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01/12/2008

O projeto de prestígio da fábrica da Ferrari

The New York Times
John Tagliabue
Em Maranello, Itália
Atravessar o portão dos fundos da oficina automotiva da Ferrari aqui e caminhar pela Viale Enzo Ferrari é como entrar em um museu de arquitetura. À esquerda há um túnel de vento projetado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, um emaranhado gigante de imensos tubos e cubos cinza onde são testadas as propriedades aerodinâmicas dos automóveis barulhentos, nervosos e caros.

À direita está a área de finalização dos motores e outros componentes, projetada por Marco Visconti - três conjuntos de blocos gigantes de vidro flutuando sobre a grama.

Mais adiante fica o novo hall de montagem, projetado por Jean Nouvel, o arquiteto francês que ganhou o Prêmio Pritzker este ano, em metal brilhante e vidro espelhado. Um dos lados dá de frente para uma parede de tijolos da antiga oficina da Ferrari, construída nos anos 40 por Enzo Ferrari, que começou a fazer seus carros esportivos depois da 2ª Guerra Mundial. À noite, a cor avermelhada da velha parede fica iluminada, espalhando um brilho vermelho misterioso sobre a criação de Nouvel.

Stefano Goldberg/RPBW via The New York Times 
Túnel do vento da Ferrari desenhado por Renzo Piano em Maranello

"Tínhamos três objetivos", diz Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Ferrari, que passou a contratar arquitetos famosos, começando com Piano, em 1997. "Queríamos renovar a organização da Ferrari, eliminar a divisão entre séries A e B entre nossos empregados, e manter, em vez de perder, o espírito da Ferrari".

Sentado atrás de uma grande mesa vermelha coberta com couro vermelho, Montezemolo acrescentou: "Mas - repito, mas - há uma grande ligação com nossa tradição, nossa cultura, nosso DNA. A Ferrari não é um carro, é um sonho, e os ingredientes devem permanecer inovadores".

A Ferrari não é a única indústria de carros a enfatizar uma marca e sustentar a afirmação do estilo luxuoso através da inovação do projeto da fábrica. A Volkswagen contratou o arquiteto Gunter Henn para projetar uma fábrica incomum de vidro em Dresden, na Alemanha, onde ela monta o modelo top de linha Phaeton. Nos arredores de Leipzig, na Alemanha, a Porsche também tem um prédio especial, projetado pela firma de arquitetura von Gerkan, Marg & Partners, de Hamburgo. A BMW contratou a arquiteta londrina Zaha Hadid, também ganhadora do Prêmio Pritzker, para projetar uma fábrica em Leipzig.

O que destaca o projeto da Ferrari é sua ambição de reconstruir toda a fábrica da Ferrari, desde a fundição dos blocos de motor até a planta final de montagem, e não um só prédio, de acordo com o projeto de arquitetos famosos. Além disso, o projeto está chegando à sua conclusão no mesmo momento em que a crise financeira global, que varrerá boa parte do dinheiro que antes comprava Ferraris, está destruindo o mercado de automóveis.

Montezemolo diz que com crise ou sem crise, a Ferrari continuará na frente. "Acredito, apesar de não ser uma visão comum, que a crise será rápida, e salutar", disse. "Os banqueiros, sobretudo os banqueiros americanos, foram gananciosos, e colocaram seus negócios sobre uma base não muito sólida, com uma valorização excessiva. Agora demos um passo atrás para condições melhores. Daremos dois passos para a frente, e isso não é tão ruim".

No ano passado a Ferrari vendeu cerca de 6.400 carros, incluindo 1.761 nos Estados Unidos e Canadá. Nos primeiros oito meses desse ano, as vendas aumentaram quase 25%, para 4.953. Mas se as vendas devem esfriar em mercados tradicionais, como os Estados Unidos, a Ferrari está rapidamente abrindo novos mercados. Ela entrou na China em 2004, e no ano passado vendeu 200 carros lá. "Sempre haverá 6 mil pessoas no mundo que vão querer uma Ferrari", disse Montezemolo.

Os resultados da Ferrari são uma boa notícia para sua companhia irmã, a Fiat. Apesar da Ferrari somar apenas 6% da renda total da Fiat, ela gera mais de 26% de seus lucros.

Especialistas dizem que os projetos arquitetônicos são parte importante da estratégia de Montezemolo para posicionar a Ferrari na vanguarda do mercado de bens de luxo.

"Cada vez mais os arquitetos estão desempenhando um papel em relação aos bens de luxo", diz Armando Branchini, cuja firma de consultoria, InterCorporate, aconselha essa estratégia às companhias de bens de luxo. Piano, diz ele, projetou uma loja de marca da Hermes em Tóquio; os escritórios e showrooms do costureiro Ermenegildo Zegna em Milão foram projetados por Antonio Citterio.

Há arquitetos famosos até mesmo para os vinhos finos. A renomada Petra Winery, na Toscana, foi projetada pelo arquiteto suíço Mario Botta, que também projetou o Museu de Arte Moderna de São Francisco; Piano projetou a fábrica de vinhos Rocca de Frassinello, também na Toscana, que abriu no ano passado.

Apesar de bem mais ambicioso que os outros, o projeto de dez anos da Ferrari foi feito com a intenção "de convencer as pessoas sobre o fato de eles serem inovadores", diz Branchini. "Até alguns anos atrás, as pessoas pensavam no luxo como sendo o corpo; agora há uma espécie de extensão desse espaço, e essa é a razão pela qual o apartamento, a casa, é mais importante, e muitos compram carros, barcos, jatos executivos".

Montezemolo seguiu o restante da indústria de bens luxuosos, democratizando a variedade de produtos da Ferrari, e ganhando dinheiro com o magnetismo do nome da Ferrari e do logotipo do cavalo empinado para oferecer uma ampla variedade de produtos exclusivos das lojas da Ferrari para os consumidores, a preços bem mais baixos do que o de seus carros, que podem custar mais de US$ 200 mil.

Ao fazer isso, A Ferrari transformou seus carros e componentes em obras de arte. A Ferrari abriu sua primeira loja, em Milão, em 2004.
Agora ela tem 20, incluindo quatro nos Estados Unidos, e planeja abrir mais.

Mas ele não gosta da comparação com o luxo. "Luxo, para mim, é gastar em coisas pela estética, pela cor. Nós montamos carros", diz.

Na loja do lado oposto ao portão principal da Ferrari - original, em stucco avermelhado, que Enzo Ferrari construiu - você pode comprar um boné por US$ 10. Mas um pistão de carro que foi usado numa corrida de Fórmula Um custa US$ 1.025, para ser usado como peso de papel ou decoração. Um pistão cromado, ideal como escultura, é vendido por US$ 5.165; um bloco de motor de 10 cilindradas, também uma escultura, sai por US$ 70.800.

"A Ferrari faz muito sucesso", diz Branchini. "Peças de carro enquanto peças de arte".

Agora a Ferrari está querendo ir além. Ela licenciou sua marca para desenvolvedores em Abu Dhabi, que estão construindo uma pista de corrida de Fórmula 1 na Ilha Yas, no litoral da cidade no Golfo Pérsico, que deve ser inaugurada em 2009, e um parque temático da Ferrari também deve ser aberto no ano que vem. Por enquanto, dizem os executivos da Ferrari, cerca de 20% de seu lucro vêm de atividades e artigos de marca.

A Ferrari escolheu o arquiteto francês Jean-Michel Wilmotte para projetar os escritórios de administração de suas atividades de Fórmula 1, o projeto ainda está na etapa de planejamento.

O envolvimento de arquitetos de renome, diz Chris Hibbs, que lidera o grupo automotivo na PricewaterhouseCoopers na Inglaterra, "é o que os consumidores esperam, depois da ampliação da marca da Ferrari nos últimos anos".

Mas a arquitetura não diz respeito somente a estilo e estética. No centro de maquinário, onde os blocos de motor que acabam de sair da fundição são acabados antes da montagem, o arquiteto Marco Visconti "procurou aliar as demandas da arquitetura moderna com as nossas necessidades", diz Luigi Bonezzi, que é responsável por administrar o prédio. Os novos prédios, diz ele, conservam energia ao usar painéis solares e sistemas de trigeração, que produzem eletricidade, calor e resfriamento simultaneamente a partir de uma única fonte de energia, como um gerador a gás. Eles também adotaram em grande escala o uso de jardins internos para aumentar a produtividade, lá os funcionários podem se encontrar para reuniões ou simplesmente descansar entre turnos.

O prédio da administração desenhado por Massimiliano Fuksas, mais conhecido pelo futurístico Milan Fairgrounds de 2005, feitos de aço e vidro, parece flutuar de um jeito zen sobre espelhos d'água com fundo de pedras, interrompidos por feixes de bambu, para estimular a criatividade.

Freqüentemente, entretanto, o aumento na produtividade vem do interior dos prédios e não da sua aparência externa. O planejamento da planta de montagem de Nouvel, onde a Ferrari construirá seu novo modelo Califórnia de 8 cilindros e também um modelo de 12 cilindros que está no estágio de elaboração, passou por pelo menos três etapas conforme o arquiteto e os executivos da Ferrari debatiam questões como onde construir a planta e se ela deveria ter um ou dois níveis.

Na sua configuração final, diz Amedeo Felisa, diretor-executivo da Ferrari, as equipes de montagem terão 20% mais espaço para trabalhar do que na antiga planta, e irão fazer 60% de movimentos a menos para fazer as mesmas tarefas.

O aumento na produtividade e a redução dos custos de energia, diz Felisa, permitiu à Ferrari recuperar dentro de dois anos o custo extra de contratar arquitetos de renome.

Candidatos a donos de Ferraris com freqüência são levados para um tour pela fábrica para ver de perto como o carro que estão comprando é montado.

Num final de semana recente, Philip Saunders, um vendedor de Ferrari de Exeter, Inglaterra, acompanhou um grupo de mais ou menos 50 compradores. Eles passearam pelos novos prédios da Ferrari e estavam prestes a ir para a pista da companhia para dirigirem uma Ferrari.

Se eles ficaram impressionados pelo show de arquitetura? "Sim, acredito que sim", disse Saunders. "Mas eles ficaram mais impressionados pelo portão original do prédio de Enzo Ferrari". Eloise De Vylder

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