UOL Notícias Internacional
 

18/11/2008

Conflito no Congo afeta os protetores dos gorilas

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Bulengo, Congo
Jean-Marie Serundori acorda toda manhã com gorilas em sua mente.

"Eu lavo meu rosto, olho para as montanhas e penso neles", ele disse. "Eles são como nossos primos".

Mas Serundori, um guarda florestal congolês encarregado da proteção de alguns dos animais mais majestosos - e ameaçados - no planeta, está distante dos gorilas da montanha que ama.

Em vez disso, ele está preso em um campo úmido e sujo para pessoas deslocadas internamente, onde os únicos animais são as baratas que correm pelo chão enlameado. Ele é apenas uma das centenas de milhares de pessoas deixadas ociosas e destituídas pela mais recente onda de violência no leste do Congo, e as conseqüências neste caso podem ser terríveis e irreversíveis.

O leste do Congo é lar de quase um terço dos últimos 700 gorilas da montanha selvagens do mundo (o restante se encontra nas áreas próximas de Ruanda e Uganda). Atualmente, não há guardas treinados para protegê-los. Mais de 240 guardas de caça congoleses foram expulsos de seus postos, incluindo alguns que escaparam por pouco do avanço rebelde no mês passado e atravessaram a floresta por três dias, vivendo de folhas e conchas de lama para hidratação. "Nós pensamos, se os gorilas podem comer folhas, nós também podemos", disse Sekibibi Desire, que está em uma tenda próxima de outros guardas florestais.

Esta é apenas a mais recente crise dentro de uma crise. Os gorilas do Congo por acaso vivem em um dos territórios mais disputados e banhados de sangue de um dos cantos mais disputados e banhados de sangue da África. O lar deles, o Parque Nacional de Virunga, é um terreno elevado - com montanhas cobertas por névoa e vulcões- ao longo da porosa fronteira entre o Congo e Ruanda, por onde suspeita-se que os rebeldes contrabandeiem armas de Ruanda. No ano passado em Virunga, 10 gorilas foram mortos, alguns com tiros na parte posterior da cabeça, ao estilo execução, disseram guardas do parque.

O parque costumava ser um paraíso dos naturalistas, lar de mais de 2 mil espécies de plantas, 706 tipos de aves e 218 tipos de mamíferos, incluindo três grandes símios: o gorila da montanha, o gorila da planície e o chimpanzé.

Agora Virunga é uma zona de guerra.

Soldados rebeldes comandam as colinas. Soldados do governo disparam morteiros contra eles, explodindo precioso hábitat de gorila que já está desaparecendo por causa do desmatamento e do comércio próspero, mas ilegal, de carvão vegetal.

"Grupos armados se escondem no paque, eles treinam no parque e, mais importante, eles se alimentam no parque", disse Samantha Newport, uma porta-voz do Parque Nacional de Virunga.

Newport disse que há dois anos, em um dos lagos do parque, uma milícia local saiu à caça de hipopótamos, metralhando centenas deles pela carne.

"O lago ficou vermelho", ela disse.

O leste do Congo está atolado em derramamento de sangue há mais de uma década. O problema teve início em 1994, com o genocídio em Ruanda, que matou 800 mil pessoas e enviou ondas de refugiados para o Congo, juntamente com milícias sanguinárias. De lá para cá, vários grupos armados e países vizinhos têm lutado pelo controle desta terra impressionantemente bela, repleta de ouro, diamantes e outros recursos preciosos. No mês passado, uma força rebelde, altamente suspeita de ser apoiada por Ruanda, expulsou as tropas do governo próximas da cidade estratégica de Goma e estava prestes a capturá-la, quando os rebeldes declararam um cessar-fogo.

Este cessar-fogo permanece instável. No domingo, no mesmo dia em que o líder dos rebeldes, Laurent Nkunda, prometia manter a trégua, combates pesados estouraram ao norte de Goma. Tropas congolesas dispararam foguetes. Os rebeldes responderam com morteiros. Novamente, os guardas florestais foram pegos no meio. Alguns de seus familiares foram baleados.

No mês passado, a filha de 14 anos de um guarda foi baleada no estômago durante um combate próximo do posto do guarda, nas profundezas da floresta.

"Eu a coloquei nos meus braços e apenas corri", disse o pai dela, Mberabagabo Rukundaguhaya. "Eu achei que ela estava morta."

Ela sobreviveu, apesar de não se saber quando a família poderá voltar para casa.

As autoridades do Parque Nacional de Virunga estão pedindo aos rebeldes e tropas do governo que permitam o retorno deles ao trabalho. Os rebeldes insistem que os gorilas estão seguros.

"Nós os estamos protegendo", disse Babu Amani, um porta-voz dos rebeldes.

Serundori, o guarda veterano, disse que em seus 20 anos como guarda florestal, ele já viu os gorilas mais de 100 vezes.

"Mas o que sempre me impressiona é quão frágeis eles são", ele disse. "Eles podem ser exterminados em um minuto." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host