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11/11/2008

Estudo mostra que tolerância racial pode se disseminar

The New York Times
Benedict Carey
Acreditava-se que nesta eleição o racismo oculto seria um problema. Falou-se muito de um "efeito Bradley", segundo o qual os eleitores brancos diriam uma coisa aos entrevistadores das pesquisas de opinião e fariam outra na privacidade da urna; de uma reação dos operários brancos, que foram rotulados pelo senador Barack Obama de "amargos", e que descarregariam esse amargor no candidato.

Mas, segundo os especialistas, em todos esses comentários angustiados passou despercebida uma recente descoberta feita a partir de estudos sobre o preconceito: o de que a confiança mútua entre membros de raças diferentes pode materializar-se tão rapidamente, e disseminar-se com a mesma rapidez, quanto a suspeita inter-racial.

Em alguns novos estudos, os psicólogos foram capazes de identificar uma relação estreita entre diversos pares - negros e brancos, latinos e asiáticos, negros e latinos - em uma questão de horas. Essa relação reduz imediatamente os preconceitos conscientes e inconscientes em ambas as pessoas, e também diminui significativamente o preconceito dos amigos próximos do indivíduo em relação ao outro grupo.

Este efeito do contato ampliado, como é chamado, circula como um vírus benigno em meio a um determinado grupo, contrabalançando desconfianças um pouco ou bastante sutis.

"É importante lembrar que, sem dúvida, existem preconceitos na sociedade; mas creio que isto é apenas a metade da história", afirma Linda R. Tropp, professora de psicologia da Universidade de Massachusetts. "Com mudanças mais amplas na sociedade como um todo, as pessoas podem também ficar mais dispostas a cruzar as fronteiras raciais, e isto vale tanto para as minorias quanto para os brancos".

Apesar da eleição de Obama, os especialistas concordam que o preconceito institucional e individual ainda permeia vários setores da vida moderna. E, neste ano, as preocupações com a economia podem ter superado quaisquer preocupações persistentes em relação à raça.

Ao que parece, onde a raça chegou a desempenhar um papel na eleição, ela parece ter favorecido mais do que prejudicado Obama. Nas pesquisas de intenção de voto, a maior parte dos 17% de eleitores brancos que afirmaram que a questão racial pesou de alguma forma em suas decisões votou em McCain; mas, entre todos os eleitores para os quais a raça foi um fator levado em consideração, Obama obteve a maioria.

"Sou republicano, e para votar em Obama tive que contar com um certo nível de confiança, acreditando que estava fazendo a coisa certa, que ele não teria uma mentalidade egoísta e limitada, que Obama não privilegiaria nenhum grupo em detrimento de outro", afirma Nelson Montgomery, 50, um executivo de vendas branco de Buffalo, que morou em um bairro negro de Houston no início da sua carreira. "O que ocorre é que atualmente estamos tão polarizados que só escutamos o que vem dos setores periféricos do outro lado. Mais do que tudo, precisamos construir confiança. E eu senti que Obama seria capaz de fazer isso".

Em estudos conduzidos nos últimos anos, pesquisadores demonstraram com que rapidez a confiança pode ser construída nas circunstâncias propícias. A fim de criar uma relação próxima a partir da estaca zero, psicólogos fazem com que dois indivíduos que não se conhecem encontrem-se em sessões de quatro horas de duração. Na primeira vez, os dois compartilham as suas respostas para uma lista de questões, desde a inócua "Você gostaria de ser famoso? De que forma?", até outras mais sérias, como: "Se você pudesse mudar algo em relação à forma como foi criado, o que seria?".

Na segunda sessão, o par compete com outros pares em diversos jogos de palavras. Na terceira, eles falam a respeito de várias coisas, incluindo por que motivo sentem orgulho de um membro do seu grupo étnico, seja ele latino, asiático, branco ou negro. Finalmente, eles se revezam usando uma venda, enquanto o parceiro dá instruções para a travessia de um labirinto.

"Por mais triviais que pareçam, esses exercícios criam uma relação que é a mais estreita que uma pessoa é capaz de ter", afirma Art Aron, um psicólogo social da Universidade Stony Brook, que desenvolveu o programa com a mulher dele, Elaine N. Aron.

A nova relação pode durar vários meses - ou anos -, e ela provoca imediatamente a queda dos números que medem vários preconceitos do indivíduo. Além do mais, ela reduz significativamente a ansiedade durante encontros com outros membros daquele segundo grupo, conforme foi determinado pela avaliação dos níveis de hormônios de estresse presentes na saliva.

Em uma série de estudos, Art Aron e outros descobriram que, ao gerar uma amizade inter-racial, eles são capazes de melhorar a relação entre grupos que foram lançados uns contra os outros em competições hostis. Em um estudo contínuo de cerca de mil novos estudantes da Universidade Stony Brook, Aron descobriu que o mero fato de estar na mesma classe em que outros pares inter-raciais estão interagindo é capaz de reduzir os níveis de preconceito.

Os psicólogos alegam que o motivo pelo qual tais mudanças ocorrem é o fato de as pessoas sentirem uma necessidade egoísta de expandir as suas identidades através de outros indivíduos - para tornarem-se uma parte das vidas dos outros, e vice-versa, como namorados, pais, colegas, amigos. Estudos revelam que é exatamente isso o que acontece em um relacionamento: os indivíduos não estão simplesmente conscientes dos problemas dos amigos próximos, mas, até certo ponto, sentem a dor, a humilhação, a injustiça.

Os psicólogos são capazes de manipular esta necessidade de auto-expansão. Em uma experiência recente, liderada por Stephen Wright, psicólogo da Universidade Simon Fraser, na província canadense de Colúmbia Britânica, pesquisadores fizeram com que 47 alunos descrevessem as suas tarefas e atividades e com que eles se sentissem sobrecarregados ou entediados, com base em falsos testes de personalidade.

"É algo fácil de fazer, porque os estudantes sempre se sentem tanto sobrecarregados quanto entediados", explica Wright. "Aqueles que foram induzidos ao tédio sentiram-se mais interessados do que outros em fazer amizade com alguém cujo nome pertencesse a um grupo minoritário".

Estes impulsos vão de encontro a qualquer preconceito implícito ou subconsciente que a pessoa possa ter. Quando estão em jogo questões maiores, a importância da raça diminui.

"No final da década de 1960, quando o político negro Richard G. Hatcher desejava tornar-se prefeito de Gary, no Estado de Indiana, um bairro próximo à siderúrgica apresentava um índice de rejeição a ele de quase 90%", diz Thomas Pettigrew, professor e pesquisador em psicologia social da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, que ajudou a fazer a pesquisa. Descobriu-se que muito dos moradores estavam mais preocupados com um depósito de lixo próximo à cidade que provocava mau cheiro no bairro. Após ser eleito, Hatcher fechou o depósito de lixo, e na próxima eleição ele obteve quase 40% dos votos daquele bairro. "Muita gente que vivia lá se preocupava mais com o lixão do que com a cor do prefeito", afirma Pettigrew. "Quanto à eleição de Obama, creio que a crise econômica teve um impacto semelhante".

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