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27/11/2008

Avós usam webcams para fazer visitas virtuais aos netos

The New York Times
Amy Harmon
Em Deer Park, Nova York
O avô dela queria brincar de tomar chá, mas Alexandra Geosits, de dois anos e meio, insistiu que só tinha suco de maçã. Ela segurou o copo de plástico, dando risadas enquanto aguardava para ver se o avô aceitaria o substituto.

O fato de estarem separados por uma distância de mais de 1.600 quilômetros, e de a visita semanal ser feita através de telas de computadores nas suas respectivas residências não perturbou nenhum dos dois. Assim como vários outros netos e avós que vivem longe uns dos outros, Alex e Joe Geosits, 69, passaram a dominar o uso da webcam.
"Delicioso", disse Joe Geosits, da Flórida, fingindo que tomava um gole do copo, que permanecia aqui, preso nas mãos pequeninas de Alex.

Os videotelefonemas, há muito antecipados pela ficção científica, estão infiltrando-se no cotidiano. E grupos demográficos que não são exatamente conhecidos pelo amor à tecnologia são um dos primeiros a adotar esse meio de comunicação.

A webcam promete transcender tanto a distância quanto a incapacidade das crianças pequenas de sustentar uma conversa telefônica tradicional, de uma maneira que jamais poderia ser feita com as fotos e cartões postais enviados por e-mail.

Alguns avós entusiastas dizem que esta forma virtual de comunicação torna a separação real ainda mais dura. Outros gostam tanto das visitas por webcam por meio de serviços como o Skype e o iChat que eles fazem menos visitas pessoais. E ninguém sabe o que significa para uma geração de crianças de dois anos de idade contar com versões ligeiramente granuladas dos avós como figuras regulares nas suas telas.

Mas em um momento no qual milhões de pessoas em todo o mundo estão começando a transmitir as suas imagens pelo éter, as aventuras na webcam das crianças de jardim-de-infância e seus avós dá uma idéia do que poderá ser conquistado - e do que poderá ser perdido - com esta prática de "quase estar lá".

"Se não tivéssemos a webcam seríamos estranhos para eles", diz Susan Pierce, 61, de Sreveport, no Estado de Louisiana, que participará virtualmente do jantar de Ação de Graças deste ano com os netos, que moram em Jersey City, no Estado de Nova Jersey.

No ano passado, Pierce e o marido, Joe, viram Dylan, de 17 meses, aprender a andar e a falar através da webcam, e acompanharam a evolução dos desenhos da neta de quatro anos, Kelsie, que começou fazendo rabiscos amorfos até chegar às figuras com braços e dedos.

Mas a poderosa ilusão de proximidade física também faz aumentar o desejo de estar de fato com os indivíduos. "Me dá vontade de pegá-los no colo", diz Pierce, uma professora de enfermagem. "Vê-los faz com que eu sinta mais saudade".

Quase a metade dos avós norte-americanos mora a mais de 300 quilômetros de pelo menos um dos netos, segundo a Associação Americana de Pessoas Aposentadas. O sociólogo Merril Silverstein, que é professor da Universidade do Sul da Califórnia, descobriu que cerca de dois terços dos netos vêem um casal de avós apenas algumas vezes por ano, se tanto.
Muitos avós descobrem que a webcam facilita a transição durante as visitas pessoais, quando os netos podem se recusar a sentar no colo deles ou rejeitar os seus abraços porque não os reconhecem. Conforme uma adepta das webcams escreveu no seu blog, www.nanascorner.com: "Você conseguirá retomar o relacionamento do ponto em que parou sem ter que passar por aqueles momentos estranhos de 'aquecimento'".

Na visita mais recente de Pierce a New Jersey no mês passado, por exemplo, Dylan chamou-a pelo apelido que usa nas comunicações por webcam, "Buffy!", e pulou nos braços da avó. "Aquilo derreteu o meu coração", diz Pierce.

Motivados pelos comentários favoráveis feitos por amigos, são os avós que muitas vezes compram as webcams para os netos, ou, tecnicamente, para os próprios filhos. Mas as crianças, que passam grande parte do tempo jogando "Pretend", podem transitar mais facilmente entre o virtual e o real.

Quando Gail Hecox, de Park City, no Estado de Utah, mostra à neta de dois anos, Lily, os seus gatos pela webcam, a menina freqüentemente bate com a mão no espaço do ottoman próximo ao laptop e diz, "miau, miau", como se fosse capaz de caminhar através da tela.

Muitos netos brincam, entrando em saindo na sala, de acordo com os seus níveis de energia, da mesma maneira que fariam em um encontro real.

Quando Coulter Medeiros, de Cincinnati, que tem quase três anos de idade, quer falar com a avó que está em Massachusetts, ele simplesmente aponta para o computador dos pais e diz, "Vovó lá". E ele não quer saber de substituições com tecnologias ultrapassadas. Se a avó estiver no trabalho, sem o computador equipado com webcam, a mãe de Coulter, Elizabeth, às vezes o coloca para conversar por meio do fone de ouvido.

A adultos de uma famílias têm os seus próprios motivos para encorajar o entusiasmo das gerações mais jovens e mais velhas pela webcam. Quando Martha Rodenborn descobriu que Elena, atualmente com quatro anos de idade, gostava de sentar-se em frente ao computador no apartamento no bairro novaiorquino de Upper West Side, enquanto a avó, em Ohio, lia pilhas de livros de gravuras para ela, a webcam transformou-se rapidamente em um veículo de baby-sitting à distância.

"Foi um salva-vidas", diz Rodenborn, que na última primavera formou-se pela Escola de Direito da Universidade Columbia. Como a ligação pela webcam é gratuita, os pais a deixam ligada enquanto os avós estiverem dispostos a fazer caretas engraçadas e imitar sons de animais.
Para os pais que são obrigados a atuar como documentaristas em tempo real, a experiência pode ser também cansativa.

Depois da brincadeira entre Alex Geosits e os avós com o suco de maçã virtual em um domingo recente, o pai da menina viu-se subindo a escada atrás dela, de laptop na mão, quando a menina foi pegar a sua boneca favorita, e depois seguindo-a pela sala enquanto ela brincava de se esconder e mostrava o umbigo. Finalmente, chegou a hora do lanche da garota, e ele pôde relaxar.

A recente inclusão de webcams na maioria dos laptops é responsável por parte do aumento de 20% do número de videotelefonemas no ano passado, diz Rebecca Swensen, analista da firma de pesquisa tecnológica IDC.
As companhias da Internet também estão promovendo o "video chat" como um avanço em relação aos serviços de mensagem instantânea e de telefone online. O Google, por exemplo, que ganha dinheiro com propagandas no seu popular Gmail, um software de e-mail baseado na Web, introduziu neste mês recursos de vídeo no Gmail.

Segundo Swensen, no mês passado cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo fizeram uma ligação em vídeo para comunicação pessoal. Soldados norte-americanos no Iraque enviam suas imagens para casa via webcam; pais em viagens de negócios (incluindo o presidente eleito Barack Obama) dão boa-noite aos filhos.

Avós e netos já estão encontrando formas de fazer com que este meio de comunicação aproxime-se um pouco mais da teleportação de verdade.
Por exemplo, quando Deborah Lafferty, 55, e a sua neta, Natali, de dois anos, querem se abraçar, Natalie, que mora em Seattle, aproxima-se da tela e aperta o rosto com as mãos, da mesma forma que a avó faz com ela nas suas visitas à Inglaterra. Lafferty, por sua vez, comprime também a face. "A vovó te ama muito", diz ela. A frase é a mesma que ela utiliza nos encontros pessoais com Natalie.

Os avós usam os filhos como substitutos para estreitar a lacuna tátil. Certa vez Barbara Turner, em Ottawa, cantou uma canção de minar para o neto recém-nascido que estava em Indiana, enquanto observava o neto ser embalado pela mãe. Ela quase foi capaz de sentir o contato do neto no ombro.

Mas nesta semana Turner e o marido seguiram para Indiana para estarem por perto durante o nascimento do segundo neto. "Algumas coisas simplesmente não podem ser feitas através da webcam", disse ela. "Nestes casos é preciso viajar". Mesmo assim, alguns veteranos da área de tecnologia temem que as webcams tenham começado a substituir, em vez de suplementar, o tempo realmente passado junto.

Jennifer Ray, 24, de San Antonio, e o irmão persuadiram os pais a comprar um computador novo, de forma que todos pudessem falar com os netos em telas repartidas, em diferentes Estados. Agora os irmãos reclamam da falta de disposição da mãe para viajar.
"Ela ainda vem", diz Ray, referindo-se à mãe, Diane Heyman, que mora no Arizona. "Mas não com tanta freqüência".

"Provavelmente é verdade", admite Heyman, 49. "A gente sente que está realmente vendo-os e interagindo com ele, e isso alivia a saudade". UOL

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