eu fizera de diferente".

Assim como ocorre com qualquer outra profissão, alguns hipnoterapeutas são mais talentosos do que outros. Temes sugere que as indicações verbais podem ser a melhor forma de encontrar alguém com experiência em hipnose para o tipo de problema que o paciente está tentando resolver. Também útil é a Sociedade Americana de Hipnose Clínica, no site www.asch.net, que traz uma lista de terapeutas, com certificação ou não, agrupados por local de atuação e especialidade.

Embora nem todo mundo seja facilmente hipnotizável, quase todos podem entrar em um transe terapêutico, afirma Temes. Uma outra paciente sua, a psiquiatra de Nova York Susan Clarvit, achou que não poderia ser hipnotizada - ela alegou ser uma pessoa muito científica e racional.

"Mas eu estava desesperada", disse Clarvit em uma entrevista. "Estava grávida do meu segundo filho e a náusea era insuportável. A doutora Temes perguntou-me o que eu segurava com mais freqüência. Respondi que uma caneta. Ela me hipnotizou de forma que quando eu segurava uma caneta, tinha uma sensação geral de bem-estar. Mantive uma caneta à mão a todo momento, mesmo quando dirigia, e não me senti nauseada".
Sob hipnose, Clarvit recebeu uma sugestão pós-hipnótica que vinculou o ato de segurar uma caneta à sensação de bem-estar. Tais sugestões permitem às pessoa praticar um novo e desejado comportamento após serem retiradas do transe.

Para uma pessoa que tenta superar a compulsão de ingerir comidas que não são saudáveis e doces, pode-se falar o seguinte: "Quando você estiver com fome, comerá verduras e legumes". A sugestão para um fumante pode ser: "Quando quiser fumar, você beberá água". E um indivíduo que fica apavorado quando tem que falar em público, poderá ouvir, "Você respirará profundamente quando sentir-se assustado".

Muitos pacientes também aprendem a praticar auto-hipnose para reforçarem o novo comportamento. Karen N. Olness, professora de pediatria da Universidade Case Western Reserve, e presidente da Sociedade Internacional de Hipnose, afirma: "O treinamento de auto-hipnose com crianças consiste em uma estratégia efetiva e prática para prevenir episódios de enxaqueca".

Às vezes pacientes com doenças bem diagnosticadas podem beneficiar-se indiretamente da hipnose.

Alman falou sobre uma mulher que sofre de esclerose múltipla e que foi tratada com hipnose para uma depressão que não melhorou com drogas anti-depressivas. Ela narra que, quase que imediatamente, a depressão da mulher melhorou, assim como o seu andar e a sua fala.

Ela explicou que para muitos pacientes o problema médico é tão complexo que orientações e comandos específicos podem não ser efetivos. O benefício da hipnose pode se basear mais na ativação de processos inconscientes dentro do paciente.

"Existe uma riqueza de materiais no inconsciente do paciente que pode ser utilizada na cura. Eu lamento o fato de a hipnose ser subutilizada como instrumento terapêutico, apesar de a hipnose médica ser capaz de produzir mudanças até mesmo em casos difíceis", afirma Alman. UOL

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