UOL Notícias Internacional
 

28/11/2008

Krugman: para que não esqueçamos

The New York Times
Paul Krugman
Há poucos meses eu me vi em um encontro de economistas e autoridades financeiras, discutindo - o que mais? - a crise. Houve muita auto-análise. Um importante autor de políticas perguntou: "Por que nós não vimos que isso estava para acontecer?"

Havia, é claro, apenas uma coisa a dizer em resposta, então eu disse: "O que você quer dizer com 'nós', cara pálida?"

Falando sério, o funcionário do governo tinha razão. Algumas pessoas dizem que a atual crise é sem precedente, mas a verdade é que houve muitos precedentes, alguns deles bem recentes. Mas os precedentes foram ignorados. E a história de como "nós" fracassamos em ver que isso estava para acontecer tem uma clara implicação política - especificamente a de que a reforma do mercado financeiro deve ser feita rapidamente, que não deve esperar até que a crise seja resolvida.

Quanto aos precedentes: Por que tantos observadores negaram os sinais óbvios de uma bolha imobiliária, apesar da bolha das empresas pontocom dos anos 90 ainda estar tão fresca em nossa memória?

Por que tantas pessoas insistiam que nosso sistema financeiro era "resistente", como colocou Alan Greenspan, quando em 1998 o colapso de um único fundo hedge, o Long-Term Capital Management, paralisou temporariamente os mercados de crédito em todo o mundo?

Por que quase todo mundo acredita na onipotência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), quando seu par, o Banco do Japão, passou uma década tentando e fracassando em reativar uma economia estagnada?

Uma resposta para estas perguntas é que ninguém gosta de um estraga-prazeres. Enquanto a bolha imobiliária estava inflando, os emprestadores estavam ganhando muito dinheiro concedendo hipotecas para qualquer um que entrasse por suas portas, bancos de investimento estavam ganhando ainda mais dinheiro reempacotando essas hipotecas em novos ativos reluzentes; e os grandes administradores de capital que registravam grandes lucros comprando esses papéis com dinheiro emprestado pareciam gênios, e eram remunerados de acordo. Quem queria ouvir alertas de economistas funestos de que a coisa toda era, na prática, um esquema de Ponzi gigante?

Também há outro motivo para o establishment de política econômica ter fracassado em ver a atual crise se aproximando. As crises dos anos 90 e dos primeiros anos desta década deveriam ter sido vistas como presságios agourentos, como alertas de problemas ainda piores a caminho. Mas todos estavam ocupados demais celebrando nossas vitórias sobre essas crises para perceber.

Considere, em particular, o que aconteceu após a crise de 1997-1998. Esta crise mostrou que o sistema financeiro moderno, com seus mercados desregulamentados, agentes altamente alavancados e fluxos globais de capital, estava se tornando perigosamente frágil. Mas quando a crise cedeu, a ordem do dia era triunfalismo, não auto-análise.

A revista "Time" famosamente chamou Greenspan, Robert Rubin e Lawrence Summers de "O Comitê para Salvar o Mundo" - os "Três Mosqueteiros" que "impediram o colapso global". Na prática, todos declararam uma festa da vitória para nosso recuo da beira do abismo, ao mesmo tempo se esquecendo de perguntar como fomos parar tão perto da beira do abismo.

De fato, tanto a crise de 1997-1998 quanto o estouro da bolha pontocom provavelmente tiveram efeitos perversos, tornando tanto investidores quanto as autoridades mais complacentes, e não menos. Como nenhuma das crises esteve à altura de nossos piores temores, como nenhuma levou a outra Grande Depressão, os investidores passaram a acreditar que Greenspan tinha o poder mágico de resolver todos os problemas - assim como, é possível suspeitar, o próprio Greenspan, que era contrário a todas as propostas para regulamentação prudente do sistema financeiro.

Agora nós estamos no meio de outra crise, a pior desde os anos 30. Por ora, todos os olhos estão voltados para a resposta imediata para esta crise. Será que os esforços cada vez mais agressivos do Fed para descongelar os mercados de crédito finalmente chegarão a algum lugar? Será que o estímulo fiscal do governo Obama reverterá o quadro de produção e emprego? (A propósito, eu ainda não sei ao certo se a equipe econômica está pensando grande o bastante.)

E por estarmos todos tão preocupados com a atual crise, é difícil nos concentrarmos nas questões a longo prazo - em refrear nosso sistema financeiro fora de controle, para prevenir ou pelo menos limitar a próxima crise. Mas a experiência da última década sugere que deveríamos nos preocupar com a reforma financeira, acima de tudo com a regulamentação do "sistema bancário paralelo" no coração da atual confusão, mais cedo do que tarde.

Pois assim que a economia estiver no caminho da recuperação, pessoas começarão a ganhar dinheiro fácil novamente - e farão lobby contra qualquer um que tente limitar seus lucros. Além disso, o sucesso dos esforços de recuperação parecerá algo predeterminado, apesar de não ter sido, e urgência da ação se perderá.

Então eis aqui o meu apelo: apesar da agenda do próximo governo já estar bem cheia, ele não deveria adiar a reforma financeira. O momento para começar a prevenir a próxima crise é agora. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h39

    -0,07
    3,250
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h48

    0,25
    74.778,54
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host