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08/11/2008

Krugman: a agenda de Obama

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Terça-feira, 4 de novembro de 2008, é uma data que viverá para sempre na fama (e não na infâmia). Se a eleição de nosso primeiro presidente afro-americano não mexeu com você, não deixou você com olhos marejados e com orgulho de seu país, há algo errado com você.

Mas a eleição também marcará um momento de virada no conteúdo de fato das políticas? Será que Barack Obama realmente poderá nos conduzir a uma nova era de políticas progressistas? Sim, ele pode.

No momento, muitos comentaristas estão pedindo para que Obama pense pequeno. Alguns fazem o argumento com base política: os Estados Unidos, eles dizem, ainda são um país conservador, e os eleitores punirão os democratas se eles se deslocarem para a esquerda. Outros dizem que as crises financeira e econômica não deixam espaço para buscar, digamos, a reforma do sistema de saúde.

Vamos torcer para que Obama tenha bom senso e ignore estes conselhos.

Quanto ao argumento político: qualquer um que duvide que obtivemos um grande realinhamento político deve olhar para o que aconteceu no Congresso. Após a eleição de 2004, havia muitas declarações que tínhamos entrado em um domínio republicano de longo prazo, talvez permanente. De lá para cá, os democratas obtiveram duas vitórias consecutivas, avançando pelo menos 12 cadeiras no Senado e mais de 50 na Câmara. Eles agora possuem maiorias ainda maiores em ambas as casas do que os republicanos conseguiram em seus 12 anos de reinado.

Também tenha em mente que a eleição presidencial deste ano foi um claro referendo sobre as filosofias políticas -e a filosofia progressista venceu.

Talvez a melhor forma de acentuar a importância disso seja o contraste entre a campanha deste ano com o que aconteceu há quatro anos. Em 2004, o presidente Bush escondeu sua verdadeira agenda. Ele basicamente concorreu como o defensor do país contra os terroristas e o casamento gay, deixando até mesmo seus eleitores confusos quando ele anunciou, logo após o término da eleição, que sua prioridade era a privatização do Seguro Social. Não foi nisso que as pessoas votaram, e a campanha pela privatização rapidamente se transformou de rolo compressor em uma farsa.

Neste ano, entretanto, Obama concorreu com uma plataforma de atendimento de saúde garantido e redução de impostos para a classe média, pagos por impostos mais altos sobre os ricos. John McCain denunciou seu adversário como sendo socialista e um "redistribuidor", mas os americanos votaram nele assim mesmo. Isso é um verdadeiro mandato.

E quanto ao argumento de que a crise econômica inviabilizará uma agenda progressista?

Bem, não há dúvida de que combater a crise custará muito dinheiro. Resgatar o sistema financeiro provavelmente exigirá maiores gastos além dos fundos já desembolsados. E, além disso, nós precisamos urgentemente de um programa de maiores gastos do governo para apoiar a produção e o emprego. O próximo orçamento federal poderia chegar a US$ 1 trilhão? Sim.

Mas o manual padrão de economia diz que é OK, na verdade até apropriado, incorrer em déficits temporários diante de uma economia deprimida. Enquanto isso, um ou dois anos de vermelho, apesar de que aumentariam modestamente os gastos futuros com juros federais, não devem ficar no caminho de um plano de saúde que, mesmo se sancionado rapidamente, provavelmente não entraria em vigor até 2011.

Além disso, a resposta à crise econômica é, por si só, uma chance de promover uma agenda progressista.

Mas o governo Obama não deve copiar o hábito do governo Bush de transformar tudo em um argumento em prol de suas políticas preferidas. (Recessão? A economia precisa de ajuda -vamos reduzir os impostos dos ricos! Recuperação? As reduções de impostos para os ricos funcionam -vamos reduzir ainda mais!)

Mas seria bom o novo governo apontar como a ideologia conservadora, a crença de que a ganância é sempre boa, ajudou a criar a crise. O que disse Franklin Delano Roosevelt em seu discurso de posse do segundo mandato - "Nós sempre soubemos que o interesse impróprio insensato era moralmente ruim; agora nós sabemos que é economicamente ruim" - nunca soou mais verdadeiro.

E, por acaso, este é um daqueles momentos em que o inverso também é verdadeiro, e o que é moralmente bom também é economicamente bom. Ajudar os mais necessitados em um momento de crise, por meio de maior atendimento de saúde e benefícios para os desempregados, é a coisa moralmente certa a ser feita; também é uma forma bem mais eficaz de estímulo econômico do que reduzir impostos sobre os ganhos de capital. Fornecer ajuda a governos estaduais e municipais em dificuldades, para que possam manter os serviços públicos essenciais, é importante para aqueles que dependem desses serviços; também é uma forma de evitar mais demissões e limitar a profundidade da recessão.

Logo, uma agenda progressista séria -chame-a de um novo New Deal- não é apenas economicamente possível, é exatamente o que a economia necessita.

Resumindo, Barack Obama não deve dar ouvidos às pessoas que estão tentando assustá-lo para que se transforme em um presidente que não faz nada. Ele tem um mandato político; ele tem bons argumentos econômicos ao seu lado. Pode-se dizer que a única coisa que ele tem a temer é o próprio medo. George El Khouri Andolfato

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