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10/11/2008

Um país baixo busca terras mais altas

The New York Times
John Tagliabue
Em Lelystad (Holanda)
Nesse minúsculo país abaixo do nível do mar, onde a maior parte das terras foram retiradas do oceano, as pessoas gostam de dizer que enquanto Deus pode ter criado o resto do mundo, foram os holandeses que criaram a Holanda.

Considere por exemplo essa cidade à beira-mar, de casas de tijolos amontoadas atrás de altos diques. Nos anos 60, Lelystad era constituída principalmente pelos barracos dos trabalhadores que construíram os diques e drenaram a água para abrir espaço à agricultura, indústria e residências. Desde então, Lelystad cresceu rapidamente, para os 73 mil habitantes - e continua crescendo.

Hoje, assim como aconteceu durante séculos, os holandeses precisam de mais espaço para abrigar sua população em expansão. Eles também têm de enfrentar uma nova ameaça contra suas terras, quase dois terços delas abaixo do nível do mar: o fantasma da elevação do volume de água marinha associado ao aquecimento global.

Assim, uma comissão do governo propôs recentemente estender o litoral da Holanda em resposta ao desafio da elevação do nível do oceano; outra propôs a construção de ilhas na costa holandesa, como se fossem recifes de corais no Mar do Norte.

Inspirada pelo exemplo de Dubai, que construiu várias ilhas em forma de palmeiras gigantes em sua costa como parte de um grande plano de desenvolvimento urbano, uma dessas comissões sugeriu caprichosamente que as ilhas holandesas deveriam ter forma de plantas, especificamente de tulipas. Um blog humorístico sugeriu que, em vez disso, as ilhas lembrassem folhas de cannabis, em alusão à tradicional tolerância holandesa à maconha.

"Foi uma brincadeira, uma metáfora", disse Hans de Boer, membro da comissão, sobre o desenho de tulipa proposto para as ilhas. "Nós aparecemos com uma metáfora, e todos quiseram tomar parte na discussão."

A idéia, continuou Boer, não seria apenas ganhar terra e proteger a costa, mas também demonstrar as habilidades de engenharia dos holandeses. Ao mesmo tempo, as ilhas poderiam funcionar como casas de força, sendo construídas em forma de anel para criar a chamada energia azul usando o contraste entre a água doce e a salgada para gerar eletricidade, ou então o encher e esvaziar das marés. Turbinas de vento também poderiam produzir mais energia, diz ele.

É claro, há céticos, especialmente entre os que têm mais experiência em construir ilhas. "Formas engraçadas como tulipas, tamancos e moinhos de vento são uma boa maneira de começar o debate, mas não deveria ser considerada realista", disse à Reuters o gerente de marketing Bert Groothuizen, que trabalha na Van Oord, a maior empreiteira de drenagem holandesa, que participa da construção das palmeiras de Dubai.

"As ilhas oferecem proteção contra ondas, no lado que fica abrigado do vento", explicou Groothuizen numa entrevista por telefone de seu escritório em Roterdã. Mas, diferentemente de Dubai, elas teriam que ser posicionadas a muitos quilômetros de distância da costa. "É muito mais caro", diz ele.

Esse trabalho deve custar bilhões de dólares - ninguém estimou ainda o valor - e levar décadas. Ainda assim as comissões do governo insistem na seriedade de suas propostas para a criação de ilhas ou expansão da costa, e os prósperos contribuintes não protestam.

A estação de bombeamento de Lelystad é uma das maiores na paisagem recuperada, e fornece um exemplo de como os holandeses aprenderam a viver abaixo do nível do mar.

"Faltaram alimentos na Primeiro Guerra Mundial, e a Holanda queria se sustentar de forma independente", disse Evert van der Horst, engenheiro-chefe da estação próxima a Lelystad que drena a terra recuperada.

Então os holandeses construíram um dique que separava do oceano um corpo d'água chamado Zuiderzee. Eles chamaram o corpo de água formado pelo dique de Ijsselmeer, por causa de um rio próximo, disse van der Horst, e drenaram a parte ocidental para cultivar a terra e morar. Ele estava entre os milhares de holandeses do interior que ali se estabeleceram.

Durante todo o inverno, as quatro bombas de diesel da estação de bombeamento, que foram convertidas para uma eletricidade mais eficiente, trabalham alternadamente.

Mas "no verão, cada árvore chupa 300 litros de água por dia", tornando o bombeamento desnecessário, explicou van der Horst, 64. "Dá pra sentir no cheiro das árvores", disse.

Uma das piores crises de Lelystad aconteceu recentemente, em 1994.

"Tivemos muita chuva antes do Natal, então ativamos as bombas", disse ele. Depois de meses de bombeamento contínuo, acrescentou, só "terminamos em abril".

As companhias holandesas ganharam renome nos últimos anos ao ajudar outros países a recuperarem terras do mar. Além das ilhas de Dubai, a ilha artificial do novo aeroporto de Hong Kong foi construída pela companhia de drenagem Van Oord. Então, o governo holandês está pedindo que seus engenheiros e construtores voltem para casa e lutem contra o mar.

O crescimento de cidades como Lelystad não pára, lotando um país já abarrotado de gente. Com uma população de 16,5 milhões, a Holanda tem uma área equivalente a quase um terço do Estado de Nova York, sua antiga colônia, com cerca de 1.270 habitantes por milha quadrada, comparados aos 409 de Nova York. Conforme novas subdivisões florescem nas antigas cidades holandesas e novas rodovias as conectam, o crescimento engole as florestas e terras cultiváveis.

"O número de fazendas, cerca de 80 mil, está diminuindo, enquanto a produção está aumentando. Mas se quisermos aumentar a produção e manter o crescimento, precisamos de mais terras", diz Joop Atsma, membro local do parlamento envolvido com o planejamento.

Se a Holanda deve construir ilhas ou estender o litoral, ele não sabe dizer. Já Groothuizen da Van Oord não tem dúvidas.

"É melhor e mais barato estender a costa em um quilômetro em direção ao mar e fortalecer as dunas ao longo do litoral jogando bastante areia", disse.

"Antigamente", ele filosofa, "os diques eram rígidos, de concreto, mas agora preferimos um litoral mais suave, em harmonia com a natureza. É uma volta ao século 17."

Acima do dique que protege Lelystad, há um restaurante, 't Dijkhuysje, ou Casa do Dique, um dos muitos que antigamente guardavam suprimentos para ajudar os supervisores do dique a lidarem com emergências. "Não temos problema com a água", diz Rob Sengers, 24, que trabalhou na cozinha do restaurante por oito anos. Se ele está preocupado com a possibilidade do nível do mar aumentar com a mudança climática?

"Talvez isso aconteça mais cedo ou mais tarde", diz ele. "Talvez meus filhos vejam isso acontecer." Eloise De Vylder

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