UOL Notícias Internacional
 

30/11/2008

Esconderijo com um papel na história está à venda

The New York Times
Julia Werdigier
Em Londres
À venda: um vasto complexo de túneis no centro de Londres. Entre os ex-inquilinos incluem o serviço secreto britânico, a famosa linha telefônica de emergência entre os Estados Unidos e a União Soviética durante a Guerra Fria e 400 toneladas de documentos do governo. O preço pedido é de US$ 7,4 milhões.

Após anos abandonado sob as ruas congestionadas da cidade, o complexo de túneis - mais de um quilômetro e meio de corredores subterrâneos e salas adjacentes - agora está à venda pelo BT Group, a maior companhia telefônica do Reino Unido. A BT espera que as características especiais do local atraiam compradores, apesar do mercado de imóveis na superfície estar passando pela maior retração em décadas.

Parecendo mais um cenário de filme de James Bond do que um imóvel, o complexo ainda conta com um bar e duas cantinas, não em uso, e uma sala de bilhar, sem contar serviço de água e esgoto e eletricidade.

Os túneis foram construídos durante a Segunda Guerra Mundial como abrigos de bombas para cerca de 8 mil pessoas e foram projetados para permitir que sobrevivessem por cinco semanas isoladas do mundo exterior.

Uma variedade eclética de interessados perguntou sobre o espaço, incluindo um bilionário estrangeiro à procura de um lugar para realizar suas reuniões de conselho diretor. Outros que expressaram interesse incluem aqueles à procura de um lugar para sua coleção de vinhos, a polícia de Londres e empresas locais de eletricidade, disse Niall Gallagher, o corretor imobiliário da Farebrother Chartered Surveyors encarregado de encontrar um comprador adequado.

"É um lugar estranho e maravilhoso", disse Gallagher. "Ele realmente conquistou a imaginação das pessoas. Há muitas sondagens e recebemos uma ou duas ofertas interessantes."

Os túneis foram construídos em 1940 durante a blitz, quando o Reino Unido sofria constantes ataques aéreos da Alemanha nazista. O governo decidiu criar oito abrigos de bombas em Londres, já que as estações de metrô da cidade não eram grandes o bastante para acomodar todos aqueles em busca de refúgio.

Mas os túneis da BT, e um outro, nunca foram usados pela população porque o governo precisou deles para suas próprias operações. Os túneis da BT logo se tornaram uma base temporária para as tropas antes do Dia D, enquanto outro túnel foi transformado em quartel-general europeu do general Dwight D. Eisenhower.

Em 1944, os túneis se transformaram na base a partir da qual os Aliados ajudavam os movimentos de resistência nos países ocupados pelos nazistas. Membros do serviço secreto, em escritórios equipados com telefones e teletipos e escondidos sob as ruas devastadas pela guerra, ajudavam a coordenar até 10 mil homens e mulheres reunindo apoio contra o regime nazista por toda a Europa.

Após a guerra, a rede de túneis se transformou em um importante centro de operações para a empresa antes conhecida como British Telecommunications. Nos últimos anos, entretanto, a BT tem usado o espaço principalmente como depósito. A empresa decidiu colocar os túneis à venda há poucas semanas.

Apesar de alguns poderem fantasiar sobre comprar o espaço e viver uma vida secreta em um mundo subterrâneo cavernoso, repleto de dispositivos dignos da Batcaverna, a realidade provavelmente seria mais dura.

O ar é seco, quente e parado. A constante trepidação dos trens do metrô de Londres que correm por um sistema de túneis separado a uma pequena distância acima e o som dos sistemas de ventilação gigantes tornam os túneis um ambiente barulhento.

Transformar os túneis em um clube noturno ou hotel está fora de questão, porque são ligados ao mundo externo apenas por dois elevadores; mesmo um pequeno incêndio seria difícil de ser combatido.

Os túneis são fechados ao público, mas as pessoas que trabalham lá, principalmente na manutenção, entram por meio de uma discreta porta de ferro na Furnival Street, um trecho tranqüilo atrás da movimentada Chancery Lane, perto do Tribunal Real de Justiça e não distante do Rio Tâmisa. Fora um velho guindaste industrial fixado à fachada de um prédio sem janelas, nada indica o vasto labirinto subterrâneo sob ele.

A história dos túneis lhes confere uma aura de mistério, mantida viva pelo punhado de funcionários da BT que ainda trabalham lá.

Segundo David Hay, um historiador da BT, diz a lenda que o governo queria manter a localização dos túneis tão secreta que contratou trabalhadores estrangeiros, sem conhecimento das ruas de Londres, para construí-los. Os funcionários da BT ainda estão sob ordens rígidas de não revelar a exata localização do sistema, apesar de mapas incompletos terem aparecido na Internet.

"Nós não sabemos que uso o futuro proprietário dará a eles, então não podemos revelar mais informação", disse David Hembra, um dos funcionários de manutenção que atualmente visitam os túneis várias vezes por semana, para verificar vazamentos de gás e outros problemas.

Quando Hembra começou a trabalhar nos túneis há 10 anos, seus anos de importância já tinham ficado para trás e pouco restava dos dias turbulentos da Segunda Guerra Mundial. Os escritórios foram removidos após o término da guerra, quando os novos inquilinos se mudaram para lá. O arquivo público britânico precisava de espaço para armazenar mais de 400 toneladas de documentos.

Mas não demorou muito para que os documentos tivessem que ser transferidos de novo, para abrir espaço para uma central telefônica internacional segura, que o governo considerava necessária à medida que as relações entre Washington e Moscou se tornavam tensas. Durante a Guerra Fria, o governo britânico instruiu seu departamento de telefonia, que posteriormente se tornou a BT, a estabelecer um sistema secreto de comunicações baseado na mais recente tecnologia, algo que seria capaz de sobreviver a um ataque nuclear.

Foi o início do período mais agitado dos túneis, com quase 200 funcionários passando dias e noites no subsolo para rotear até 2 milhões de ligações por 6.600 linhas telefônicas. Em 1963, foi estabelecida uma linha de emergência entre Moscou e Washington, após a crise dos mísseis em Cuba, que passava pelos túneis de Londres.

O complexo movimentado logo se tornou conhecido como "cidade subterrânea", com sua própria sala de recreação, completa com alvos de dardos e mesas de bilhar, um cinema e dois refeitórios. Os trabalhadores freqüentemente passavam a noite em dormitórios.

No início dos anos 80, a tecnologia avançou tanto que a central telefônica dos túneis se tornou obsoleta, e os técnicos da BT a transferiram para a superfície.

Hoje, qualquer um que percorrer os vastos corredores ainda será lembrado de seu lugar na história, com um banco de cabos telefônicos situado ao lado de geradores elétricos colossais dos anos 60. Vestígios daquela vida estão visíveis em meio à parede marrom e laranja que decora o antigo bar, fotos coloridas do mundo acima no restaurante e uma cozinha de cantina equipada com aparelho para descascar batata, lava-louça e uma lousa de cardápio oferecendo salsichas e ervilhas.

"Nos meses de inverno, se você não subisse na hora do almoço, você não via a luz do dia", escreveu John Warrick, um ex-funcionário, no site Subterranea Britannica, lembrando de seus dias nos túneis. "A vida lá embaixo era como viver em um submarino." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    1,02
    3,178
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,90
    67.976,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host