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20/11/2008

Ameaças podem significar que Coréia do Norte quer conversar

The New York Times
Choe Sang-Hun
Em Seul (Coréia do Sul)
Nos últimos dez anos a Coréia do Sul seguiu a "sunshine policy" ("política luz do sol") como o seu principal plano para transformar a Coréia do Norte. Seguindo essa linha, a Coréia do Sul canalizou bilhões de dólares para o norte, destinados a novas fábricas, hotéis e alimentos, e milhões de turistas sul-coreanos passaram pela fronteira.

Mas, oito meses após o presidente Lee Myung-bak ter tomado posse, prometendo uma abordagem mais dura, aquela política, antes tão elogiada, esfacelou-se.

A Coréia do Norte encerrou o diálogo de alto nível com o sul. O país cortou as linhas telefônicas de negociação, administradas pela Cruz Vermelha, que passavam pela zona desmilitarizada. Em julho, um soldado norte-coreano matou a tiros um turista sul-coreano que visitava o resort na Montanha Diamante.

E agora o norte está ameaçando fechar um complexo industrial na cidade norte-coreana de Kaesong, o melhor que a Coréia do Sul foi capaz de exibir durante os seus dez anos de sunshine policy. Durante uma visita de inspeção neste mês, um general norte-coreano virou-se para os seus guias sul-coreanos e perguntou: "Quando é que vocês acham que poderão fazer as malas e ir para casa?".

Na semana passada a Coréia do Norte deixou o resto do mundo ainda mais confuso. O país anunciou que nunca concordou em permitir que especialistas norte-americanos coletassem amostras do seu principal complexo nuclear em Yongbyon, ao contrário do que Washington havia anunciado anteriormente.

Considerando tudo isso, as ações da Coréia do Norte parecem apontar não só para o fim da sunshine policy, mas também para uma perigosa desintegração das relações. Mas observadores antigos da Coréia do Norte vêem tudo isso de forma bem diferente, e afirmam que as medidas encaixam-se em um padrão familiar e consistente, e que elas podem até indicar uma melhoria das relações com os Estados Unidos.

Segundo eles, no decorrer dos anos a Coréia do Norte dividiu as suas negociações com o mundo externo em frações que os analistas chamam de "pedaços de salame", maximizando os ganhos em cada estágio. Se o oponente empaca, a Coréia do Norte recorre a ações temerárias.
"Os norte-coreanos obtiveram o que puderam de Bush. Agora eles estão avisando ao presidente eleito Barack Obama, 'Ok, vamos negociar novamente a respeito das amostras nucleares'", diz Lee Sang-hyun, analista do Instituto Sejong, uma organização de pesquisas. "Para Lee Myung-bak a mensagem é que a Coréia do Norte agirá concretamente caso ele não reconsidere a sua política".

Para aglutinar as duas mensagens, a Coréia do Norte está utilizando a sua velha tática de "tongmi bongnam" - abrindo a porta para os norte-americanos, e fechando-a para os sul-coreanos. A idéia é conversar com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, aumentar as tensões com a Coréia do Sul, com o objetivo de criar uma divisão entre os aliados.

A Coréia do Norte, um país mestre na arte de sobreviver rodeado por grandes potências, usou esta tática com freqüência no passado, e pode ficar particularmente tentada a usá-la agora que líderes com filosofias tão diferentes assumiram o poder em Seul e em Washington. Ao contrário de Lee ou do presidente Bush (na maior parte do seu mandato), Obama enfatizou uma política de diplomacia aberta e agressiva com os chamados "países renegados".

Oito anos atrás, a Coréia do Norte tirou vantagem de uma divisão similar, só que na época os papéis de Seul e de Washington eram inversos aos de hoje. Em 2000, o líder norte-coreano, Kim Jong-il, saudou o presidente sul-coreano, Kim Dae-jung, que viajou a Pyongyang, a capital da Coréia do Norte, com a sua sunshine policy. O governo Bush de primeiro mandato mal escondeu a sua irritação. Ele colocou a Coréia do Norte no grupo dos países que integrariam um "eixo do mal", e negou-se a dialogar diretamente até que os norte-coreanos concordassem primeiro em abandonar o seu programa de armas nucleares.

A fricção entre Washington e Seul continuou perturbando as relações durante o primeiro mandato de Bush, já que os sul-coreanos viam Washington como um obstáculo a uma aproximação mais rápida com o norte. Embora prejudicada pelas sanções internacionais lideradas pelos Estados Unidos, a Coréia do Norte conseguiu obter generosos auxílios da Coréia do Sul.

Em 2006, a Coréia do Norte modificou a sua dinâmica de negociações nucleares ao realizar o seu primeiro teste nuclear. Mas, quando o governo estadunidense mostrou-se mais ansioso por fechar um acordo de desarmamento nuclear com o norte, os sul-coreanos encerraram uma década de governo liberal ao elegeram Lee.

Lee é um conservador que deseja deixar a sua marca como um disciplinador da Coréia do Norte. Ele questionou os grandes investimentos prometidos ao norte pelos seus dois antecessores liberais, Kim Dae-jung e Roh Moo-hyun. Além disso, ele prometeu que não apoiaria qualquer grande ajuda econômica ao norte até que houvesse uma ação concreta de Pyongyang no sentido de desmantelar as suas instalações nucleares. Embora Washington tenha concordado em enviar 500 mil toneladas de alimentos à Coréia do Norte, Lee disse que a Coréia do Sul não fornecerá auxílio alimentar, a menos que a Coréia do Norte peça publicamente.

A Coréia do Norte jamais pediu, e jamais perdoou a declaração de Lee. O governo norte-coreano chamou Lee de "lixo humano desprezível", um rótulo que fora anteriormente reservado para John R. Bolton, o estrategista de linha dura durante o primeiro mandato de Bush.

"Obviamente, os norte-coreanos decidiram que podem sacrificar a sunshine policy e mostrar a todos em Seul que não estão nem um pouco preocupados", afirma Andrei Lankov, especialista na Coréia do Norte da Universidade Kookmin, em Seul. "Enquanto isso, veremos uma melhoria das relações entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos".

A tática da Coréia do Norte coloca Lee, que se auto-define como pragmático, em uma situação difícil. O abandono da sua postura inicial seria visto pelos que o apoiaram como uma rendição, enquanto o prosseguimento na rota atual certamente garantiria o fechamento de Kaesong pela Coréia do Norte. Isso alimentaria os temores sul-coreanos em relação a uma península instável e forneceria aos críticos liberais de Lee bastante munição.

Segundo os especialistas em questões coreanas, talvez a maior preocupação atual quanto às medidas recentes da Coréia do Norte seja aquilo que elas podem sinalizar a respeito da dinâmica interna do regime. "A questão principal é saber se todos esses fatos indicam um papel crescente das forças armadas", diz Daniel C. Sneider, diretor do Centro Shorenstein de Pesquisas da Ásia-Pacífico da Universidade Stanford. "E, quanto a isto, a visita de militares a Kaesong é preocupante".

Segundo certos relatos, os militares norte-coreanos detestam Kaesong e a sua influência capitalista, bem como qualquer acordo que possa privá-los das armas nucleares.

Kim Jong-il é conhecido por deixar as forças armadas manifestarem-se quando deseja elevar as tensões antes de negociações com os norte-americanos. Os analistas dizem que isto pode também indicar que a prioridade da Coréia do Norte é dar maior prioridade à segurança interna do que aos benefícios econômicos (33 mil trabalhadores norte-coreanos em Kaesong ganham US$ 60 por mês), em meio a relatos de que Kim sofreu um derrame em agosto.

"Atualmente, o que prevalece em Pyongyang é um clima conservador", diz Leonid A. Petrov, especialista na Coréia do Norte da Universidade Nacional Australiana, e visitante freqüente da capital norte-coreana.
Com toda essa especulação a respeito dos motivos da Coréia do Norte, Lankov, da Universidade Kookmin, diz que uma coisa parece clara.
"A decisão de fechar Kaesong é uma medida muito importante que ninguém na Coréia do Norte poderia tomar sem a aprovação explícita de Kim Jong-il", afirma Lankov. "Isto é uma confirmação indireta de que ele está no comando". UOL

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