UOL Notícias Internacional
 

01/12/2008

Um novo legado para os desertores da 1ª Guerra na Bélgica

The New York Times
John Tagliabue
Em Ypres, Bélgica
Noventa anos depois que terminou, a 1ª Guerra Mundial ainda paira sobre esta pequena cidade flamenga, que foi um ponto central de massacre durante a Grande Guerra, como era chamada quando as pessoas ainda achavam que aquela seria a última. Monumentos para os mortos de guerra se espalharam como cogumelos depois do armistício, mas levou cerca de 85 anos para que um monumento fosse erigido para um grupo diferente de mortos: os soldados executados pelo seu próprio lado, por se recusarem a continuar a lutar.

A oito quilômetros de Ypres, num pátio silencioso da cidade de Poperinge, há um poste parecido com os que são usados para sustentar os galhos sinuosos do lúpulo, planta comum na região. Ele tem mais ou menos a altura de um homem. Logo atrás está uma placa de aço gravada com um verso de Rudyard Kipling: "Eu não podia olhar para a morte, sabendo disso, os homens me levaram até ela, vendado e sozinho".

Conforme a guerra que parecia interminável se arrastava, a deserção e a imunidade das tropas tornavam-se um problema cada vez maior. Para combatê-lo, os comandantes começaram a amarrar os desertores e as tropas imunes a postes como este, onde eles eram executados pelo pelotão de artilharia. Os britânicos mataram 320 homens e os franceses chegaram aos 700. Os alemães, por sua vez, mataram cerca de 50.

(Jock Fistick/The New York Times 
Visitante observa tela no Flanders Fields Museum, em Ypres, Bélgica

Em uma das duas celas próximas ao monumento de Poperinge, onde os soldados eram presos antes de serem executados ao amanhecer, os visitantes hoje vêm para relembrar não só o heroísmo da guerra, mas também seus horrores. Numa tarde fria, recentemente, havia um pedaço de papel sobre uma das camas de madeira onde os homens passavam sua última noite. Assinado apenas por T.T.S., o bilhete, rabiscado em inglês, era um dos muitos que haviam sido deixados ali. "Vocês sempre serão lembrados", dizia. "Vocês nos deixaram orgulhosos".

Conforme o 100º aniversário da guerra se aproxima, o monumento de Poperinge marca uma mudança grande e recente na atitude dos países europeus que sofreram as maiores perdas humanas, lembrando não apenas os que morreram em combate, mas também os que enfrentaram os pelotões de fuzilamento por protestarem, recusarem-se a lutar ou fugirem da frente de batalha.

Em Ypres, essa mudança de atitude levou os curadores a mudarem totalmente a forma como o museu apresenta o conflito, enfatizando a desumanidade da guerra em vez dos vencedores e vencidos. Na Inglaterra, a mudança levou a um perdão parlamentar póstumo aos desertores em 2006, depois da construção de um monumento para os assassinados em 2001. Na França, apesar da demora, o presidente Nicolas Sarkozy reconheceu, este ano, que os executados também mereciam a piedade - foi a primeira vez que um presidente francês fez isso.

Falando no Dia do Armistício no Fort Douamont, no leste da França, onde centenas de milhares de soldados alemães e franceses morreram, Sarkozy disse que os executados "não eram desonrados, nem tampouco covardes", mas eles haviam chegado "ao limite extremo de suas forças".
Mas não há perspectiva de um perdão, disse um porta-voz do presidente mais tarde.

"Esse foi um dos assuntos mais difíceis, toda a discussão sobre as execuções", disse Jurgen van Leberghe, membro do conselho da cidade que ajudou a promover o monumento de Poperinge. "É algo que não se pode esconder. Não houve apenas feitos heróicos".

Questionado se o monumento teria sido possível há uma geração, Van Lerberghe disse: "Ver isso como uma interrogação, ou seja, o que a guerra pode fazer com as pessoas, teria sido uma discussão difícil".

De fato, as velhas opiniões demoram a morrer. "Os veteranos da 2ª Guerra Mundial tem problemas com isso", diz Luc Dehaene, 57, prefeito de Ypres durante os últimos 11 anos, sobre a mudança de atitude.

O museu de guerra daqui, localizado dentro do imenso Corredor dos Tecidos, um mercado do século 14 que foi literalmente posto abaixo durante a guerra exceto pelo poste onde ficava sua enorme torre de relógio, não se chama mais Ypres Salient Museum. Agora ele se chama Flanders Fields Museum, em memória a um poema famoso e seu autor, o tenente-coronel John McRae e outros poetas-soldados, muitos dos quais morreram na guerra, mas não antes de denunciar sua desumanidade.

"É claro, do ponto de vista militar e diplomático, houve vencedores e perdedores", diz Dominiek Dendooven, historiador de guerra do museu.
"Mas o museu tem de lidar com o fato de que nessa guerra, com seus 10 milhões de mortos, não dá pra dizer de fato: 'eles perderam, eles ganharam?'"

O museu agora tem uma sessão sobre os desertores, que cresceu a partir de uma série de conferências, com participantes da Inglaterra, França e Alemanha, que incluíram membros das famílias dos soldados executados. "Além da injustiça, a maioria foi morta para dar um exemplo", disse. "Era uma forma de coerção mental", disse Dendooven.

Jack V. Sturiano, 61, nativo do Queens, mudou-se para Ypres há dois anos, depois de se aposentar como técnico médico, para estudar a guerra e seus escritores. Poetas e escritores como Siegfried Sassoon e Wilfred Owen, "fizeram certo", diz ele. "Eles enfatizaram o pesar da guerra, em vez de sua nobreza".

"A guerra ainda é parte da nossa vida diária", diz Dehaene. Encontrar bombas enterradas aqui é tão comum que os fazendeiros simplesmente deixam o pedido de coleta para os esquadrões de bombas em frente de suas casas. "Quase todo ano temos acidentes", disse, acrescentando que a última morte de um fazendeiro por causa de um explosivo da 1ª Guerra Mundial aconteceu há apenas seis anos.

Hoje, cerca de 400 mil visitantes, incluindo muitas escolas, são atraídos para a cidade todo ano, o dobro do número de uma década atrás. Andre de Bruin, 63, nativo da África do Sul que trabalha como guia público nos campos de batalha, disse que a informação disponível na Internet permite que as pessoas encontrem parentes que lutaram ou morreram aqui.

"De repente elas percebem, 'Tio Bertie lutou em Passchendaele'", diz ele, referindo-se à cidade hoje conhecida como Passendale na língua holandesa mais simples, onde aconteceu um conflito sangrento. O processo amplamente divulgado pela imprensa do soldado Harry Farr, que foi morto por covardia em 1916, também aumentou o recente interesse pela guerra, disse.

"Do nosso ponto de vista, houve apenas perdedores nessa guerra", disse Dehaene. "Nossa mensagem é simples: Vejam o que aconteceu aqui. Não somos ingênuos. Nós sabemos o que somos e o que não somos capazes de fazer. Mas sabemos que temos que fazer o nosso apelo". Eloise De Vylder

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