UOL Notícias Internacional
 

26/11/2008

Políticas para Aids provaram ser mortais na África do Sul

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Johannesburgo (África do Sul)
Um novo estudo por pesquisadores de Harvard estima que o governo sul-africano teria prevenido as mortes prematuras de 365 mil pessoas no início desta década, caso tivesse fornecido drogas anti-retrovirais para pacientes de Aids e as drogas amplamente ministradas para ajudar as mulheres grávidas a não infectarem seus bebês.

O estudo de Harvard concluiu que as políticas resultaram da negação pelo presidente Thabo Mbeki do consenso científico bem estabelecido sobre a causa viral da Aids e o papel essencial das drogas anti-retrovirais no seu tratamento.

Apresentado após a queda de Mbeki em setembro, após uma disputa de poder em seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), o relatório provocou o questionamento sobre o motivo para Mbeki, um homem de grande inteligência, ter sido tão influenciado por aqueles que negam a Aids.

E novamente causou uma auto-análise sobre por que seus colegas de partido não agiram antes para contestar sua resistência aos métodos amplamente aceitos de tratamento e prevenção da Aids.

Reagindo ao legado dessas políticas, o sucessor de Mbeki, Kgalema Motlanthe, afastou no primeiro dia de sua presidência, há dois meses, o ministro da saúde, Manto Tshabalala-Msimang, uma figura polarizadora que propôs alho, sumo de limão e raiz de beterraba como remédios para a Aids.

Ele nomeou para o cargo Barbara Hogan, que colocou de forma decidida a África do Sul - o país mais poderoso em uma região no epicentro da pandemia mundial de Aids - de volta à corrente principal.

"Eu me sinto envergonhada de termos que confessar o que Harvard está dizendo", disse Hogan, uma importante figura do CNA que ficou aprisionada por uma década durante a luta anti-apartheid, em uma entrevista recente. "A era da negação acabou totalmente na África do Sul."

Por anos, o governo sul-africano fracassou em fornecer medicamentos anti-retrovirais, mesmo enquanto Botsuana e a Namíbia, países vizinhos com epidemias em escala semelhante, agiam, informou o estudo de Harvard.

Os pesquisadores de Harvard quantificaram o custo humano desse fracasso comparando o número de pessoas que de fato receberam anti-retrovirais na África do Sul, de 2000 a 2005, com o número que o governo poderia ter atingido caso implantasse um programa viável de tratamento e prevenção de Aids.

Eles estimaram que em 2005, a África do Sul poderia ter ajudado metade dos que necessitavam, mas ajudou apenas 23%. Em comparação, Botsuana já fornecia tratamento para 85% dos que precisavam, e a Namíbia atendia 71%.

Os 330 mil sul-africanos que morreram por falta de tratamento e os 35 mil bebês que morreram por estarem infectados pelo HIV perderam somados pelo menos 3,8 milhões de anos de vida, concluiu o estudo.

Epidemiologistas e bioestatísticos que revisaram o estudo para o "The New York Times" disseram que os pesquisadores basearam suas estimativas em suposições conservadoras e usaram metodologia sólida.

"Eles realmente usaram estimativas conservadoras em seus cálculos, e eu consideraria os números deles bastante razoáveis", disse James Chin, um professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em uma mensagem de e-mail.

O relatório foi postado online em outubro e será publicado na segunda-feira no "Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes" revisado por pares.

Max Essex, o virologista que liderou o programa de pesquisa de Aids da Escola de Saúde Pública de Harvard nos últimos 20 anos e que supervisionou o estudo, chamou a resposta sul-africana à Aids sob Mbeki de um "caso de saúde pública ruim, até mesmo maligna".

Mbeki tem se mantido em silêncio sobre seu legado de Aids desde sua renúncia forçada. Seu porta-voz, Mukoni Ratshitanga, disse que Mbeki não discutiria seu pensamento sobre HIV e Aids, explicando que as decisões sobre políticas eram tomadas coletivamente pelo Gabinete e, portanto, as perguntas devem ser respondidas pelo governo.

O novo governo agora está tentando acelerar a ampliação dos tratamentos anti-retrovirais. A tarefa é urgente. A África do Sul conta atualmente com 5,7 milhões de pessoas portadoras do HIV - mais do que qualquer outro país, quase um entre cinco adultos. Mais de 900 pessoas por dia morrem aqui em conseqüência da Aids, estima a ONU.

Desde que o partido forçou a saída de Mbeki do governo e alguns de seus seguidores leais deixaram o partido para formar um novo, as rivalidades se inflamaram e histórias sobre o que aconteceu dentro do CNA a respeito da Aids começaram a vir à tona, oferecendo vislumbres perturbadores de como as políticas para Aids da África do Sul deram tão errado.

Desde o primeiro ano de sua presidência em 1999, Mbeki foi dominado pelo pensamento de um pequeno grupo de cientistas dissidentes que argumentavam que o HIV não era a causa da Aids, disseram seus biógrafos.

Como presidente ele detinha enorme poder, e aqueles que discordavam dele disseram que temiam ser afastados caso se manifestassem. Até mesmo Nelson Mandela, o reverenciado ex-presidente, não estava imune a insultos.

Em uma coluna no "The Sunday Times" de Johannesburgo, em 19 de outubro, Ngoako Ramatlhodi, um líder do partido que agora comanda a campanha eleitoral do CNA para 2009, recontou como Mandela, conhecido afetuosamente como Madiba, foi humilhado durante a convenção de 2002 do partido após ter feito uma rara aparição para questionar a posição do CNA em relação à Aids.

Ramatlhodi descreveu os oradores como competindo para demonstrar maior lealdade a Mbeki ao atacarem Mandela, enquanto Mbeki assistia em silêncio. "Após este ataque vil, Madiba parecia com o dobro de sua idade, velho e pálido", escreveu Ramatlhodi.

O próprio Ramatlhodi reconheceu em uma recente entrevista que enviou em 2001 uma carta de 22 páginas, esboçada pelo gabinete de Mbeki, para outro dos críticos mais críveis de Mbeki, o professor Malegapuru Makgoba, um imunologista que é um dos principais cientistas da África do Sul. A carta acusava Makgoba de defender a ciência ocidental e suas idéias racistas a respeito dos africanos às custas de Mbeki.

Em 2000, Mbeki forneceu a Makgoba dois volumes contendo 1.500 páginas de documentos escritos por aqueles que negam a Aids. Após lê-los, Makgoba disse em uma entrevista que escreveu uma resposta para alertar Mbeki de que se adotasse as idéias dos negadores, a África do Sul "se tornaria motivo de riso, se não uma pária, para o mundo novamente".

Mas Mbeki indicou no ano passado para um de seus biógrafos, Mark Gevisser, que suas posições a respeito da Aids permaneciam basicamente inalteradas, apontando ao escritor um documento que, ele disse, foi elaborado pelos líderes do CNA e refletia precisamente sua posição.

Os autores do documento reconheceram que o HIV poderia ser uma causa da Aids, mas argumentavam que havia muitas outras causas, incluindo outras doenças e desnutrição.

O documento dizia que os anti-retrovirais eram tóxicos. E sugeria que poderosos interesses - laboratórios farmacêuticos, governos, cientistas- pressionavam a visão de consenso da Aids visando dinheiro e poder, perpetuando ao mesmo tempo crenças racistas brancas descrevendo os africanos como sexualmente vorazes.

"Sim, somos loucos por sexo!" exclamavam amargamente os autores do documento. "Sim, somos doentes! Sim, nós disseminamos o mortal HIV por meio de nosso sexo heterossexual descontrolado!"

Em 2002, após um protesto prolongado contra os comentários de Mbeki a respeito da Aids e das políticas do governo, Mbeki concordou com os pedidos de dentro do seu partido para se abster do debate público. Naquele mesmo ano, o Tribunal Constitucional decidiu que o governo tinha que fornecer medicamentos anti-retrovirais para impedir que os recém-nascidos fossem infectados. E em 2003, o Gabinete anunciou planos de seguir em frente com um programa de tratamento com anti-retrovirais.

"Nós fizemos um bem enorme nos primeiros dias na África do Sul, não por causa do Ministério da Saúde, mas apesar do Ministério da Saúde", disse Randall L. Tobias, que foi nomeado em 2003 pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, para liderar a ajuda global americana de combate à Aids no valor de US$ 15 bilhões.

No mesmo ano, o ex-presidente americano Bill Clinton e sua fundação também estiveram envolvidos na ajuda para que a África do Sul recebesse o programa de tratamento. Clinton esteve presente na comemoração do 85º aniversário de Mandela em Johannesburgo, em 2003. Durante o jantar, ele e Mbeki se afastaram para conversar sobre Aids, lembrou Clinton em uma entrevista recente.

Clinton contou que disse a Mbeki como o tratamento anti-retroviral reduziu a taxa de mortalidade por Aids nos Estados Unidos e o recordou de que "eu sou seu amigo e não me juntei à condenação pública". Naquela noite, quando Clinton ofereceu enviar uma equipe de especialistas para ajudar o país a elaborar um plano nacional de tratamento, Mbeki aceitou.

A Fundação Clinton ajudou a conceber um plano e mobilizou 20 pessoas para viajarem à África do Sul em janeiro de 2004 para ajudar a executá-lo. Mas o governo sul-africano nunca os convidou, disse Clinton. Então a fundação, que tem projetos por toda a África, ficou sem nenhum na África do Sul.

As mudanças desde a queda de Mbeki levaram muitos a torcer por uma liderança política forte sul-africana em relação à Aids. O rival e sucessor de Mbeki como chefe do partido, Jacob Zima, que deverá se tornar presidente após a próxima eleição, já fez um famoso comentário questionável sobre a Aids.

Em seu julgamento de estupro em 2006, no qual foi absolvido de atacar sexualmente uma amiga da família, ele testemunhou que buscou reduzir suas chances de ser infectado pelo HIV tomando um banho após o sexo. Todavia, ele parece ter posições mais convencionais a respeito da pandemia.

"Quem imaginaria que Jacob Zima seria melhor do que Mbeki, mas ele é", disse Richard C. Holbrooke, o ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU durante o governo Clinton e que chefia a coalizão de empresas que combatem a Aids. "A tragédia de Thabo Mbeki é que ele é um homem inteligente, que poderia ter sido um estadista internacional a respeito desta questão. Até hoje a gente se pergunta o que deu nele."

Para os sul-africanos que assistiram as mortes e eram impotentes para impedi-las, o pesar ainda é forte. Zackie Achmat, o defensor mais proeminente do país das pessoas com Aids, adoeceu durante os quase cinco anos em que se recusou a tomar os anti-retrovirais até estarem amplamente disponíveis. Ele apontou Mbeki como o principal responsável por esta tragédia africana.

"Ele é como Macbeth", disse Achmat. "É mais fácil caminhar em meio ao sangue do que recuar e reconhecer que cometeu um erro." George El Khouri Andolfato

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