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28/11/2008

Casos de abusos contra filhos horrorizam britânicos e abalam serviços sociais

The New York Times
Sarah Lyall
Em Londres
Em um dos casos, um empresário desempregado de 56 anos de idade, de Sheffield, foi denunciado por aterrorizar e estuprar repetidamente as duas filhas - tendo nove filhos com elas - no decorrer de quase três décadas. No outro, uma mulher de 27 anos, de Londres, e duas outras pessoas foram indiciadas por infligirem uma série de ferimentos no filho dela, de 17 meses, e depois o espancarem até a morte.

Os dois casos, que foram descobertos nas últimas semanas, horrorizaram a população britânica e geraram questões perturbadoras sobre a efetividade do vasto sistema de serviços sociais do Reino Unido. As duas famílias tiveram diversos contatos com vários assistentes sociais, médicos, funcionários de hospitais e policiais, e ambas permaneceram intactas apesar das evidências perturbadoras, e até mesmo gritantes, de graves maus-tratos.

Muitos questionam por que ninguém interveio quando os sinais de alarme pareciam tão óbvio.

"As pessoas desejam saber como tais abusos puderam persistir por tanto tempo sem que as autoridades e os serviços públicos os descobrissem e agissem", disse nesta semana o primeiro-ministro Gordon Brown ao parlamento, falando do caso no qual as mulheres foram vítimas dos abusos do pai. "Se o sistema tiver falhado e houver mudanças a serem feitas, nós modificaremos o sistema".

Ao mesmo tempo, os casos também expõem as dificuldades em um sistema que, segundo os críticos, padece de uma grave carência de funcionários e é excessivamente burocrático. Ao falar do caso do bebê, Ian Johnston, diretor-executivo da Associação Britânica de Assistentes Sociais, advertiu que o governo não deve "procurar bodes expiatórios".

"Em vez disso, a investigação deve concentrar-se nas questões cruciais relativas à alta rotatividade de funcionários dedicados a serviços sociais de proteção à criança, número excessivo de casos por funcionário, dependência excessiva dos funcionários das agências, falta de supervisão por funcionários muitas vezes inexperientes ou temporários e uma obsessão sistêmica pela entrada de informações em um banco de dados em detrimento do tempo efetivamente passado com as crianças sob risco", disse ele.

A lei britânica impõe severas restrições à divulgação e ao anúncio de detalhes nos casos jurídicos referentes a famílias. Como resultado, no Reino Unido é bem mais difícil conhecer os detalhes do que, por exemplo, no caso de Josef Fritzl, o austríaco que manteve a filha trancada em um porão durante 24 anos, tendo sete filhos com ela.
Mas os depoimentos em ambos os julgamentos revelaram não apenas abusos horríveis, mas também uma falha total da rede de segurança que deveria proteger crianças vulneráveis.

A população ouviu falar pela primeira vez do caso de Baby P. - conforme ele é identificado no tribunal -, de 17 meses, quando a mãe, o namorado dela e um hóspede da casa em que moravam em Haringey, na zona norte de Londres, foram a julgamento neste mês por terem assassinado o bebê. Descobriu-se que Baby P. teve contato com assistentes sociais, médicos, a polícia e agências de proteção à criança pelo menos 60 vezes em um período de oito meses no qual ele sofreu pelo menos 50 ferimentos e contusões. O nome dele foi colocado em um arquivo destinado à monitoração de casos de alto risco.

A mãe de Baby P. foi detida e interrogada diversas vezes pela polícia, depois que médicos descobriram hematomas, inchaços e arranhões suspeitos no corpo do bebê. Ela certa vez enganou uma assistente social que visitou a sua residência, escondendo os ferimentos de Baby P. com chocolate.

Em determinado momento, uma assistente social recomendou que o neném fosse colocado em um internato. Mas as leis britânicas referentes à famílias determinam que deve-se fazer todo o esforço possível para deixar as crianças com amigos ou parentes, e Baby P. foi enviado para a casa de um amigo da família, onde ficou cinco semanas, e depois voltou para casa.

Ele foi encontrado morto no seu berço manchado de sangue em agosto de 2007. Um patologista que o examinou mais tarde descobriu que ele teve a coluna e oito costelas fraturadas, que engoliu um dente após ter sido atingido violentamente na cabeça e que faltavam algumas unhas nos seus dedos. O patologista afirmou que jamais presenciou tanto estrago feito em uma criança.

O outro caso foi conhecido quando as duas mulheres reclamaram formalmente em junho deste ano, após quase 30 anos de abusos. Elas disseram que o pai começou a espancá-las, estuprá-las e ameaçá-las quando ainda eram crianças. Abandonadas pela mãe, que também foi vítima de abusos, elas mais tarde ficaram grávidas 19 vezes. Em algumas ocasiões elas perderam naturalmente os filhos; em outras fizeram abortos quando os testes pré-natais revelaram anomalias nos fetos. Dois bebês morreram durante o parto.

O pai conseguiu manter os abusos em segredo mudando-se freqüentemente em South Yorkshire e em Lincolnshire, instalando-se em cidadezinhas remotas e limitando o contato com pessoas de fora. Ele batia nas mulheres com as mãos, os pés e um cinto, e chegou a submeter a filha mais nova a queimaduras. Além disso ele avisou que se elas procurassem a polícia, perderiam os filhos.

As mulheres, ou outros membros da família, chegaram a procurara ajuda algumas vezes. O irmão mais velho das duas, que saiu de casa quando tinha 15 anos de idade, denunciou o pai à polícia, mas, segundo as autoridades, as mulheres negaram que ele era o pai das crianças. Quando a questão da paternidade era levantada pelos médicos, elas alegavam que o pai dos bebês era uma outra pessoa.

Alan Goldsack, o juiz no julgamento, disse ao tribunal que este é o pior caso que ele já viu em 40 anos de direito criminal. "Inevitavelmente vai-se questionar o que os profissionais da área de assistência social e de medicina estiveram fazendo nos últimos 20 anos", afirmou Goldsack. UOL

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