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15/11/2008

Em livro de memórias, diplomata chileno remove as luvas brancas

The New York Times
Neil MacFarquhar
Na ONU
Haroldo Muñoz pesou o dilema quando se sentou para escrever sobre seu passado, que incluía percorrer furtivamente Santiago, Chile, com instáveis bananas de dinamite presas ao seu peito, preparando uma insurreição que nunca se materializou contra o infame golpe militar de 1973.

Nas décadas que se seguiram, Muñoz se tornou não apenas representante permanente do Chile na ONU, mas também chefe do comitê antiterrorismo do Conselho de Segurança. Diplomatas consumados não devem empregar verbos explosivos, muito menos dinamite de fato.

Mas ao escrever "The Dictator's Shadow: Life Under Augusto Pinochet" (a sombra do ditador: a vida sob Augusto Pinochet), um livro de memórias lançado recentemente, o embaixador decidiu que apenas a história completa seria suficiente.

"Naquela época, e é difícil dizer, eu estava pronto para morrer porque estava defendendo um governo constitucional e uma causa", disse Muñoz, 60 anos, em uma entrevista em seu arejado escritório de esquina com vista para o prédio da ONU e o Rio Leste. "Esta é a minha vida, e um tempo em que todos estavam loucos no mundo."

Ele superou sua relutância inicial em escrever o livro, ele disse, quando percebeu que Pinochet afetou toda uma geração no Chile e em todo o mundo - políticos esquerdistas proeminentes e defensores lhe disseram que a luta pelo Chile os inspirou a entrar na vida pública e ainda molda a percepção deles. Foram necessários dois anos de noites e fins de semana escrevendo para conclusão do trabalho.

Além disso, Muñoz queria examinar a questão sobre se o milagre econômico do livre mercado do Chile foi realmente fruto do período Pinochet - como ainda afirmam os defensores de Pinochet - ou se poderia ter ocorrido sem um regime brutalmente anti-socialista.

Apesar de Pinochet ter adotado políticas de livre mercado inspiradas pelos "meninos de Chicago", jovens discípulos chilenos de Milton Friedman e da Escola de Chicago de economia, o ditador foi forçado a recuar e até mesmo nacionalizar grande parte do setor bancário com um resgate de US$ 7 bilhões, no início dos anos 80.

Foi apenas após a derrota de Pinochet em um plebiscito de 1988 e o estabelecimento da democracia que o verdadeiro boom econômico ocorreu, argumenta Muñoz no livro, com o nível de pobreza no Chile caindo de 40% em 1990 para 13,7% em 2007.

Mas Patricio Navia, que leciona estudos latino-americanos na Universidade de Nova York, diz que o livro minimiza o quanto o Chile moderno é um fruto daquilo que Pinochet forjou. "O Chile atual é muito mais o que Pinochet tinha em mente do que o que Allende tinha em mente", ele disse, se referindo a Salvador Allende, o presidente socialista do Chile que foi derrubado no golpe de 1973.

Paul E. Sigmund, um professor emérito de Princeton e um especialista em política chilena, disse que o maior valor do livro está em suas descrições detalhadas das lutas políticas da era Pinochet. "Ele é uma combinação notável de ativista político e observador político", disse Sigmund a respeito do embaixador.

No Chile, Muñoz tem a reputação de ser algo como um forasteiro reservado, em parte por ter passado grande parte do tempo distante nos vários postos diplomáticos, em parte por causa de suas origens humildes. Ele cresceu em um bairro operário de Santiago, onde seu pai era um pequeno comerciante que não concluiu o colégio.

Muñoz, o primeiro em sua família a cursar uma faculdade, obteve uma bolsa da Universidade Estadual de Nova York, em Oswego, em 1967. Ele nunca tinha ouvido falar dela, mas ao olhar para a minúscula versão do Estado de Nova York descrita em um mapa-múndi, ele imaginou que Oswego fosse um subúrbio de Manhattan, talvez a uma hora de distância da cidade cosmopolita de seus sonhos. (Ela fica a 360 quilômetros de distância.)

Ele passou seus anos ao longo do Lago Ontario protestando contra a Guerra do Vietnã e organizando trabalhadores rurais imigrantes. Ele voltou correndo ao Chile após obter seu diploma e se envolveu na efervescência política provocada em 1970, quando Allende foi eleito presidente.

Ele levou consigo sua namorada americana, Pamela Quick, que nunca tinha estado mais longe de sua terra natal do que Montreal. Horas depois do casamento deles em 1972, ele a arrastou para um comício de Allende em um país cada vez mais polarizado. "Minha mãe ainda não me perdoa por isso: 'Como você pode ser tão não-romântico e tão politicamente obcecado?'" disse Muñoz, rindo. "Nós estávamos fazendo a revolução, nós queríamos mudança e não havia tempo a perder."

Apenas 36 pessoas morreram durante o golpe de Pinochet, em setembro de 1973, nota o livro, mas no ano seguinte, esquadrões da morte mataram cerca de 1.900 pessoas enquanto o ditador buscava eliminar todos os inimigos, reais e imaginários. Muñoz se recorda do tempo em que ele e Pamela espiavam com ansiedade pelas cortinas enquanto seus companheiros esquerdistas eram levados pelos capangas de Pinochet. Mas os soldados à procura de Muñoz invadiram a casa errada.

Ele fugiu para a Universidade de Denver para obter um Ph.D. em economia política internacional. Os dois melhores estudantes de cada ano recebiam um estágio no Congresso, e ele compartilhou a honra com Condoleezza Rice. Ele descreveu suas conversas atuais com Rice, a secretária de Estado americana, como estritamente profissionais, mas ele escreve sobre ela como "Condi".

Seus amigos em Nova York descrevem Muñoz - uma figura magra e aristocrática com cabelo grisalho e bigode - como um anfitrião charmoso, sereno, um promotor incansável dos vinhos chilenos e um torcedor fanático de futebol que ainda joga no time diplomático chileno. Diplomatas da ONU de outras missões latino-americanas dizem que ele é um meio-campista hábil e esperto, mas riem de forma abafada pela forma como manda em seu time como se fosse seu técnico. O protocolo não deve ceder, nem no campo.

"É aceitável porque ele é o embaixador jogando entre outros colegas", disse um diplomata latino-americano, seguindo seu próprio protocolo ao exigir anonimato. "Ele nunca é contestado."

Sua única cicatriz física dos anos Pinochet é o dedo médio torto na mão direita, uma lembrança da surra que recebeu quando voltou para casa, após concluir seu pós-graduação. As cicatrizes emocionais estão enterradas mais fundo, disse Muñoz.

"Ele não as exibe para obter solidariedade ou sendo amargo a respeito", disse sir Emyr Jones Parry, um ex-embaixador britânico na ONU. "Eu acho que há uma determinação de aço de que o que veio depois, o processo democrático, precisa ser defendido a todo custo."

Seu apoio ao direito de proteger, ao princípio de que uma nação tem direito de intervir em outra nação para proteger a população civil de genocídio, nem sempre lhe rende apreço entre os embaixadores dos países não alinhados. Mas Muñoz pode ser igualmente crítico dos Estados Unidos. Sem causar surpresa, Muñoz tem algumas palavras duras em seu livro para Henry A. Kissinger, o ex-secretário de Estado, do qual se queixa de ter encorajado a derrubada de Allende e feito vista grossa para o banho de sangue que se seguiu.

O livro de memórias sobre Pinochet não é o único que está sendo lançado por Muñoz. Ele também escreveu uma crítica à política americana no Iraque, chamada "A Solitary War" (uma guerra solitária), originalmente publicado em espanhol e extraído de seus dois anos no Conselho de Segurança. O livro principalmente lamenta o fato dos americanos não reconhecerem o valor da ONU em garantir aos Estados Unidos um papel central no mundo. Em um raro momento de franqueza não diplomática, ele até mesmo ri do sotaque espanhol do presidente Bush.

Até hoje, disse Muñoz, os chilenos de sua geração não confiam totalmente nos Estados Unidos como uma força em prol da mudança democrática no mundo. A luta para colocar um fim ao governo de Pinochet deixou uma marca permanente neles. "Simboliza um senso de propósito, lutar pelos direitos humanos e se tornar politicamente ativo, nunca esquecendo que a democracia é frágil a menos que possamos fortalecê-la", ele disse. "Esta é uma tarefa diária." George El Khouri Andolfato

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