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01/12/2008

Equipe de Obama não é exatamente um rompimento com o passado

The New York Times
Por Bem Stein
Assisti com uma sensação tanto de satisfação quanto de apreensão o anúncio das equipes econômica e financeira do presidente-eleito Barack Obama na semana passada.

Antes de mais nada, sou o fã mais ardoroso de Paul A. Volcker e Lawrence Summers no mundo, mas fiquei um tanto intrigado com a escolha de Timothy F. Geithner para secretário do Tesouro.

Durante a campanha presidencial, ouvi Obama falar muitas vezes sobre a "mudança em que se pode acreditar". Mas o que Geithner tem a ver com mudança?

Ele é um carreirista notável das antigas finanças, e foi um elemento fundamental da equipe que nos colocou nessa bagunça. Ele foi a favor da desregulação durante a maior parte de sua carreira.

Ele compactuou com o fracasso para resgatar o Lehman Brothers, decisão hoje considerada de modo geral como um erro catastrófico. Ele liderou o Federal Reserve Bank de Nova York quando os bancos estatais cometeram erros fatais de administração de risco - e não fez nada para evitar isso, pelo menos que se saiba.

Em que sentido ele é a "mudança em que se pode acreditar"? Como ele pode ser parte da solução, e não parte do problema? Sei que ele é um protegido de Robert E. Rubin. Mas o próprio Rubin não é a essência do eixo financeiro de poder Washington-Nova York?

Ele foi um ótimo secretário de Tesouro quando o boom tecnológico tornou tudo novo, mas o Citigroup não exatamente prosperou durante sua gestão. De novo, onde está a mudança?

Não são apenas as escolhas pessoais de Obama que precisam ser observadas, mas também o que ele disse sobre seus programas econômicos. As obras públicas parecem ser a peça central de seu esforço para sacudir a economia e colocá-la de volta em marcha.

Mas lembrem-se do histórico de tentativas nacionais de "sacudir" a economia dessa forma. Em uma palavra, o sucesso é limitado.

Programas do New Deal como a Administração Obras e Progresso e Corpos Civis de Conservação foram bastante visíveis mas realizaram pouco numa escala macro.

Sim, eles empregaram centenas de milhares de pessoas, e isso foi ótimo. Eles construíram postos de correio e pontes. Mas criaram um atrito com os sindicatos porque pagavam salários aquém do piso.

O novo governo estará preparado para exigir que os empregados das obras públicas sejam membros de sindicatos? Se sim, de qual sindicato?

Não importa como o governo lide com isso, alguém ficará infeliz. Se os trabalhadores se filiarem aos sindicatos, isso custará um dinheiro de verdade, e se não forem, provocará a revolta. As empresas não gostarão que os salários aumentem numa região que floresceu com salários baixos.

Mas o principal é que as obras públicas, exceto numa escala verdadeiramente gigantesca, não funcionam de fato para estimular a economia.

A estratégia não funcionou no Japão durante a "década perdida" dos anos 90. Também não funcionou aqui durante a Depressão. O desemprego continuou alto às vésperas de Pearl Harbor e da entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial.

Muitos economistas conceituados acreditam que, ao provocar a rigidez de salários e preços, o New Deal na realidade prolongou a Depressão.
Eu não tenho certeza se isso se sustenta, mas as causas têm muitos efeitos, nem todos bem-vindos.

Novamente, entretanto, se as obras públicas funcionarem, elas terão que ser do mesmo porte do rearmamento que aconteceu durante a guerra, caso haja uma depressão real. Foi necessário um aumento enorme nos gastos federais à medida que entramos na guerra para nos levar para o emprego total.

Obviamente, não estamos numa situação nem mesmo parecida com a Grande Depressão. Mas mesmo em recessões menores, não há evidências claras de que as obras públicas - apesar de poderem ser desejáveis por si só - possam nos levar a qualquer coisa parecida com o emprego total.

E como o dinheiro para as obras públicas será gasto? Há poucas indicações de que gastar mais em prédios escolares resulta em uma educação melhor. Ofereço o querido Distrito de Columbia como exemplo:
gastos super altos, resultados super pobres.

Além disso, vejo com muito alarme a intenção de Obama de fazer cortes nos gastos do governo. Baseado em comentários ao longo de sua carreira, suspeito que esses cortes possam ser no setor militar.

É importante pesar quão perigoso é o mundo em que vivemos antes de reduzir os fundos para uma força militar que hoje já é inadequada.

Mas também vejo que numa economia em depressão, a última coisa que precisamos são cortes de despesas em qualquer lugar, exceto onde há fraude, esbanjamento ou abuso - esses demônios familiares que seguem as campanhas. Em tempos ruins, queremos déficits grandes e muito gasto do governo.

Ler todas as linhas do orçamento para procurar cortes possíveis, é, primeiramente, impossível para um homem só (o orçamento tem muitas
linhas) e, segundo, uma perda de tempo para um líder.

O presidente que se debruçou sobre o orçamento linha a linha, Jimmy Carter, obteve resultados que o país pode não querer repetir.

Do ponto de vista positivo, Obama terá alguns ótimos economistas em sua equipe, incluindo Summers, o poderoso Volcker e Christina D. Romer da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Eles podem ajudar a descobrir o que funciona e o que é ilusão. Por enquanto, a iminência da nova equipe já está impelindo a equipe de governo atual a lançar um estímulo monetário gigantesco. Isso terá um impacto enorme e que demorará a ser superado.

É um alívio saber que teremos uma equipe, a equipe de Obama, que tem um plano e que fará alguma coisa, e que está instigando Henry Paulson e Bem Bernanke à ação.

A própria experiência de Obama é limitada, mas com uma equipe como essa, tenho esperança, e de sobra.

* Ben Stein é advogado, escritor, ator e economista. Eloise De Vylder

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