UOL Notícias Internacional
 

09/11/2008

Friedman: mostre-me o dinheiro

The New York Times
Thomas L. Friedman
Outro dia eu estava conversando com um amigo iraniano sobre como deve
ser confuso para as pessoas no Oriente Médio ver os americanos, sete
anos depois do 11 de setembro, elegerem alguém chamado Barack Hussein Obama para a presidência. Os Estados Unidos são com certeza a única nação que poderia - na mesma década - entrar em guerra contra um presidente chamado Hussein (Saddam, do Iraque), ameaçar usar a força contra um país cujo líder religioso mais reverenciado se chama Hussein (Irã), e depois eleger seu próprio presidente cujo nome do meio é Hussein.

Não é um país e tanto?

Muito foi dito sobre como as pessoas em todo o mundo estão celebrando a vitória do nosso Hussein - Barack de Illinois, cujo primeiro nome significa "abençoado" em árabe. É, de fato, uma bênção que tantas pessoas em tantos lugares vejam algo de si mesmas refletido em Obama, quer seja a cor de sua pele, a religião de seu avô, sua herança africana, o fato de ter sido criado por uma mãe solteira ou de ter tido uma infância pobre. E isso provavelmente garante que Obama terá uma lua-de-mel mais longa do que o normal com o resto do mundo.

Mas eu não exageraria. No minuto em que Obama tiver que exercer o poder militar americano em algum lugar do mundo, pode ter certeza de que ele terá oposição. Por enquanto, todavia, sua biografia, comportamento e disposição de pelo menos testar a diplomacia com um regime como o Irã, por exemplo, faz com que seja mais difícil demonizá-lo do que a George W. Bush e Dick Cheney.

"Se você for um linha-dura de Teerã, ficará mais perplexo com um presidente americano que queira conversar com você do que com um presidente americano que queira confrontá-lo", observou Karim Sadjadpour, especialista em Irã do Carnegie Endowment.

"Como você vai implorar às multidões para gritar 'Morte a Barack Hussein Obama'? Isso soa mais como o grito do opressor, e não o da vítima. Obama simplesmente não se enquadra na narrativa radical islâmica de uma América racista e sedenta de sangue, inclinada a oprimir os muçulmanos em todo o mundo. Há uma dissonância cognitiva. É como Hollywood convidar Sidney Poitier para fazer o papel de Charles Manson. Simplesmente não combina."

Mas enquanto o mundo parece pronto para dar a Obama uma lua-de-mel generosa, há uma questão mais importante à espreita: quanto tempo de lua-de-mel Obama dará ao mundo?

Para todos os europeus, canadenses, japoneses, russos, iranianos, chineses, indianos, africanos e latino-americanos que estão enviando e-mails para seus amigos americanos, dizendo-se felizes por terem "os Estados Unidos de volta" agora que Obama está dentro, tenho apenas uma coisa a dizer: "mostre-me o dinheiro!"

Não me mostre apenas o amor. Não me dê apenas sorrisos. Seu amor é inconstante e, como eu já disse, durará apenas até o primeiro ataque aéreo de Obama contra posições da Al Qaeda no Paquistão. Não, não, não, mostre-me o dinheiro. Mostre que você está pronto para bancar as apostas - e não agir de forma egoísta - nas iniciativas caras e difíceis que o governo Obama terá de realizar para manter o mundo estável e livre numa época em que temos menos recursos.

Exemplos: eu entendo qualquer estrangeiro que tenha se posicionado contra a invasão norte-americana no Iraque e a administração grosseira do pós-guerra. Mas com certeza todos no mundo têm interesse em ajudar Obama, que se opôs à guerra, a conduzi-la a um final decente e estável, especialmente agora que há uma chance de o Iraque se transformar na primeira democracia, ainda que bagunçada, no coração do mundo árabe-muçulmano. Obama foi contra a forma como esse Iraque começou, mas terá de assumir a responsabilidade sobre o desfecho do processo, então, por que todos os nossos aliados não oferecem tudo o que podem - dinheiro, polícia, ajuda humanitária, tropas, apoio diplomático - para aumentar as chances de um fim decente no Iraque? Vide o Afeganistão.

A ONU diz que não quer que o Irã desenvolva armas nucleares e não quer que os EUA usem a força para evitar que o Irã o faça. Eu concordo. É por isso que quero que todos que estão sorrindo para Obama na China, França, Rússia, Índia e Alemanha se manifestem e peçam para que seus governos usem seu tremendo poder econômico para avisar aos iranianos que, caso Teerã continue a se movimentar na direção de uma arma nuclear, em oposição às resoluções da ONU, esses países irão impor sanções econômicas reais. Nada - eu digo, nada - iria ajudar mais o presidente eleito Obama a estabelecer um acordo diplomático com o Irã do que ter como arma a ameaça de sanções econômicas perigosas da China, Índia e UE.

O presidente Bush, por ser tão facilmente demonizável, tornou fácil para todos se aproveitarem do poder americano - e os americanos pagaram o preço. Obama não deixará que isso seja tão fácil.

Então, digo para todos os estrangeiros: obrigado pelo seu aplauso para o nosso próximo presidente. Estou feliz que todos vocês sintam que os Estados Unidos estão "de volta". Se você quer que Obama tenha sucesso, entretanto, não nos mostre apenas amor, mostre-nos dinheiro.

Mostre-nos as tropas. Mostre-nos o esforço diplomático. Mostre-nos a parceria econômica. Mostre-nos algo mais do que um sorriso no rosto. Porque a liberdade não é de graça e a sua desculpa para fazer menos do que pode deixará de existir em janeiro. Eloise De Vylder

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