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23/11/2008

De maior rival a maior auxiliar: a trégua Clinton-Obama

The New York Times
Elisabeth Bumiller
Em Washington (EUA)
O abrandamento do conturbado relacionamento entre a mulher mais poderosa do partido Democrata e seu jovem rival começou durante a convenção do partido neste verão, quando a senadora Hillary Rodham Clinton fez um discurso tão apaixonado em defesa do senador Barack Obama que os principais auxiliares dele pularam das cadeiras nos bastidores para aplaudi-la de pé quando ela passou por eles.

Obama, que estava dando os primeiros passos para o que se tornaria um namoro estratégico, telefonou mais tarde para agradecê-la. Pelo menos, ela sabia que ele entendia como ninguém os conflitos brutais da batalha épica que travaram entre si nas primárias.

Mas na última quinta-feira, quando Obama assegurou a Clinton que ela teria acesso direto a ele e que poderia selecionar sua própria equipe enquanto secretária de Estado, o cortejo estava completo.

"Ela sente que foi muito bem tratada na forma como foi convidada", disse uma pessoa próxima a Clinton, que assim como outros entrevistados pediu para ficar anônima uma vez que a nomeação não será anunciada formalmente até o feriado de Ação de Graças.

Poucos acreditam que esse novo relacionamento nascido do respeito mútuo e do interesse próprio crescerá e se tornará uma ligação mais estreita entre o novo presidente e a mulher que será a face pública de sua política internacional em todo o mundo, apesar de alguns dizerem que isso não é impossível. Eles argumentam que uma amizade próxima entre esses dois papéis é útil, mas não essencial, e não é um fator que garante o sucesso do diplomata chefe da nação.

Enquanto James A. Baker III era extraordinariamente próximo do primeiro presidente Bush e é amplamente considerado um dos secretários de Estado recentes mais bem sucedidos, Dean Acheson não era amigo do presidente Harry S. Truman, e Henry A. Kissinger não gostava exatamente de Richard M. Nixon.

"Dois dos maiores secretários de Estado do país nos últimos tempos, Dean Acheson e Henry Kissinger, não eram pessoalmente próximos, mas estavam ligados intelectualmente a seus presidentes", disse Walter Isaacson, autor de uma biografia de Kissinger e do livro "The Wise Men" ["Os Homens Sábios"], uma história do establishment da política internacional dos EUA no pós-guerra. "Acho que Obama e Clinton poderiam ter uma parceria perfeita baseada no respeito às visões de mundo um do outro".

Colin L. Powell, o secretário de Estado que se tornou celebridade no primeiro mandato de Bush, poderia ser um alerta para Clinton, já que sua relação com o presidente era conflituosa e ele deixou o poder infeliz. Mas Condoleezza Rice, secretária de Estado do segundo mandato de Bush, em geral não é vista com o sucesso que sua ligação excepcionalmente estreita com o presidente poderia ter engendrado.

No relacionamento Obama-Clinton, dizem os conselheiros, a natureza relativamente branda dos discursos sobre o papel do secretário de Estado indica que ambos, por enquanto, têm uma química para trabalhar.

Os conselheiros dizem que Obama estava claramente interessado em trazer a rival sob suas asas, e que ele reconheceu que Clinton tinha muito mais disciplina e foco que seu marido.

Ao mesmo tempo, dizem os conselheiros de Obama, ele teve a autoconfiança de nomear uma pessoa que é uma marca mundial como sua emissária para o mundo. Ele reconhece, dizem, que depois de 20 de janeiro, terá que construir um tipo de relacionamento que garanta que os líderes estrangeiros saibam que, quando Clinton falar, ela estará falando diretamente por ele.

"Ajuda ter o relacionamento que Bush tinha com Baker, não há dúvida", diz Martin Indyk, ex-embaixador americano em Israel, que apoiou Clinton na batalha das primárias. "Mas se eles são vistos trabalhando juntos de forma eficiente, acho que isso pode ser facilmente superado. Não acho que ele teria decidido nomeá-la se não quisesse que ela fosse efetiva".

Um conselheiro próximo de Obama disse que o presidente eleito viu que as habilidades políticas de Clinton serviriam bem para o trabalho, assim como aconteceu com Baker e Kissinger. Eles entenderam que a arte de liderar um país é outro nome para a política, disse o conselheiro.

Obama e Clinton se falaram pela primeira vez depois da luta da primária durante um vôo em junho para Unity, New Hampshire, sua primeira aparição em público juntos depois que Obama venceu a nomeação. Sentados nas poltronas do avião de Obama, a conversa, de acordo com pessoas de ambos os lados, foi bem menos constrangedora do que temiam. Nas semanas que se seguiram, o relacionamento melhorou gradualmente.

"Eles superaram isso bem antes que as pessoas que os apóiam e os ativistas do partido", disse um democrata que é próximo dos dois senadores.

Depois do discurso de Clinton em apoio a Obama na convenção Democrata, ela cruzou o país incansavelmente para fazer campanha por ele - tanto que Obama disse a seus auxiliares que estava impressionado com o considerável número de eventos que Clinton estava fazendo em prol dele.

A própria senadora, deve ser dito, foi diligente em divulgar como estava trabalhando duro pelo homem que a havia derrotado. Quando anunciava suas aparições, sua assessoria de imprensa incluia o placar de quantos eventos ela tinha feito por Obama, e em quantos Estados. Em alguns comícios, os organizadores distribuíram broches "Hillary me enviou", como se ela tivesse magnanimamente "enviado" seus seguidores para votar em Obama.

Mas Obama começou a telefonar para Clinton depois de alguns eventos - ele discou direto de seu telefone celular para o dela um dia em Michigan e outro na Flórida - para saber como ela estava e agradecer pela ajuda. Então, as intensas brigas das primárias sobre política, que agora ambos os lados insistem que estavam mais ligadas ao calor da discussão do que às propostas, acabaram faz tempo.

"A realidade no fim das contas era que, quer fosse o Irã ou a saúde pública ou qualquer outro assunto, estávamos sempre lutando grandes batalhas por causa de pequenas diferenças", disse um assessor sênior de Obama, acrescentando que "numa campanha, você vai para o conflito".

Na verdade, os dois estavam em desacordo em relação à guerra do Iraque - Clinton votou para autorizá-la e Obama disse que teria votado contra se estivesse no Senado na época - e um pouco menos em relação às negociações com o Irã. Mas apesar de Clinton criticar Obama por estar disposto a se sentar e conversar com ditadores, Obama disse que antes ele mandaria um enviado do baixo escalão para fazer o trabalho preparatório para um encontro com os líderes iranianos. Clinton disse que era a favor de uma diplomacia robusta com o Irã e também a favor dos contatos entre o baixo escalão.

Nas semanas imediatamente anteriores à eleição, a relação entre Obama e Clinton se abrandou mais ainda, mesmo quando Clinton se descobriu um papel reverso involuntário com seu jovem rival. Enquanto senadora célebre e poderosa no Capitólio, ela havia ajudado Obama na corrida para o Senado e ofereceu conselho quando ele chegou em Washington; agora ela era um cavalo de carga para um fenômeno político.

Desde a eleição, Clinton falou com Obama apenas um punhado de vezes, mesmo quando dois conselheiros próximos de Obama que tiveram posições importantes no governo Clinton - Rahm Emanuel e John Podesta - serviram como negociadores-chave entre ela e o presidente eleito quanto à posição de secretária de Estado.

Mas Clinton falou várias vezes com Michelle Obama sobre cuidar da família na Casa Branca e sobre escolas privadas em Washington. Na sexta-feira, Michelle Obama disse que suas duas filhas irão freqüentar a escola Sidwell Friends, exatamente como Chelsea Clinton. Eloise De Vylder

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