UOL Notícias Internacional
 

30/11/2008

O terrorismo pessoal

The New York Times

Por Nicholas D. Kristof
Islamabad, Paquistão - O terrorismo nessa parte do mundo significa normalmente bombas explodindo ou hotéis queimando, como atestam as últimas cenas horríveis de Mumbai. Entretanto, paralelamente ao brutal terrorismo público que enche as telas da televisão, há uma forma de terrorismo igualmente cruel que não recebe quase nenhuma atenção e por esse motivo se espalha: jogar ácido no rosto de uma mulher para deixá-la feia e deformada.

Tenho investigado esses ataques de ácido aqui no Paquistão, que são comumente usados para aterrorizar e subjugar as mulheres e meninas numa faixa da Ásia que vai desde o Afeganistão até o Camboja (os homens quase nunca são atacados com ácido). Porque as mulheres normalmente não têm importância nessa parte do mundo, seus agressores raramente são processados e as vendas de ácido normalmente não são controladas. É um tipo de terrorismo que acaba sendo aceito como parte do barulho de fundo na região.

Este mês, no Afeganistão, homens de moto jogaram ácido num grupo de garotas que ousaram ir para a escola. Uma das meninas, uma jovem de 17 anos chamada Shamsia, disse aos repórteres em seu cama no hospital:
"Eu irei para a escola mesmo que eles me matem. Minha mensagem para os inimigos é que mesmo que eles façam isso 100 vezes, eu ainda continuarei com os meus estudos".

Quando encontrei Naeema Azar, uma mulher paquistanesa que já foi uma agente imobiliária atraente e autoconfiante, ela usavam um véu preto que cobria sua cabeça e rosto. Quando ela tirou o lenço, eu recuei de susto.

O ácido havia queimado sua orelha esquerda e a maior parte da orelha direita. Deixou-a cega, sem pálpebras, e sem a maior parte do rosto, deixando apenas osso.

Seis enxertos com pele de sua perna ajudaram, mas ela ainda não consegue fechar os olhos ou a boca; ela não come na frente dos outros porque é muito humilhante quando a comida escorrega para fora enquanto ela mastiga.

"Olhe para Naeema, ela perdeu os olhos", suspirou Shahnaz Bukhari, uma ativista paquistanesa que fundou uma organização para ajudar essas mulheres, e que estava prestes a chorar. "Ela me faz chorar toda vez que aparece na minha frente".

Azar ganhava um bom salário e estava sustentando seus três filhos pequenos quando decidiu se divorciar do marido, Azar Jamsheed, um vendedor de frutas que raramente levava dinheiro para casa. Ele concordou em terminar com o casamento (arranjado) porque estava interessado em outra mulher.

Depois do divórcio, Jamsheed veio se despedir das crianças, e então sacou uma garrafa e derramou ácido no rosto de sua mulher, de acordo com o depoimento dela e do filho.

"Eu gritei", lembra-se Azar. "A carne das minhas bochechas estava caindo. Dava pra ver os ossos do meu rosto, e toda minha pele estava caindo".

Os vizinhos vieram correndo, conforme saia fumaça da carne que queimava em seu rosto e ela corria cegamente, batendo contra as paredes. Jamsheed nunca foi preso, e desde então desapareceu. (Eu não consegui encontrá-lo para que ele contasse o seu lado da história).

Azar sobreviveu com a caridade de amigos e com o apoio do grupo de Bukhari, a Associação Progressista das Mulheres (www.pwaisbd.org).
Bukhari está levantando dinheiro para pagar um advogado e pressionar a polícia a processar Jamsheed, e pagar pela cirurgia de olhos que - com um cirurgião talentoso - pode restaurar a visão de um dos olhos.

Bangladesh impôs controles sobre as vendas de ácido para evitar esse tipo de ataque, mas no geral é bem fácil entrar numa loja qualquer na Ásia e comprar ácido sulfúrico ou hidroclorídrico, que servem para destruir um rosto humano.

Ataques de ácido e episódios de mulheres queimadas são comuns em parte da Ásia porque as vítimas são as mais silenciosas dessas sociedades:
elas são mulheres e pobres. O primeiro passo é o mundo simplesmente perceber o que está acontecendo, e dar voz a essas mulheres.

Desde 1994, Bukhari documentou 7.800 casos de mulheres que foram deliberadamente queimadas, escaldadas ou sujeitas a ataques de ácido, apenas na área de Islamabad. Em apenas 2% dos casos alguém foi condenado.

Durante os últimos dois anos, os senadores Joe Biden e Richard Lugar vêem defendendo um Ato contra a Violência Internacional Contra a Mulher, que adotaria uma série de medidas para denunciar essa brutalidade e pressionar os governos para prestarem atenção a isso.
Esperemos que a nova influência de Biden ajude a aprovar a lei no novo Congresso.

Isso pode ajudar a acabar com o silêncio e a cultura de impunidade em torno desse tipo de terrorismo.

A parte mais assustadora da minha visita a Azar, além de ver seu rosto, foi um comentário do seu filho de 12 anos de idade, Ahsan Shah, que amorosamente a leva a todos os lugares. Ele me disse que numa casa em que eles passaram um tempo depois do ataque, o homem que morava no andar de cima costumava bater em sua mulher todo dia e ameaçá-la,
dizendo: "Você está vendo a mulher lá debaixo que foi queimada pelo marido? Eu vou queimá-la exatamente do mesmo jeito..." Eloise De Vylder

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