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06/11/2008

Cientistas decodificam conjunto inteiro de genes do câncer em busca de novas pistas de tratamento

The New York Times
Denise Grady
Pela primeira vez, pesquisadores decodificaram todos os genes de uma pessoa com câncer e descobriram uma série de mutações que podem ter causado a doença ou auxiliado em sua progressão.

Usando células doadas por uma mulher qüinquagenária que morreu de leucemia, os cientistas sequenciaram todo o DNA de suas células cancerosas e o comparou ao DNA de suas células normais, saudáveis, de pele. Então, eles encontraram 10 mutações presentes apenas nas células cancerosas, aparentemente promovendo crescimento anormal, impedindo as células de deter o crescimento e lhes possibilitando combater a quimioterapia.

Os resultados não ajudarão os pacientes imediatamente, mas os pesquisadores dizem que poderão levar a novas terapias e quase certamente ajudarão os médicos a fazer melhores escolhas entre os tratamentos existentes, com base em um quadro genético mais detalhado do câncer de cada paciente. Apesar de a pesquisa envolver leucemia, as mesmas técnicas também podem ser usadas para estudar outros cânceres.

"Este é o primeiro de muitos desses genomas inteiros de câncer que serão seqüenciados", disse Richard K. Wilson, diretor do Centro de Sequenciamento do Genoma da Universidade de Washington, em Saint Louis, e principal autor do estudo. "Eles nos darão toda uma nova série de pistas sobre o que acontece no DNA quando surge o câncer."

As mutações -erros genéticos- encontradas nesta pesquisa não são congênitas, mas sim se desenvolveram posteriormente na vida, como a maioria das mutações que causam câncer. (Apenas 5% a 10% de todos os cânceres são considerados hereditários.)

A nova pesquisa, ao olhar para todo o genoma -todo o DNA- e visando encontrar todas as mutações envolvidas em um câncer em particular, difere acentuadamente de estudos anteriores, que pesquisaram menos genes. O projeto, que levou meses e custou US$ 1 milhão, foi possível graças aos recentes avanços na tecnologia que facilitaram e baratearam a análise de centenas de milhões de pedaços de DNA. O estudo está sendo publicado pela revista "Nature" na quinta-feira. Wilson disse esperar que daqui cinco a 20 anos, a decodificação do genoma do câncer do paciente consistirá do pingar de uma gotícula de sangue em um chip, que será inserido em um computador de mesa e apresentará um relatório sugerindo que drogas funcionarão melhor.

"Essa é a genômica personalizada, medicina personalizada em uma caixa", ele disse. "É uma espécie de santo graal, mas eu acho que não está fora do reino da possibilidade."

Até agora, disse Wilson, a maioria dos trabalhos sobre mutações cancerosas se concentrava em apenas poucas centenas de genes já suspeitos de estarem envolvidos na doença, não nos cerca de 20 mil genes que compõem o genoma humano inteiro.

A antiga abordagem é útil, disse Wilson, "mas se há genes que sofreram mutação que você desconhece ou não espera, você os perderá".

De fato, oito das 10 mutações que seu grupo descobriu não teriam sido encontradas com a abordagem mais tradicional.

Um especialista em câncer não envolvido no estudo, o dr. Steven Nimer, chefe do serviço de hematologia do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, chamou a pesquisa de um "feito" e o relatório de "um documento maravilhoso". Ele disse que a abordagem do genoma inteiro provavelmente produzirá informação importante sobre outros tipos de câncer tanto quanto a leucemia.

"O trabalho apóia a idéia de que não basta ir atrás apenas das coisas conhecidas", disse Nimer.

Ele acrescentou: "Seria bom dispormos deste tipo de informação em todos os pacientes que tratamos".

Nimer também previu que os oncologistas vão rapidamente começar a procurar essas mutações em seus pacientes ou armazenar amostras de ex-pacientes, para ver se podem ajudar a prever o curso da doença ou a seleção dos tratamentos.

O estudo dos genomas de câncer se tornou um grande campo de pesquisa. Nos últimos poucos anos o governo gastou US$ 100 milhões em estudos de genoma de cânceres de pulmão, ovário e glioblastoma multiforme, um tipo de tumor no cérebro. A pessoa que forneceu suas células para o estudo da Universidade de Washington se tornou não apenas a primeira paciente de câncer, mas também a primeira mulher a ter todo seu genoma decodificado. Sua informação estará disponível apenas para cientistas e não será postada publicamente, para proteger sua privacidade e a de sua família. Os outros genomas humanos completos abertos aos pesquisadores até o momento vieram de homens, dois cientistas conhecidos por seu ego assim como por seu intelecto, que comandaram projetos de decodificação e escolheram expor seus próprios DNAs ao mundo: James D. Watson e J. Craig Venter. Seus genomas estão disponíveis para qualquer um inspecionar.

A mulher na Universidade de Washington tinha leucemia mielóide aguda, um câncer de rápido crescimento que afeta cerca de 13 mil pessoas por ano nos Estados Unidos e mata 8.800. Sua causa não é bem-conhecida. Como a maioria dos cânceres, imagina-se que tenha início em uma única célula, com uma mutação que não estava presente no nascimento mas que ocorreu posteriormente por algum motivo desconhecido. Geralmente, uma mutação não é suficiente para causar câncer; a doença não se desenvolve até que outras mutações ocorram.

"A maioria delas são apenas eventos aleatórios no universo que resultam em algo horrível", disse o dr. Timothy J. Ley, um hematólogo da Universidade de Washington e diretor do estudo.

Os pesquisadores escolheram estudar esta doença porque é severa e o tratamento não melhorou em décadas.

"É uma das piores formas de leucemia", disse Wilson. "É muito agressiva. Ela afeta principalmente adultos e não há um bom tratamento para ela. Um percentual elevado dos pacientes ao final morre por causa da doença."

Antes de iniciar o tratamento, a paciente que estudaram doou amostras de medula óssea e pele, para que os pesquisadores pudessem comparar suas células normais de pele com as células cancerosas de sua medula. Alguns dos genes que sofreram mutação da paciente pareceram promover o crescimento do câncer. Um provavelmente tornou o câncer resistente à medicação, ao permitir que as células do tumor bombeassem as drogas quimioterápicas para fora da célula antes que pudessem agir. Os outros genes que sofreram mutação pareciam ser supressores do tumor, a defesa natural do corpo contra erros genéticos perigosos.

"O trabalho deles é vigilância", disse Wilson. "Se as células começam a fazer algo fora de controle, esses genes estão lá para desativar. Quando encontramos três ou quatro supressores desativados, é quase como se o tumor tivesse sistematicamente começado a desativar o mecanismo de vigilância. Isto torna mais difícil matá-lo. É um pouco estranho. Isso não é científico, mas digamos, nossa, é como se o tumor tivesse mente própria, como se soubesse que genes ele precisa desligar para ter sucesso. É impressionante."

Testes em 187 outros pacientes com leucemia mielóide aguda não apontaram nenhuma das oito novas mutações encontradas na primeira paciente.

Esse resultado sugere que muitos caminhos genéticos podem levar ao mesmo péssimo destino, e que muito mais genomas precisam ser estudados, mas não significa que todo paciente precisará de sua própria droga individual, disse Wilson.

"No final, um sinal diz à célula: cresça, cresça, cresça", ele disse. "Deve haver algo em comum. É este elemento comum que nós encontraremos e nos dirá que tratamento será o mais poderoso." George El Khouri Andolfato

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