UOL Notícias Internacional
 

05/11/2008

Empresas começam a usar blogs para anunciar demissões

The New York Times
Claire Cain Miller
Em São Francisco (EUA)
Durante as crises financeiras passadas, as demissões eram, em sua maioria, uma questão privada. As grandes companhias tendiam a emitir vagos comunicados de imprensa que falavam sobre "redução", e as empresas novas muitas vezes demitiam empregados sem anunciar nada a respeito.

Isso não ocorre mais. Na era da transparência, as demissões são "blogadas".

Elon Musk, diretor-executivo da companhia de carros elétricos Tesla Motors, em San Carlos, Califórnia, disse que não teve alternativa a não ser anunciar em um blog as demissões promovidas em 15 de outubro último nesta companhia que é acompanhada com atenção pelas pessoas - ainda que alguns empregados ainda não tivessem sido informados que estavam perdendo os seus empregos.

Musk diz que o Valleywag, um blogue de fofocas do Vale do Silício que pertence à Gawker Media, já havia publicado a notícia, que estava sendo coletada por repórteres da mídia tradicional. "Nós tínhamos que dizer alguma coisa a respeito para impedir a publicação de artigos imprecisos".

Noticiar cortes de pessoal em blogues é uma prática especialmente comum no Vale do Silício, onde os sites de fofocas do setor tecnológico aproveitam qualquer boato e funcionários especializados na Web publicam tudo o que pensam nos seus blogues pessoais e através do Twitter. Assim, as companhias sentem-se pressionadas para serem as primeiras a dar as más notícias nos seus próprios blogues, de forma que possam controlar melhor a mensagem.

No entanto, especialistas em recursos humanos e relações públicas afirmam que é só uma questão de tempo para que companhias de todos os tamanhos em todas os setores sintam-se compelidas a anunciar as más notícias em blogues.

Cada área possui websites que cobrem as companhias do setor e publicam os boatos com volúpia, como o blogue Starbucks Gossip, o DealBreaker, da indústria financeira, e o BlueOvalNews.com, da Ford Motor. Websites como o Glassdoor.com e o JobSchmob.com também encorajam os funcionários a passar informações sobre os seus patrões.

"Atualmente, tudo o que você diz dentro de uma companhia acabará publicado em um blogue", afirma Rusty Rueff, ex-diretor de recursos humanos da Electronic Arts e da PepsiCo. "Assim, como companhia, você tem que escolher. Ou se antecipa e assume a ofensiva, dizendo, 'Eis o que está se passando', ou deixa que outra pessoa escreva a história para você".

A Gannett, a maior rede de jornais do país, ignorou a blogosfera e pagou um preço por isso. Em 28 de outubro último a companhia disse à imprensa que demitiria 10% do seu quadro de pessoal. Jim Hopkins, um veterano que trabalha na Gannett há 20 anos, e que deixou a companhia em janeiro deste ano para escrever para o não oficial Gannett Blog, vinha anunciando durante várias semanas os rumores a respeito da demissão, e deu a notícia no seu site na manhã daquele dia, da mesma forma que fizera quando a Gannett demitiu funcionários em agosto.

A Gannett, que não possui um blogue da companhia, não emitiu qualquer comunicado à imprensa e não retornou as ligações de Hopkins. As mensagens dele, nas quais fala com detalhes sobre as demissões na companhia e os seus artigos individuais geraram dezenas de comentários, em sua maioria anônimos, incluindo um de um funcionário da Gannett que afirmou: "Se não fosse por este blogue, as pessoas não estariam sabendo das notícias sobre as suas próprias demissões".

"Eu tento transmitir a verdade crua", afirma Hopkins. "Não creio que a companhia ofereça o mesmo grau de franqueza aos seus funcionários". Em um apelo para que os leitores cobrissem os custos do blogue, ele escreveu, "De que outra maneira você vai saber sobre a sua demissão?".

Tara Connel, porta-voz da Gannett, diz que a companhia acha que "a maioria esmagadora dos funcionários" ficou sabendo das demissões por meio da mídia local. "Nós procuramos fazer com que essas comunicações pessoais ocorram o mais rapidamente possível", afirma Connel.

Ao contrário das firmas mais tradicionais, muitas das atuais companhias da Web foram criadas com a missão de criar transparência para os usuários. Os executivos têm honrado tal compromisso, anunciando nos blogues os sucessos das suas companhias. Agora, que um período ruim chegou, alguns deles sentem a necessidade de informar também a respeito das notícias ruins. Uma notícia em um blogue também dá a impressão de ser mais sincera do que uma outra, anunciada em um comunicado de imprensa, com frases padronizadas.

Steven A. Carpenter, diretor-executivo do Cake Financial, um site de assessoria de investimento criado há dois anos, anunciou no seu blogue o novo videoshow semanal da companhia e a sua mudança para uma nova sede em São Francisco. Em 19 de outubro, na noite anterior à demissão de 30% dos funcionários, ele redigiu uma mensagem sobre isto e a publicou no blogue.

Na manhã seguinte, ele reuniu-se com seis funcionários que estava demitindo. Depois, publicou no blogue a sua mensagem sobre "o dia extremamente triste para todos nós, que tivemos que dizer adeus a um grupo de pessoas excelentes".

"A nossa companhia fundamenta-se na idéia da transparência em investimento, e por esse motivo, achamos muito importante agir dessa forma", disse Carpenter em uma entrevista. Ele desejava que funcionários e o público externo soubessem que estavam recebendo a mesma versão da história. "Isso permite que eles saibam que nós estamos informando em tempo real, de forma que não fiquem nervosos em relação ao que está se passando", afirmou Carpenter.

Alguns fundadores de blogues empresariais temem que os seus funcionários usem a própria tecnologia Web 2.0 da companhia para voltarem-se contra o patrão. Quando Loic Le Meur, fundador do site de videoblogue Seesmic, demitiu um terço do seu quadro de funcionários em 10 de outubro, a primeira coisa que fez foi publicar uma mensagem e um vídeo sobre isso no site da companhia.

Caso contrário, diz ele, vídeos e mensagens o criticando teriam aparecido em toda a Web, incluindo o Seesmic.

"Eu não estava tentando fazer um trabalho de relações públicas", diz ele. "Apenas sabia que, se não procedesse daquela forma, ficaria com uma imagem ruim". O seu anúncio em tom emocional gerou 66 comentários, a maioria deles de apoio.

Algumas companhias que não anunciaram as demissões acabaram sofrendo devido a isso. Depois que a Jive Software demitiu 20% do seu quadro de pessoal, um dos funcionários demitidos, Chris Kalani, escrevendo no seu próprio blogue, chamou o episódio de "um massacre total" e disse ter sido obrigado a deixar os seus pertences para trás, incluindo uma foto do seu casamento. Os "techblogs" imediatamente coletaram a história.

A Jive, de Portland, no Oregon, ficou sem saber como reagir. Sam Lawrence, o chefe de marketing da empresa, colocou uma mensagem curta no Twitter: "Pessoal, a Jive promoveu hoje uma redução de custos. Ela esteve longe de ser tão drástica quanto aquilo que eu li no Twitter e no Techcrunch".

Kalani atualizou o seu blogue depois que a companhia telefonou e disse que ele poderia pegar os seus pertences. Mesmo assim, o clima negativo foi criado. "Com base na sua descrição dos acontecimentos, é evidente que o ambiente de trabalho positivo da Jive foi a primeira baixa", escreveu um comentarista no blogue de Kalani.

Lawrence afirmou que a Jive, que tem um blogue empresarial, não anunciou as demissões na Internet "por respeito às pessoas envolvidas".

Mas Kalani disse que desejava que a Jive tivesse publicado a sua própria versão. "Eles tiveram que correr e dar um jeito na bagunça. Mas foi culpa deles por não terem eles próprios escrito sobre as demissões", afirma. "Não houve cortesia nem nada do tipo".

As companhias que anunciaram as demissões em blogues contaram com a simpatia dos leitores. Empresas novas com vagas ligaram para os ex-funcionários da Cake depois que Carpenter anunciou as demissões. Glenn Kelman, diretor-executivo do site de corretagem de imóveis Redfin, esperava que os leitores voltassem-se contra ele após ter publicado no seu blogue a notícia das demissões na firma. Em vez disso, 74 pessoas deixaram comentários de apoio no blogue. "Isto tem sido parte do processo de cura", afirma Kelman. "A demanda por transparência forçou as pequenas e novas empresas a agirem como as companhias públicas. Ao mesmo tempo, isso torna as companhias privadas mais responsáveis em relação aos funcionários que são mantidos ou demitidos, e isto é provavelmente uma coisa boa".

Segundo Andy Sernovitz, diretor-executivo do Blog Council, que ajuda as grandes companhias a utilizar a mídia social, estas grandes empresas precisam também aprender tal lição. "Há companhias que ainda desejam que houvesse o tradicional controle da mensagem por meio de relações públicas, mas essa era terminou há muito tempo", afirma Sernovitz. UOL

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