UOL Notícias Internacional
 

07/11/2008

Vitória de Obama altera o teor da política iraquiana

The New York Times
Alissa J. Rubin
Em Bagdá
Barack Obama pode ter sido eleito há apenas dois dias, mas sua vitória já está começando a mudar o terreno político no Iraque e na região.

Os políticos xiitas iraquianos estão indicando que acelerarão um novo acordo de segurança a respeito das tropas americanas, e um funcionário do governo Bush disse acreditar que os iraquianos poderiam ratificar o acordo já na metade deste mês.

"Antes os iraquianos pensavam que se assinassem o pacto, o prazo para retirada das tropas até 31 de dezembro de 2011 não seria respeitado", disse Hadi al-Ameri, um poderoso membro do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, um grande partido xiita. "Se os republicanos ainda estivessem lá, este prazo não seria respeitado. Este é um passo positivo, pensar no mesmo prazo que o sr. Obama."

Obama disse ser favorável a um prazo de 16 meses para retirada das brigadas de combate, um prazo aproximadamente duas vezes mais rápido do que o fornecido na minuta do acordo americano e iraquiano.

Muitos políticos xiitas estavam sob intensa pressão dos líderes iranianos para não assinarem um acordo de segurança. O Irã, que tem laços estreitos com os políticos xiitas, temia que o acordo serviria de base para uma presença permanente de tropas americanas no Iraque, algo que ameaçaria o Irã.

Mas agora, os iraquianos parecem estar sentindo menos pressão do Irã, talvez porque os iranianos estejam menos preocupados que o governo de Obama tentará forçar uma mudança de regime em seu país.

Nas últimas semanas, Al-Ameri, que passou anos no Irã e lidera a Brigada Badr, um braço paramilitar do Conselho Supremo, foi um dos vários líderes do partido que pareciam estar refletindo as preocupações do Irã com sua relutância em endossar o pacto.

É claro, dada o estado volátil e contencioso da política iraquiana, o acordo de segurança ainda pode ser adiado. Mas com os iraquianos acreditando que Obama, como presidente, buscaria uma retirada mais rápida das tropas americanas, iraquianos e autoridades americanas disseram que os obstáculos para um acordo de segurança parecem estar desaparecendo.

Jabeer Habib, um legislador xiita independente e um cientista político da Universidade de Bagdá, colocou de forma simples: "A eleição de Obama coloca o Iraque em uma nova posição".

A decisão do general David H. Petraeus de retirar outra brigada de combate seis semanas antes do prazo reforçou as garantias do ministro da defesa do Iraque de que suas tropas poderiam assumir um papel maior na segurança do Iraque e enviou um sinal de que as retiradas de tropas americanas ocorreriam.

Também espera-se que um governo Obama desloque a atenção para o Afeganistão. Autoridades americanas disseram que à medida que a guerra se deteriora no Afeganistão, quaisquer forças adicionais enviadas para lá teriam que vir das tropas retiradas do Iraque.

A eleição de Obama também coincide com a aceitação pelos negociadores americanos de muitas das mudanças exigidas pelos iraquianos no acordo, o que criou um quadro geral mais fácil para tanto os iraquianos quanto seus vizinhos -Irã, Síria e Arábia Saudita- aceitarem.

Os negociadores americanos enviaram uma nova versão do acordo aos líderes iraquianos na quinta-feira, que incluía muitas das mudanças exigidas pelos iraquianos. Em público, os iraquianos disseram apenas que estavam estudando o documento.

Mas, no geral, há um novo tom de otimismo. "O clima é positivo com a tentativa americana de preservar a soberania da nação iraquiana", disse o porta-voz do governo, Ali al-Dabbagh, para o canal de notícias "Al-Arabiya". Ele elogiou a inclusão de um novo artigo declarando que os americanos não lançariam ataques aos vizinhos do Iraque a partir de solo iraquiano.

Os americanos também acrescentaram linguagem para deixar explícito que tipo de tropas permaneceriam após a retirada em 2011, disse um funcionário do governo Bush com conhecimento a respeito do pacto de segurança. Os que permaneceriam no Iraque seriam basicamente treinadores e controladores de tráfego aéreo, disse o funcionário.

"Haverá uma presença significativa, mas não serão forças de combate", disse o funcionário do governo. O funcionário disse que as negociações mais recentes com os iraquianos deram aos negociadores americanos confiança de que um acordo final estava próximo.

Al-Ameri, que é presidente do comitê de segurança do Parlamento do Iraque, disse que os políticos iraquianos apreciaram o compromisso do governo Bush com o Iraque. Assinar o acordo enquanto o presidente Bush ainda está no governo seria "um sinal de apreço", disse Al-Ameri.

O pacto de segurança, a maior questão política aqui desde o primeiro semestre, se tornou a forma como os iraquianos se definem ideologicamente, uma forma abreviada para o que pensam a respeito da presença americana.

Os partidos sunitas estão particularmente nervosos a respeito do pacto porque, nos últimos dois anos, os americanos freqüentemente foram seus protetores na luta sectária, e a retirada poderia deixar os sunitas vulneráveis às forças xiitas.

O governo iraquiano, composto de exilados que só conseguiram ascender ao poder devido à invasão americana, está à procura de uma forma de apoiar o pacto sem parecer estar se curvando aos americanos.

A eleição de Obama, que de muitas formas pende a balança para a retirada, permite ao governo aparar os pedidos de rejeição a qualquer pacto feitos pelos partidos mais antiamericanos. Mas muitos iraquianos estão nervosos com a idéia de uma retirada rápida.

"Os iraquianos estão muito aliviados com a vitória de Obama, mas esta felicidade ou alívio é acompanhada por preocupação", disse Ali Adeeb, um legislador e importante membro do Partido Dawa do primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki. "Porque mesmo se Obama pedir uma retirada antecipada, ainda há a necessidade de reabilitar as forças de segurança iraquianas."

Obama disse que um contingente de tropas americanas provavelmente permaneceria por um período mais prolongado - para treinar as forças iraquianas, proteger a embaixada americana e caçar terroristas. Isso ajudaria a tranqüilizar alguns iraquianos, disse Habeeb, o legislador.

"Todos acreditam que as forças iraquianas serão capazes de lidar com as coisas no lugar das tropas americanas", ele disse. "Mas nós precisamos de algum envolvimento dos americanos para impedir que os países vizinhos estendam sua influência no Iraque. Eu ouvi Obama dizer que manteria algumas tropas, de forma que mesmo após 16 meses nós teríamos algumas, mas estariam fora das cidades. Elas não seriam vistas pelos iraquianos."

A eleição de Obama pode fornecer a chance para o Iraque dar início a um novo capítulo, com maior habilidade para controlar seu próprio destino. Mas também deixará o Iraque por conta própria entre vizinhos agressivos e incapaz de se voltar para os americanos como mediadores quando as facções políticas discutirem. Logo, há ao mesmo tempo um senso de possibilidade e o potencial de implosão.

"A outra coisa que testemunhamos durante o período Bush foi que quando os políticos iraquianos não conseguiam chegar a um acordo, Bush interferia", disse Habeeb.

"Eu não acho que Obama fará isso; ele não tentará estabelecer a agenda iraquiana", ele disse. "Eu acho que os políticos terão que amadurecer o suficiente para resolver seus próprios problemas e ousar fazer concessões." George El Khouri Andolfato

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