UOL Notícias Internacional
 

22/11/2008

Em reunião no exílio, tibetanos discutem independência

The New York Times
Edward Wong
Em Dharamsala (Índia)
Nesta cidade nos Himalaias, onde a bandeiras tibetanas tremulam e monges de túnicas vermelhas estudam o apelo do Buda pela renúncia, fala-se em dar início ao próximo movimento separatista do mundo.

Cartazes pela cidade trazem a palavra "rangzen" - que em tibetano quer dizer "independência". Há anos esta palavra não era ouvida com tanta freqüência nas ruas daqui. Ela é pronunciada por membros da diáspora tibetana, cuja frustração é tão profunda quanto os vales montanhosos de sua terra natal. Segundo eles, décadas de diálogo com o governo chinês fracassaram.

"O apoio à independência sem dúvida aumentará", diz Dhondup Dorjee, 30, enquanto abandona um pouco a acalorada discussão com colegas exilados a fim de almoçar no refeitório do hospital de medicina tibetana. "Que pressões podemos fazer sobre os chineses? As pressões virão em todas as formas".

O movimento tibetano no exílio, há muito associado ao Dalai Lama e ao seu "caminho intermediário", chegou a uma encruzilhada. O Dalai Lama, o líder espiritual dos tibetanos, convocou centenas de representantes dos 150 mil exilados tibetanos espalhados pelo mundo para uma reunião de crise aqui nesta semana. Ele quer que pessoas como Dorjee expressem as suas opiniões, a fim de determinar se a estratégia de reconciliação política com a China, seguida a décadas, fracassou ou não.

Dorjee é vice-presidente do Congresso da Juventude Tibetana, uma organização no exílio que deseja a independência em relação à China. O Dalai Lama e o governo tibetano no exílio, com sede aqui em Dharamsala, há muito defendem a autonomia sob um governo chinês, e não a independência total.

"É completamente inútil", afirma Dorjee, referindo-se às negociações com os chineses. "Não há objetivo nenhum nisso. Fomos enganados".

Atualmente as autoridades chinesas dizem com rispidez que não aceitarão a exigência do Dalai Lama de uma maior autonomia tibetana, e sugeriram que preferem esperar que o líder espiritual de 73 anos morra do que fazer um acordo e permitir que ele retorne ao Tibete.

Uma das causas mais célebres do mundo, abraçada por atores e astros do rock, o movimento está perdendo também apoio internacional devido à influência crescente da China.

Alguns tibetanos aqui presentes dizem que chegou a hora de adotar medidas desesperadas. Ao final da reunião desta semana, a maioria dos 581 delegados poderia até ter recomendado ao Dalai Lama e ao governo no exílio que dessem início a um movimento formal pela independência - algo que alarmaria os líderes chineses, e também confirmaria as suas suspeitas de longa data de que a única coisa que os líderes exilados tibetanos aceitarão é a independência em relação à China.

"Nós nos sujeitamos completamente ao povo e deixamos que ele expressasse os seus pontos de vista", disse em uma entrevista Samdhong Rinpoche, primeiro-ministro do governo tibetano no exílio. "Obviamente, nós descartamos a abordagem violenta. Mas, tirando isso, tudo é possível".

A outra grande questão que paira sobre a conferência é a do sucessor do Dalai Lama. Recentemente, o Dalai Lama, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, enfrentou fases de doença.

Alguns tibetanos sugerem agora que ele poderia romper com a tradição e nomear o seu próprio sucessor, em vez de aguardar até que a sua reencarnação seja descoberta após a sua morte. Muitos tibetanos temem que a China apodere-se do processo de localização do sucessor, como fez com o Panchen Lama, em 1995, a menos que o Dalai Lama use a sua influência para designar um novo líder espiritual antes da sua morte.

A própria conferência está sendo interpretada por muitos como sendo a tentativa do Dalai Lama de fazer com que o movimento deixe de depender da sua liderança - algo que teria sido impossível há apenas alguns anos.

"Vejo esta reunião como uma transição simbólica de um movimento tibetano liderado por Sua Santidade para um movimento tibetano liderado pelo povo tibetano", afirma Lobsang Sangay, pesquisador da Escola de Direito da Universidade Harvard.

A questão do Tibete atingiu um ponto crítico para os exilados após um levante maciço de tibetanos no oeste da China na primavera passada. Os protestos e manifestações durante os quais um chinês da etnia han foi morto provocaram uma dura repressão por parte do governo chinês. Enviados do Dalai Lama e autoridades chinesas realizaram mais duas rodadas de conversações, em uma série de negociações que tiveram início em 2002, mas na semana passada os chineses anunciaram que jamais farão concessões quanto à autonomia genuína aos seis milhões de indivíduos das regiões tibetanas da China.

Robbie Barnett, especialista em Tibete da Universidade Columbia, diz que o objetivo da convocação da conferência de setembro pelo Dalai Lama foi provavelmente permitir que os tibetanos desabafassem as suas frustrações, enquanto ele procurasse buscar apoio unificado para a sua estratégia do "caminho intermediário". Mas as recentes declarações de linha dura por parte dos chineses poderão empurrar os tibetanos moderados para uma direção mais radical.

O Dalai Lama não participou da conferência. Ele disse que deseja permanecer neutro nas discussões, embora a sua irmã esteja participando, bem como os seus enviados. Ele deverá ouvir as recomendações dos delegados no fim de semana, antes que o Parlamento as discuta.

Em algumas discussões durante a reunião de seis dias, monges que fugiram décadas atrás dos desertos e pradarias de grande altitude do Tibete debateram os detalhes da doutrina da reencarnação com exilados mais jovens que jamais estiveram na região chamada de "o telhado do mundo".

No entanto, a questão mais urgente tem sido determinar se o movimento como um todo deveria pedir a independência tibetana e abandonar a abordagem do Dalai Lama.

"A questão básica é que todos os tibetanos desejariam a independência", afirma Dorjee, o vice-presidente do Congresso da Juventude Tibetana. "Mas o Dalai Lama e o governo no exílio não estão buscando este caminho".

Alguns jovens tibetanos falam em usar a violência, embora isto seja raro. "Atualmente há muitos pontos de vista", diz Dorjee.

Jamyang Norbu, um proeminente escritor tibetano que durante a maior parte do ano mora no Tennessee, fez um discurso aqui sobre o conceito de rangzen antes do início da conferência. Um panfleto visto nas ruas de Dharamsala traz a seguinte inscrição: "Vamos conversar - Por que? Como? Quando? Rangzen".

"O caminho intermediário do Dalai Lama depende da democratização da China", disse Norbu, enquanto descansava na noite da última quinta-feira na sua cabana. "Até o momento esta premissa não se materializou, e a situação até piorou".

Segundo ele, um movimento de independência uniria a comunidade no exílio, manteria o Tibete nas manchetes da mídia e intensificaria a pressão sobre o governo chinês. Os apoiadores organizariam boicotes econômicos à China. Jovens tibetanos no Ocidente iriam de porta em porta explicando a causa.

"É uma espécie de guerrilha pacífica", diz ele.

Sangay, de Harvard, diz que fez uma pesquisa com o seu comitê de 34 pessoas após ter sido eleito diretor. O resultado da pesquisa mostrou que 40% dos membros são favoráveis à independência, 40% preferem a autonomia e o restante fica em uma posição intermediária. "Estes são eleitores indecisos, como os de Ohio, da Pensilvânia e da Flórida", diz ele, referindo-se ao último grupo.

Quanto a Sangay, que organizou seis conferências com analistas tibetanos e chineses, diz que ainda apóia o diálogo.

"No que se refere à China, não há motivos para otimismo, mas eu sempre tenho esperança de que a boa consciência das pessoas aflore", diz ele. "Se você opta pela não violência, a única rota restante é a do diálogo".

Na quarta-feira, o irmão mais velho do Dalai Lama, Gyalo Thondup, fez uma observação similar em uma rara entrevista coletiva à imprensa. Ele reuniu-se com repórteres para relatar como Deng Xiaoping, o ex-líder da China, lhe disse em Pequim, em 1979, que "com exceção da independência, todas as questões podem ser discutidas". Segundo ele, as autoridades chinesas de hoje traíram aquela promessa, ao negarem que Deng tenha algum dia dito tal coisa e ao recusarem-se a negociar a autonomia do Tibete.

Mesmo assim, Thondup, 80, afirmou: "É essencial que o povo tibetano não perca as esperanças em exigir os nossos direitos ao governo chinês".

Agora os tibetanos precisarão decidir quem liderá a sua luta, seja seguindo a via do Dalai Lama, ou adotando uma abordagem mais radical no futuro. Vários comitês estão discutindo a possibilidade de que o atual Dalai Lama nomeie um sucessor. "Eu pessoalmente não sei se isto é aceitável segundo as tradições religiosas", diz Samdhong Rinpoche, que, além de ter ser primeiro-ministro, é também monge.

Outras pessoas falaram na possibilidade de o jovem Karmapa Lama, o terceiro líder na hierarquia espiritual, desempenhar um maior papel político. Existe também a opinião generalizada de que o próximo Dalai Lama deveria dedicar-se somente às questões espirituais e deixar os assuntos políticos para os líderes eleitos.

"Não é possível dispensar uma personalidade como a do Dalai Lama", diz Sangay. "Mas também não dá para evitar um movimento linear rumo a um sistema moderno e democrático". UOL

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