UOL Notícias Internacional
 

25/11/2008

Suicídio visto ao vivo pela Internet provoca debate

The New York Times
Brian Stelter
Para um estudante de faculdade comunitária de 19 anos em Pembroke Pines, Flórida, os murais em BodyBuilding.com eram um lugar para postar mensagens, pelos menos 2.300, incluindo mais de uma sobre seus impulsos suicidas. Em uma mensagem postada no ano passado, ele escreveu que os fóruns online "se tornaram como uma família para mim".

"Eu sei que é meio triste", escreveu o estudante, Abraham Biggs, entre parênteses, acrescentando que postou online seus "problemas e dúvidas" porque não queria conversar com ninguém a respeito deles pessoalmente.

Na última quarta-feira, quando Biggs postou um bilhete suicida e listou o coquetel de drogas que planejava consumir, o site esteve longe de agir como uma família. No BodyBuilding.com, que inclui discussões sobre vários assuntos além de musculação, e em um site de vídeo ao vivo, Justin.tv, Biggs foi "incitado" por vários estranhos que, segundo os investigadores, o encorajaram a tomar as pílulas antidepressivas que no final o mataram.

O caso de Biggs é o exemplo mais recente de suicídio cometido pela Internet. O vídeo ao vivo da morte foi exibido online para várias pessoas, levando algumas a se encolherem e outras a rirem. O caso, que provocou demonstrações de compaixão e críticas online, demonstra a dupla natureza das comunidades online para as quais milhões de pessoas se voltam diariamente.

As comunidades online "são como a multidão do lado de fora de um prédio de onde um sujeito pretende pular", disse Jeffrey Cole, um professor da Universidade do Sul da Califórnia que estuda os efeitos da tecnologia na sociedade. "Às vezes há alguém que se envolve e tenta convencê-lo a desistir daquilo. Mas com freqüência a multidão canta 'Pula, pula'. Eles podem estimular o suicídio ou ajudar a preveni-lo."

Em blogs e fóruns na semana passada, algumas pessoas se perguntaram se Biggs esperava que, ao transmitir seu suicídio, ele atrairia atenção e faria alguém intervir. Os espectadores no final chamaram a polícia, mas apenas após ele ficar inconsciente. O site de vídeo Justin.tv disse na segunda-feira que espera que seus membros fiquem "mais vigilantes" no futuro.

Não foi a primeira vez que alguém usou a Internet dessa forma. No Arizona em 2003, um homem tomou uma overdose de drogas enquanto escrevia a respeito de suas ações em uma sala de bate-papo. No Reino Unido no ano passado, um homem se enforcou enquanto conversava e transmitia vídeo online. Em ambos os casos, outros usuários teriam encorajado o indivíduo.

Às vezes outros usuários demonstram apoio de formas perturbadoras. Em vários caos bastante divulgados no Japão, Coréia do Sul e outros lugares, as pessoas formaram pactos de suicídio pela Internet e depois se encontraram pessoalmente para executar seus planos.

"Se alguém ameaça cometer suicídio ou tenta o suicídio, nunca é uma brincadeira", disse Joshua Perper, o médico legista de Broward County, onde Biggs vivia. "Isso sempre exige atenção. É basicamente um grito de socorro."

Grande parte das evidências do suicídio de Biggs e as reações dos usuários foram removidas do BodyBuilding.com e da Justin.tv após a confirmação de sua morte. Mas segundo uma cronologia postada por outro usuário, Biggs listou as pílulas que obteve e postou um bilhete de suicídio que ele copiou de outro site. Ele direcionava as pessoas para a página dele no Justin.tv, onde qualquer um pode plugar uma webcam e transmitir vídeo ao vivo pela Internet. Em sua sala de bate-papo ao lado do vídeo ao vivo, as "piadas e conversa trash" prosseguiram após Biggs ter consumido as pílulas e deitado em sua cama, segundo o usuário, que disse que tentou contatar a polícia local de sua casa na Índia.

Vários outros usuários preocupados telefonaram para a polícia quando Biggs pareceu parar de respirar. Quando as autoridades entraram no quarto, segundo uma imagem do incidente que circulou online, 181 pessoas estavam assistindo ao vídeo. Na sala de bate-papo, os usuários digitavam as abreviações para "oh, meu Deus" e "caindo na gargalhada" antes da polícia cobrir a webcam.

Após a confirmação de sua morte, palavras de compaixão eram intercaladas por queixas a respeito do comportamento de Biggs na seção "Diversos" do BodyBuilding.com, onde ele postava com freqüência. Alguns usuários alegaram que Biggs tinha ameaçado cometer suicídio repetidas vezes no passado.

A família de Biggs disse que ele sofria de desordem bipolar e que estava sendo tratado por depressão. As mensagens de telefone deixadas na casa do pai de Biggs, Abraham Biggs Sr., não foram retornadas no domingo. Mas em uma entrevista para a agência de notícias "The Associated Press", o pai disse ter ficado atônito com a falta de resposta por parte dos usuários e operadores.

"Como ser humano, você não vê alguém em dificuldades e apenas se reclina e assiste", ele disse, antes de sugerir que "algum tipo de regulamentação é necessária".

O caso continua sob investigação pelo Departamento de Polícia de Pembroke Pines. A Justin.tv disse em uma declaração: "Em decorrência deste evento, nós estamos confiantes de que todos os membros da comunidade online ficarão ainda mais vigilantes no monitoramento e proteção de outros usuários no futuro".

Apesar de sites como o Justin.tv removerem conteúdo que consideram condenável após o fato, o conteúdo de sites de vídeo e salas de bate-papo continua em grande parte sob controle dos usuários.

M. David Rudd, presidente do departamento de psicologia da Universidade de Tecnologia do Texas, disse que a Internet não está plenamente à altura de seu potencial para ajudar a prevenir suicídios. "Grande parte do que está disponível via Internet apenas serve para piorar o problema", disse Rudd, seja informação sobre como cometer suicídio ou comentários imaturos de usuários de salas de bate-papo.

Cole, da Universidade do Sul da Califórnia, descreveu a morte de Alethea Gates, uma adolescente da Nova Zelândia, que se matou após usar o Google para ler sobre diferentes métodos de suicídio. Em vez de culpar a Internet, os pais dela disseram que gostariam que a busca no Google tivesse levado a links de sites de prevenção de suicídio. Na prática, eles gostariam que a Internet tivesse dito "se afaste da beirada" em vez de "pule". (Muitas buscas no Google que incluem a palavra suicídio incluem links patrocinados para sites de prevenção.)

Rudd disse acreditar que Biggs não estava procurando uma audiência online.

"O que ele estava realmente fazendo era expressar sua ambivalência em relação a morrer e, de uma forma desajeitada, pedindo socorro", ele disse.

Mas a natureza virtual da comunidade - distante, em grande parte isenta de responsabilidade e freqüentemente em busca de entretenimento - era igualmente ambivalente. Horas após a morte de Biggs, alguns usuários no fórum ainda soavam altamente céticos em relação ao caso. Outros pediam para ver o vídeo.

"A natureza anônima dessas comunidades apenas reforça a maldade ou insensibilidade das pessoas nesses sites", disse Cole. "Raramente eles expõem uma maior compaixão ou consideração." George El Khouri Andolfato

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