UOL Notícias Internacional
 

23/11/2008

Guerrilheiros Mai Mai: a terceira peça do violento quebra-cabeça do Congo

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Goma, Congo
Didier Bitaki, um líder da milícia Mai Mai, estava em seu quintal na quinta-feira, com uma garrafa de vidro nas mãos e dois soldados com cara de criança atrás dele.

"É isso", disse.

O "isso" era um preparado malcheiroso de folhas amassadas e água, que parecia mais com um mojito feito há uma semana do que qualquer outra coisa.

Mas de acordo com Bitake e centenas de outros homens armados que ainda provocam a devastação no leste do Congo, poções mágicas como esta lhes dão poder para lutar pela terra. E ele manuseava o pequeno frasco com extremo cuidado, fazendo um movimento secreto parecido com um aperto de mão toda vez que seus soldados passavam a garrafa para sua mão, certificando-se de que estava fechada.

"É preciso ser cuidadoso", explica Bitaki, que estava de pés descalços, vestido num agasalho Puma branco reluzente. "Você não quer deixar o poder sair".

Os Mai Mai são a terceira peça do violento quebra-cabeça do Congo, com os rebeldes de um lado, as forças do governo do outro e os Mai Mai com freqüência aterrorizando as áreas sem controle entre eles. Com suas armas, chapéus de folhas e poções especiais que muitos guerreiros acreditam fazem as balas desviarem deles, eles são uma dimensão surreal - mas ainda assim mortífera - das guerras civis do Congo.

Os Mai Mai insistem que são os verdadeiros patriotas do Congo, mas sua influência é questionável - a maioria dos aldeãos os chamam de aproveitadores e eles tendem a perder suas batalhas. Nos últimos anos, eles emergiram como saqueadores, lutando depois que os outros grupos armados haviam concordado em parar. Os Mai Mai agora parecem ter uma rixa com basicamente todo mundo: os rebeldes (com quem lutaram na quinta-feira); os pacificadores da ONU (com quem lutaram na quarta-feira); e as tropas do governo do Congo (com quem lutaram na terça-feira).

Mais uma vez, os civis do Congo foram as vítimas da maior parte dessas batalhas, e na quinta-feira, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade o envio de mais 3 mil tropas para manter a paz, que fará com que o total de tropas no Congo, incluindo os oficiais de polícia, vá para mais de 20 mil.

Os novos pacificadores terão trabalho, especialmente no que diz respeito aos Mai Mai. Na terça-feira, guerrilheiros Mai Mai fizeram uma emboscada para tropas congolesas ao norte de Goma, cidade estratégica no leste do Congo, na fronteira com Ruanda. As tropas do governo os repeliram, dizem testemunhas, e um guerrilheiro Mai Mai morto foi deixado com um guarda-chuva atravessando seu rosto.

Na quarta-feira, oficiais da ONU disseram que tropas Mai Mai fortemente armadas tentaram extorquir um comboio da ONU que estava patrulhando um pequeno vilarejo próximo a Goma. De acordo com os oficiais, os homens da milícia pediram dinheiro, mas depois disseram que ficariam satisfeitos com alguma comida. Quando os pacificadores recusaram, os Mai Mai abriram fogo. Os pacificadores revidaram e mataram um Mai Mai, disseram oficiais da ONU.

Na quinta-feira, os Mai Mai voltaram suas armas para as forças rebeldes, que concordaram, depois de dias de negociações, em se retirar de algumas cidades que haviam tomado recentemente. Oficiais da ONU disseram que os Mai Mai estavam tentando tirar vantagem do vácuo deixado pela retirada dos rebeldes.

"Esses Mai Mai são verdadeiros baderneiros", disse o tenente coronel Jean-Paul Dietrich, porta-voz da ONU.

Há milhares de guerrilheiros Mai Mai em dezenas de grupos pouco conectados entre si, espalhados por todo o Congo. O movimento começou há algumas décadas, quando as comunidades do país formaram milícias para se proteger e usaram os costumes locais como forma de inspirar os guerreiros. O termo "mai mai" refere-se a maji, a palavra para água na língua Kiswahili, porque muitos dos guerreiros Mai Mai se untam com uma mistura de óleo de palmeira e água benta antes de ir para o campo de batalha. Normalmente tudo o que eles usam é esse óleo e alguns colares feitos em casa.

Em 1998, quando Ruanda apoiou um grupo rebelde que quase derrubou o governo do Congo, os Mai Mai se uniram ao governo congolês para lutar contra os ruandeses.

Esse conflito, que atraiu exércitos de meia dúzia de países vizinhos, terminou num impasse, e o leste do Congo ficou tomado por grupos armados e pela insegurança desde então. Muitas das milícias Mai Mai de outras partes do Congo concordaram em se desarmar. Mas no leste do Congo, os Mai Mai parecem cada vez mais inquietos.

Líderes Mai Mai em Goma disseram que eles se sentiram excluídos das negociações recentes entre o governo do Congo e os rebeldes, que são suspeitos de terem continuado apoiando Ruanda. No mês passado, os rebeldes derrotaram tropas do governo e estavam prestes a tomar Goma quando seu líder, Laurent Nkunda, declarou repentinamente um cessar-fogo e disse que queria um acordo político com o governo.

Líderes Mai Mai disseram que o governo deveria conversarr com eles, e não com os rebeldes. "Nós é que somos fortes", disse o major Mihali Inakefuno, comandante Mai Mai. "Esses rebeldes não seriam nada sem Ruanda".

Mas muitos moradores dizem que não gostam dos Mai Mai. Na quinta-feira, conforme o som das armas dos Mai Mai ecoava nas colinas verdes, fazendo com que os fazendeiros deixassem os campos rapidamente, com enxadas na mão, Mataza Nirakomano apontou para sua saia suja e para as cicatrizes em seus braços e uma criança magra dependurada na cintura e disse: "Olhe para mim. Foi isso que os Mai Mai fizeram."

Nirakomano, fazendeira e mãe de três, disse que os guerreiros Mai Mai pilharam seu vilarejo, estupraram as mulheres e mantiveram toda a área insegura e, por conseqüência, pobre.

"Lutando pela nossa terra? Não!", disse. "Eles são tão ruins quanto todos os outros". Eloise De Vylder

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