UOL Notícias Internacional
 

19/11/2008

Friedman: Madame secretária?

The New York Times
Thomas L. Friedman
Quer dizer que o presidente eleito Barack Obama está considerando Hillary Clinton como secretária de Estado? Como devemos nos sentir a respeito disso?

Clinton é uma pessoa séria. Ela é inteligente, durona, sagaz, trabalhadora e conhecedora do mundo - todas qualidades-chave para uma secretária de Estado. Ela também daria uma certa qualidade de estrela ao topo do Departamento de Estado, que pode ser útil. Eu não sei se ela é a melhor pessoa nos Estados Unidos para esse cargo no momento, ou se ela ficará com ele, mas se uma pessoa analisar apenas as qualificações, Clinton certamente passaria na avaliação.

Mas o que me preocupa é que grande parte da atenção da mídia está concentrada na questão errada de relacionamento. Todos estão perguntando como ela administraria o relacionamento com o ex-presidente Bill Clinton e sua própria agenda global de palestras, arrecadação de fundos e atividades filantrópicas. Meu palpite é que eles resolveriam isso. Bill Clinton deixaria de fazer discursos pagos para estrangeiros.

A questão importante, cuja resposta ainda não está clara para mim, é a respeito do único relacionamento que importa para um secretário de Estado - o tipo de relacionamento que ele ou ela teria com o novo presidente. Minha pergunta: Obama está considerando Clinton para este cargo visando tirá-la de suas costas ou visando estar por trás dela?

Eu cobri um secretário de Estado, um dos melhores, James A. Baker III, por quatro anos, e uma das coisas que aprendi durante aqueles anos foi que o que tornava Baker um diplomata eficaz era não apenas seu talento como negociador - um pré-requisito para o cargo - mas o fato de que seu chefe, o presidente George H.W. Bush, sempre estava por trás de Baker. Quando os líderes estrangeiros falavam com Baker, eles sabiam que estavam falando com o presidente Bush, e sabiam que o presidente Bush defenderia Baker dos rivais domésticos e das maquinações dos governos estrangeiros.

Esse apoio é a exigência mais importante para um secretário de Estado ser eficaz. Francamente, Obama poderia nomear sua querida sogra como secretária de Estado, e se fizesse o mundo saber que ela era sua enviada, ela seria mais eficaz do que qualquer ex-embaixador que nunca teve um relacionamento com o presidente.

Nosso atual presidente nunca se importou com isto, de forma que nenhum de seus secretários de Estado foram particularmente eficazes. Em vez de apoiar Colin Powell, o presidente Bush, o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, tinham prazer em apunhalá-lo pelas costas, particularmente quando estava viajando. Mas ser próximo ao presidente não basta. Condoleezza Rice tem um relacionamento estreito com Bush, mas Bush não tinha uma visão de mundo coerente o suficiente para animar a diplomacia dela, de forma que a soma de todas as suas viagens produziu menos do que o total de sua milhagem. Os dois mais importantes secretários de Estado dos últimos 50 anos foram Baker e Henry Kissinger. Ambos receberam poderes de seu presidente, e ambos podiam falar francamente com seus presidentes.

Os líderes estrangeiros podem perceber de longe o relacionamento entre o presidente e um secretário de Estado. Eles sabem quando estão conversando apenas com o secretário de Estado e quando estão falando com o presidente por intermédio do secretário de Estado. E quando acham que estão falando com o presidente, eles se sentam de forma aprumada; e quando pensam que estão falando apenas com o secretário de Estado, eles ficam desengonçados em suas cadeiras. Quando acham que estão falando com o "enviado especial" do presidente, eles cochilam no meio da conversa.

"Bastam cinco minutos para os amigos e adversários da América perceberem quem realmente fala em nome da Casa Branca e quem não", escreveu Aaron D. Miller, um ex-conselheiro sobre Oriente Médio do Departamento de Estado e autor de "The Much Too Promised Land". "Se um secretário de Estado cai na segunda categoria, ele ou ela terá pouca chance de realizar uma diplomacia eficaz em torno de uma questão importante. Mais provavelmente, eles serão tocados como um violino bem afinado ou simplesmente tidos como algo predeterminado."

Quando o secretário de Estado americano entra em uma sala, acrescentou Miller em um recente ensaio no "The Los Angeles Times", "seus interlocutores precisam ficar na beirada de seus assentos, não sentados confortavelmente em suas cadeiras pensando em como melhor manipular o secretário. O melhor seria que ficassem preocupados a respeito de serem manipulados".

Minha pergunta é se um presidente Obama e uma secretária de Estado, Hillary Clinton, dado tudo o que aconteceu entre eles e suas equipes, podem manter este tipo de relacionamento, particularmente com Clinton sempre pensando quatro a oito anos à frente, e com a possibilidade de que possa concorrer de novo à presidência. Eu simplesmente não sei.

Cada palavra dita por eles em público, e cada vazamento, seria analisada em busca do que significa politicamente e se há entendimento. Isso não é motivo para não nomear Clinton. Mas é motivo para todos ao redor do presidente eleito respirarem fundo e se perguntarem se estão preparados para manter este tipo de relacionamento estreito com Clinton, necessário para uma diplomacia eficaz.

Quando se trata de nomear um secretário de Estado, não se deseja uma equipe de rivais... George El Khouri Andolfato

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