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13/11/2008

Compartilhando seus demônios pela Internet

The New York Times
Sarah Kershaw
Por anos, eles viveram sob terror solitário dos raios de luz que causam fortes dores de cabeça, da tecnologia que assumiu o controle de seus corpos e mentes. Eles temiam perseguidores, pessoas cujas vozes gritavam das paredes ou dentro de suas cabeças: "Nós encontramos você" e "Queremos você morto".

Quando pessoas que acreditam nessas coisas as denunciavam para a polícia, médicos ou família, elas freqüentemente eram chamadas de loucas. Às vezes eram medicadas ou trancadas em alas de hospital, demitidas do emprego e isoladas do mundo exterior.

Mas quando passaram a se encontrar na Internet, tudo mudou. Muitas outras pessoas tinham as mesmas experiências.

Digite "mind control" (controle da mente) ou "gang stalking" (perseguição por gangue) no Google e aparecem sites descrevendo casos de perseguição, tanto física quanto psicológica, relatados com os mesmos detalhes - carros vermelhos e brancos seguindo as vítimas, vandalismo em seus lares, ridicularização pelas pessoas ao redor.

Identificados por alguns psicólogos e psiquiatras como parte de uma "comunidade extrema" na Internet que parece encorajar o pensamento ilusório, um crescente número desses sites está repleto de histórias de pessoas que dizem ser vítimas de controle da mente e de serem perseguidas por gangues de agentes do governo. Os sites estão atraindo preocupação de profissionais de saúde mental e o interesse de pesquisadores em psicologia e psiquiatria.

Apesar de muitos grupos de Internet que oferecem ajuda aos seus pares serem considerados benéficos àqueles que sofrem de males mentais, alguns especialistas dizem que os sites que amplificam os relatos de controle da mente e perseguição representam um lado sombrio das redes sociais. Eles podem reforçar o pensamento problemático daqueles que sofrem de doenças mentais e impedir o tratamento.

O dr. Ralph Hoffman, um professor de psiquiatria de Yale que estuda ilusões, disse que um número crescente de seus pacientes pesquisados diz que visita os sites de controle da mente, encontrando neles confirmação de suas próprias experiências.

"As percepções desses sistemas de crença são como um tubarão que precisa ser constantemente alimentado", disse Hoffman. "Se você não alimentar a ilusão, cedo ou tarde ela morrerá ou diminuirá por conta própria. A chave é que ela precisa ser repetitivamente reforçada."

Isso é o que os sites fazem, ele disse. Preocupações semelhantes surgiram em torno da proliferação de sites que descrevem como cometer suicídio, ou outros que promovem a anorexia e a bulimia, fornecendo instruções detalhadas para restringir a alimentação e fotos de mulheres esqueléticas que visam servir de inspiração.

Para as pessoas que regularmente os visitam e escrevem nos murais de sites de controle da mente, a idéia de que outros descreveriam os sites como promovendo pensamento ilusório e psicótico é simplesmente uma evidência de acobertamento da verdade.

"Foi um grande alívio encontrar a comunidade", disse Derrick Robinson, um zelador de 55 anos de Cincinnati e presidente da Liberdade contra Abusos e Vigilância Secretos, um grupo que alega ter várias centenas de visitantes regulares em seu site. "Eu sentia que talvez existissem outros, mas não tinha certeza até descobrir esta comunidade", disse Robinson.

Não há um levantamento conciso dos sites de controle da mente ou outros que descrevem perseguição por gangues - cujos usuários acreditam que grupos de pessoas as seguem e controlam, como parte de testes de armas neurológicas e outras, provavelmente realizados pelo governo- na Internet. Mas são fáceis de encontrar. Alguns apresentam centenas de postagens, juntamente com links para dezenas de sites semelhantes. Um, Gangstalkingworld.com, dá as boas-vindas aos visitantes com esta descrição: "Perseguição por gangues é uma forma sistemática de controle, que busca destruir cada aspecto da vida do indivíduo visado. O alvo é seguido por toda parte e colocado sob vigilância por espiões civis/delatores 24 horas, 7 dias por semana".

O site lista mais de 71 mil visitantes e conta com links para vários outros sites, incluindo o Harrassment101.com, que conta com 965 postagens.

Uma pessoa que postou no Gang Stalking World escreveu em agosto: "É insano chegar em casa diariamente e não saber se meus sites na Internet estarão no ar ou não. Nesta semana eles têm realmente mexido comigo, então é minha vez de revidar". A mensagem postada direciona os leitores para outros sites de perseguição caso seus favoritos sejam retirados do ar.

Robinson disse em uma entrevista que foi torturado e sofreu abuso por gangues e por "armamento neurológico" desde que deixou a Marinha, em 1982. "Ler as histórias e a semelhança das técnicas de abuso usadas, ouvir sobre o vandalismo, manipulação dos aparelhos e todas as outras coisas que visam enlouquecer uma pessoa, quem você pode procurar com tudo isso?" ele disse. "As pessoas dirão que você está louco."

Para Robinson e vários outros internautas entrevistados para este artigo -todos eles insistiram que não eram iludidos, incluindo um homem que disse que já esteve internado em alas psiquiátricas- os sites fornecem uma experiência poderosa e não familiar de serem entendidos por outros.

"A maioria das pessoas é sã, coerente e pode se relacionar exatamente com o que está acontecendo com elas", disse Robinson. "Elas podem dizer as coisas que caso contrário as fariam ser rotuladas como iludidas."

Seu grupo que se autodescreve como "indivíduos visados" se encontrou offline em Los Angeles no mês passado, para sua primeira conferência, ele disse, onde se reuniram para compartilhar histórias, incluindo as experiências humilhantes de serem chamados de insanos.

Especialistas em doença mental que têm acompanhado atentamente os sites são cuidadosos em dizer que não há como provar se alguém que posta, digamos, no site de Robinson, Freedomfchs.com, que diz que sua missão é buscar justiça para aqueles que são visados por "perseguição organizada e tortura eletromagnética", está sofrendo de doença mental.

Vaughan Bell, um psicólogo britânico que pesquisa o efeito da Internet em doenças mentais, começou a monitorar os sites com relatos de controle da mente em 2004. Em 2006, ele publicou um estudo concluindo que havia uma extensa comunidade de Internet em torno dessas crenças, e ele chamou os 10 sites que estudou de "sites provavelmente psicóticos".

A extensão da comunidade, disse Bell, representa um paradoxo para a forma tradicional como ilusão é definida segundo as diretrizes de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, que diz que uma crença mantida pela "cultura ou subcultura" de uma pessoa não é ilusão. A exceção remete aos rituais de fé religiosa, por exemplo.

Bell, cujo estudo foi publicado na revista "Psychopathology", disse que não sugere que todas as pessoas que participam dos sites de controle da mente são iludidas, e que um diagnóstico firme de psicose só pode ser feito pessoalmente.

Os sites de controle da mente lembram a alguns especialistas os relatos daqueles que alegam ter sido abduzidos por alienígenas nos anos 70 e 80. A história de uma pessoa levava a outra até que muitas insistiam ter tido experiências virtualmente idênticas de serem levadas para espaçonaves por criaturas prateadas de olhos como ameixas.

Algumas das pessoas que agora postam nos sites de controle mental dizem que são "estimuladas sexualmente" por seus torturadores. Alguns abduzidos por alienígenas diziam coisas semelhantes. Pesquisa subseqüente geralmente mostrava que aqueles que acreditavam ter sido abduzidos não eram psicóticos, mas sofriam de problemas severos de memória e sono, ou traumas pessoais, disse Bell.

Psiquiatras e pesquisadores dizem que é cedo demais para dizer se a comunicação entre as pessoas na Internet que podem ser psicóticas afetará negativamente sua doença.

"Este é um pequeno canto muito complexo", disse o dr. Ken Duckworth, o diretor médico da Aliança Nacional para Doença Mental, um grupo de defesa. "Algumas pessoas podem considerá-la como cura, mas são perguntas realmente difíceis. A Internet não é uma causa de doença mental, ela é uma nova variável complicadora." George El Khouri Andolfato

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