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24/11/2008

O New Deal nem sempre funcionou

The New York Times
Tyler Cowen
Muitas pessoas estão se voltando para a Grande Depressão e para o New Deal em busca de respostas para os nossos problemas atuais. Mas apesar de podermos aprender lições importantes com esse período, nem sempre são aquelas ensinadas na escola.

A história tradicional ensina que o presidente Franklin D. Roosevelt salvou o capitalismo usando uma intervenção extensiva do governo; a verdade é que Roosevelt mudou de rumo a cada ano, experimentando uma série de políticas, algumas boas e outras ruins. Vale à pena examinar essa miscelânea agora, para avaliar se alguma dessas políticas pode ser útil.

Se eu fosse preparar uma "cola sobre o New Deal", começaria com as seguintes lições:

Política Monetária é fundamental

Conforme Milton Friedman e Anna Jacobson Schwartz argumentaram no clássico livro "A Monetary History of the United States" ["Uma História Monetária dos Estados Unidos"], a principal causa da Grande Depressão foi que o Federal Reserve [banco central dos EUA] deixou que o suprimento de dinheiro caísse em um terço, provocando a deflação.

Além disso, permitiu que os bancos falissem, causando uma crise de crédito. As melhores políticas de Roosevelt foram aquelas destinadas a aumentar o suprimento de dinheiro, colocar o sistema bancário de pé e restaurar a confiança nas instituições financeiras.

Um estudo sobre os anos 30 feito por Christina D. Romer, professora da Universidade da Califórnia, Berkeley, ("What Ended the Great Depression?" ["O que acabou com a Grande Depressão"], Jornal de História Econômica, 1992), confirma que a política monetária expansionista foi a chave para a recuperação parcial dos anos 30. Os piores anos da política do New Deal foram 1937 e 1938, logo depois que o Fed aumentou as exigências de reservas para os bancos, inibindo os empréstimos e levando a economia de volta para perigosas pressões deflacionárias.

Hoje, a política monetária expansionista não é tão fácil de ser aplicada, uma vez que estamos vendo uma diminuição no crédito e uma contração da "sombra do setor bancário", representada por vários tipos de comércio de derivativos, fundos hedge e outros investimentos. Então não espere que os benefícios da expansão monetária venham logo, ou até mesmo daqui a seis meses.

Ainda assim, o Fed precisa estar pronto para evitar uma espiral descendente e para estimular a economia assim que seja possível.

Fazer as pequenas coisas direito

Não são apenas as políticas monetária e fiscal que são importantes. Roosevelt deixou um legado desastroso de subsídios agrícolas e quis cartelizar a indústria, apoiado pela força da lei. Nada disso ajudou a recuperação da economia.

Ele também tomou atitudes para fortalecer os sindicatos e para manter os salários reais mais altos. Isso ajudou os trabalhadores que tinham emprego, mas tornou muito mais difícil para os desempregados voltarem ao trabalho. Como resultado, as taxas de desemprego permaneceram altas durante todo o período do New Deal.

Hoje, o presidente-eleito Barack Obama enfrenta pressões para facilitar a sindicalização, mas essas políticas irão provavelmente piorar a recessão para muitos americanos.

Não aumente os impostos de uma vez

O legado de programas públicos do New Deal deixou muitas pessoas com a impressão de que era uma época de política fiscal expansionista, mas isso não é exatamente verdade. Os gastos do governo cresceram consideravelmente, mas os impostos aumentaram também. Sob o comando do presidente Herbert Hoover e depois com Roosevelt, o governo federal aumentou os impostos sobre a renda, sobre produção e consumo, sobre heranças, sobre ganhos corporativos, e manteve os impostos sobre as companhias e sobre o "lucro excessivo".

Quando todos esses aumentos de impostos são levados em conta, a política fiscal do New Deal não fez muito para promover a recuperação.
Hoje, um corte de impostos para a classe média é uma boa idéia - e o motivo para rejeitar o corte de impostos de Bush para os mais ricos é hoje mais fraco do que poderia parecer há um ano ou dois.

A guerra não é a arma

A Segunda Guerra Mundial não ajudou a economia americana. Os lucros vieram nos estágios iniciais, quando os EUA estavam apenas vendendo bens relacionados com a guerra para a Europa e ainda não haviam entrado no combate. O historiador econômico Robert Higgs, membro sênior do Instituto Independente, mostrou em seu livro de 2006, "Depression, War, and Cold War" ["Depressão, Guerra e Guerra Fria"], o quanto que a guerra promoveu a falta e o racionamento de bens de consumo.

Apesar de a produção geral da economia ter aumentado, e o alistamento militar ter diminuído o desemprego, de modo geral, os anos de guerra não são um período próspero. No que diz respeito aos dias de hoje, não deveríamos pensar que fazer guerra seja uma forma de restaurar a saúde econômica.

Você não pode transformar o mal em bem

As boas políticas do New Deal, como a construção de uma rede de segurança social básica, fizeram sentido por si só e teriam sido desejáveis também durante a expansão dos anos 20. As políticas ruins deixaram as coisas piores. Hoje, isso significa que deveríamos restringir medidas extraordinárias ao setor financeiro o máximo possível e evitar a tentação de "fazer algo" para o seu próprio bem.

Resumindo, a política de expansão monetária e as encomendas de guerra vindas da Europa, e não as bem conhecidas políticas do New Deal, tiveram um papel maior para fazer a economia dos EUA sair do buraco da Depressão. Nossa crise atual também irá acabar um dia, e, assim como nos anos 30, a recuperação provavelmente virá de razões que têm pouco a ver com a maioria das iniciativas políticas.

*Tyler Cowen é professor de economia na Universidade George Mason Eloise De Vylder

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