UOL Notícias Internacional
 

13/11/2008

Friedman: como consertar um pneu furado

The New York Times
Thomas L. Friedman
Em setembro passado, eu estava em um quarto de hotel, de manhã cedo, assistindo à CNBC. A rede de televisão entrevistava Bob Nardelli, o presidente da Chrysler, e ele explicava por que, naquele momento, a indústria automobilística necessitava de US$ 25 bilhões em garantias de empréstimos. Ele disse que não se tratava de um bailout (pacote de socorro financiado pelo contribuinte), e sim de uma forma de permitir que as companhias se reequipassem para inovações. Eu não consegui deixar de gritar para a tela da televisão: "Nós temos que subsidiar Detroit para que eles inovem? Com que outros negócios vocês lidam além de inovação?". Se nós dermos outros US$ 25 bilhões, vocês farão também a contabilidade das empresas?

Como é que essas companhias conseguiram ser tão ruins por tanto tempo? Sem dúvida a combinação de uma cultura empresarial nada inovadora, um gerenciamento sem visão e contratos trabalhistas excessivamente generosos explica grande parte do problema. Isso gerou uma situação na qual a General Motors só era capaz de ganhar dinheiro vendendo os seus grandes e nada econômicos SUVs (veículos utilitários esportivos) e picapes. Portanto, em vez de concentrar-se em obter lucros nas áreas de economia de combustível, produtividade e design, a GM dispendeu um excesso de energia fazendo lobby e manobras para proteger os seus veículos beberrões.

Isso incluiu a costura de acordos especiais com o Congresso que permitiram que as fabricantes de veículos de Detroit apresentassem os seus carrões como sendo mais econômicos do que de fato eram - contanto que fabricassem alguns carros flex-fuel capazes de rodar com etanol. E incluiu ainda ofertas especiais de gasolina a US$ 1,99 o galão (US$ 0.53 por litro) durante um ano para os consumidores que comprassem um veículo beberrão. E fizeram-se também lobbies intermináveis no sentido de impedir que o Congresso exigisse níveis de consumo de gasolina mais rígidos. O resultado foi uma indústria em estado de morte cerebral.

Nada exemplifica melhor isto do que declarações como a de Bob Lutz, o vice-presidente da General Motors. Ele teria dito que os carros híbridos como o Toyota Prius "não fazem sentido sob o ponto de vista econômico". E, segundo a edição de fevereiro da "D Magazine", de Dallas, Lutz disse que: "[A teoria do] aquecimento global não passa de um completo pote de... (palavrão)".

São esses os caras que o contribuinte está sendo solicitado a salvar.

E, por favor, poupem-me das lágrimas de crocodilo quanto as despesas com os planos de saúde da General Motors. Sem dúvida, eles são escandalosos. "Mas, então, por que a General Motors recusou-se a levantar um dedo sequer para apoiar o programa de saúde nacional quando Hillary Clinton o defendia?", pergunta Dan Becker, um conhecido especialista no setor ambiental.

Nem toda companhia automobilística está à beira da morte. Vejam este artigo que foi publicado há duas semanas no www.autochanel.com: "ALLISTON, Ontário, Canadá - A Honda Canada Manufacturing inaugurou oficialmente o seu mais novo investimento no Canadá - uma fábrica de motores moderníssima de US$ 154 milhões. A nova instalação produzirá anualmente 200 mil motores econômicos de quatro cilindros para a fabricação do Civic em resposta à demanda crescente na América do Norte por veículos que proporcionam excelente economia de combustível".

A culpa por esta situação não é apenas dos executivos do setor automobilísticos. Ela deve ser igualmente dividida com toda a delegação de Michigan na Câmara e no Senado, já que praticamente todos os seus componentes votaram todos os anos a favor de tudo o que as montadoras e os sindicatos de Detroit lhes pediram. Isso protegeu a General Motors, a Ford e a Chrysler das preocupações com o meio ambiente, o consumo dos veículos, bem como do impacto pleno da competição global que teria obrigado Detroit a adaptar-se à realidade muito tempo atrás.

De fato, se e quando eles tiveram que enterrar Detroit, espero que todos os deputados e senadores de Michigan, tanto os atuais quanto os passados, tenham que segurar as alças do caixão. E ninguém merece mais a honra de ser o segurador-mor das alças do caixão do que o deputado John Dingell, de Michigan, o presidente do Comitê de Comércio e Energia da Câmara, que é mais responsável do que qualquer outro legislador pela proteção incondicional de Detroit.

Certo, agora que eu desabafei, o que faremos? Estou tão apavorado quanto todo mundo com o efeito dominó sobre a indústria e os trabalhadores caso a General Motors entre em colapso. Mas se formos usar o dinheiro do contribuinte para salvar Detroit, isso deveria ser feito segundo o que foi proposto por Paul Ingrassia, ex-chefe da sucursal do "Wall Street Journal" em Detroit, na edição da última segunda-feira daquele jornal.

"Em troca de qualquer auxílio governamental direto, a diretoria e os gerentes da General Motors devem ser destituídos. Os acionistas devem perder o pouco que lhes restou de equity. E um interventor nomeado pelo governo - alguém que seja duro e sem compromissos políticos - deve contar com poderes amplos para reestruturar a General Motors com um plano empresarial viável e fazer com que a empresa retorne às operações privadas o mais rapidamente possível. Isso significará rasgar os contratos existentes com sindicatos, concessionárias e fornecedores, fechar algumas fábricas, vender outras e reduzir o tamanho da companhia... Conceder à General Motors um cheque em branco - algo que a companhia e o sindicato United Auto Workers desejam bastante, e que Washington sentirá tentação de fornecer - seria um erro enorme".

Eu acrescentaria uma outra condição: qualquer companhia automobilística que receber dinheiro do contribuinte terá que apresentar um plano para a modificação de todo veículo da sua frota com a instalação de um motor híbrido-elétrico com capacidade flex-fuel, de forma que todos os veículos sejam capazes de rodar com a próxima geração de etanol celulósico.

Finalmente, alguém tem que ligar para Steve Jobs, que não precisa receber propinas para promover inovações, e perguntar se ele gostaria de prestar um serviço à nação, administrando uma companhia automobilística durante um ano. Eu aposto que ele não precisaria de muito mais do que um ano para lançar o GM iCar. UOL

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