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02/12/2008

Alemanha busca ajudar a si mesma guiando os laços do Ocidente com a Rússia

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Moscou
No auge da crise na Geórgia em agosto, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, voou para a Rússia para alertá-la sobre as conseqüências do militarismo renovado. Dois dias depois ela estava na Geórgia, expressando apoio ao eventual ingresso do país na Otan.

O outono chegou e as paixões esfriaram. O início de outubro encontrou Merkel de volta à Rússia, observando enquanto a distribuidora de energia alemã E.on e a gigante estatal russa de energia, Gazprom, assinavam um importante acordo em São Petersburgo, dando à empresa alemã uma participação no enorme campo Yuzhno-Russkoye de gás natural na Sibéria.

A mudança de foco de Merkel serviu como um lembrete do importante papel da Alemanha no moldagem do relacionamento do Ocidente com a Rússia. Ela é a maior parceira comercial da Rússia, a maior economia individual da Europa e uma das maiores aliadas dos Estados Unidos. A postura agressiva de Moscou não apenas alçou a Rússia, uma potência energética dotada de armas nucleares, de volta à proeminência política. Ela também arrastou a Alemanha consigo.

Assim como os Estados Unidos estão lutando para redefinir seu relacionamento com um governo ressurgente e às vezes antagônico em Moscou, a Alemanha está se esforçando para proteger os laços comerciais, culturais e diplomáticos estreitos com a Rússia, forjados desde o final da Guerra Fria -e, em algumas áreas, muito tempo antes.

Quão ampla se tornou a divisão ficará mais claro nesta semana, quando os ministros das relações exteriores da Otan se reunirem em Bruxelas. Berlim e Washington estão em desacordo sobre como lidar com o ingresso da Geórgia e Ucrânia na Otan - uma briga que, na verdade, se trata de como lidar com a Rússia.

Enquanto os Estados Unidos visam principalmente responder à nova assertividade militar da Rússia, a Alemanha defende passos para desenvolver a Rússia economicamente e assegurar sua estabilidade política. A Alemanha considera sua responsabilidade guiar a Rússia, não contê-la.

O futuro governo Obama, que prometeu buscar um novo caminho para coibir as ambições nucleares do Irã, assim como atingir outras metas de política externa que envolvem a Rússia, pode descobrir que uma estrada para Moscou passa por Berlim. No mínimo, parece provável a necessidade de tratar dos interesses profundos da Alemanha na Rússia.

"Há sérios desentendimentos entre Washington e Berlim, com os quais Moscou só pode se beneficiar caso não haja melhor coordenação", disse Angela Stent, que serviu com alta funcionária para Rússia no Conselho Nacional de Inteligência do governo americano, de 2004 a 2006, e que agora dirige estudos russos na Universidade de Georgetown. "O governo Obama deve trabalhar com os alemães ao reavaliar a política americana em relação à Rússia."

Cansados dos sermões americanos sobre 36% do gás natural que aquece os lares alemães serem provenientes da Rússia, alguns políticos alemães se perguntam como os americanos podem se preocupar mais com esta dependência de energia do que eles.

"Muitos alemães acreditam que Bush só invadiu o Iraque pelo petróleo, e muitos americanos acreditam que a política da Alemanha para a Rússia é determinada pelo gás", disse Karsten D. Voigt, que coordena as relações Alemanha-Estados Unidos no Ministério das Relações Exteriores alemão e que por anos comandou um comitê parlamentar alemão-russo no Parlamento alemão. "Todo governo alemão desde pelo menos os anos 70 tentou promover uma maior aproximação entre a Rússia, e antes dela a União Soviética, e a Europa."

Sergei Kupriyanov, um representante da Gazprom, disse: "Nossa cooperação teve início durante a Guerra Fria", se referindo aos acordos - aos quais os Estados Unidos se opunham - que estabeleceram os gasodutos entre a Rússia e a Alemanha nos anos 70. "O Muro de Berlim ainda existia", ele disse. "Em comparação a como era naquela época, a Geórgia é fichinha."

Os alemães não vêem dependência da Rússia, mas interdependência. Os 27 países da União Européia são responsáveis por 80% do investimento estrangeiro cumulativo na Rússia, um fato bem exposto - se é que o Kremlin esqueceu - pela fuga de capital após a crise na Geórgia.

Os europeus, após a Geórgia, congelaram furiosamente as negociações com a Rússia em tornou de um novo acordo de parceria. Nem 10 semanas depois, eles decidiram retomar as negociações. "Nós não podemos construir uma arquitetura européia contra a Rússia ou sem a Rússia, apenas com a Rússia", disse Alexander Rahr, diretor do programa russo/eurasiático do Conselho das Relações Exteriores alemão.

Enquanto a Alemanha precisa das matérias-primas russas e deseja o significativo mercado russo para seu maquinário de precisão, a Rússia é igualmente dependente do investimento europeu para diversificar sua economia, um fato entendido pelos russos agora que a crise financeira fez com que os preços de energia despencassem.

Na cidade de Yaroslavl, uma empresa automotiva, o GAZ Group, ainda produz motores a diesel para caminhões em uma fábrica construída nos últimos dias do governo czarista, em 1916. O modelo de produção evoca os tempos soviéticos, começando pelo ferro na fundição na própria fábrica, com os operários construindo quase todo o motor da estaca zero.

A uma curta distância de carro, passando por aglomerados de vidoeiros, fica um campo de concreto, pilastras de metal e teto de ferro corrugado. É o início de uma linha de produção moderna para o novo modelo de motor da empresa, um projeto avaliado em US$ 442 milhões.

A fábrica fica a poucas horas de carro ao norte de Moscou, mas os nomes dos fornecedores soam como uma lista de empresas alemãs, com a maioria do maquinário e linhas de produção fornecida por empresas alemãs como Grob-Werke e ThyssenKrupp Krause.

"A Alemanha é, em termos de tecnologia, perícia e know-how no setor automotivo, eu acho, a melhor do mundo", disse Ruslan Grekov, o diretor do projeto do novo motor em Yaroslavl. "É claro que a Alemanha é diferente da Rússia. A diferença é boa."

Esses sentimentos podem parecer surpreendentes, até mesmo chocantes, em um país onde, nos tempos soviéticos, os nazistas eram vilificados em uma dieta diária de filmes de guerra.

Mas os laços entre os dois maiores países da Europa foram forjados ao longo de séculos, à medida que nobres alemães como Catarina, a Grande, se tornaram parte da realeza russa e generais alemães lideravam os exércitos do czar. Artesãos alemães trabalharam em Moscou enquanto agricultores alemães se estabeleceram perto do Rio Volga.

O relacionamento foi temperado no lado alemão pela culpa pela Segunda Guerra Mundial e gratidão pela reunificação alemã.

Mas os negócios sempre serviram como âncora, com a perícia técnica da Alemanha complementando os vastos recursos da Rússia. O conglomerado alemão Siemens instalou a rede estatal russa de telégrafo nos anos 1850. Stalin construiu o poderio industrial soviético em seu primeiro Plano de Cinco Anos em grande parte com maquinário alemão.

A atual desaceleração global espalhou ondas de medo pela Rússia de uma possível repetição do colapso do rublo de 1998. O Banco Mundial reduziu pela metade a expectativa de crescimento da Rússia para o próximo ano, mas ela ainda é de 3%, enquanto a economia alemã, já em recessão, deverá contrair, tornando a Rússia ainda mais importante à medida que crescem as demissões na Alemanha.

O comércio entre a Rússia e a Alemanha cresceu 25% na primeira metade do ano, para US$ 49,3 bilhões. A Rússia é um dos mercados da Alemanha que mais crescem. No ano passado, as exportações alemãs para a Rússia totalizaram US$ 36 bilhões, mais de cinco vezes os US$ 6,7 bilhões exportados dos Estados Unidos para a Rússia.

Os empresários alemães não apenas possuem escritórios de vendas em Moscou ou investem nos ricos campos de petróleo e gás do país. Eles estão por toda parte -da Sibéria a Yekaterimburgo a São Petersburgo, com cerca de 4.600 empresas investindo ao todo US$ 13,2 bilhões, construindo fábricas e entregando maquinário aos russos que aspiram ser mais do que uma loja de matérias-primas para seus vizinhos europeus.

Igor Yurgens, o presidente do conselho executivo do Instituto de Desenvolvimento Contemporâneo em Moscou, do qual o presidente Dimitri A. Medvedev é presidente do conselho, disse que a Alemanha é uma parceira estratégica e a investidora mais paciente no futuro da Rússia.

"Nós não temos leis neste país, mas temos muitas amizades, e a amizade é mais importante do que as leis", disse Yurgens, em uma entrevista em seu escritório em Moscou, à margem do Anel B da cidade, onde velhos Ladas andam vagarosamente nos congestionamentos ao lado dos últimos modelos de Mercedes. "Isso é algo histórico. E com os alemães este é o caso."

"Tendo como base este envolvimento e cooperação econômica muito fortes, suas críticas são aceitas mais levemente do que as críticas de outros que não fazem nada, apenas ficam criticando", acrescentou Yurgens.

Quando Medvedev ameaçou após a eleição americana colocar novos mísseis em Kaliningrado, o local era um símbolo do relacionamento doloroso e complexo entre a Rússia e a Alemanha. Aquela ilha do território russo - situada desajeitadamente entre a Polônia e a Lituânia, ambos membros da Otan - era a cidade alemã de Koenigsberg antes de cair em poder soviético após a Segunda Guerra Mundial.

Mas em um sinal das oportunidades apresentadas pelo triângulo russo-alemão-americano, foi o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, do Partido Social-Democrata, geralmente mais amistoso com a Rússia, que talvez tenha emitido a resposta mais dura a Medvedev. Foi o "sinal errado na hora errada", disse Steinmeier no dia seguinte.

O futuro governo Obama, disseram calmamente as autoridades alemãs, deve tomar nota. E como indicado pelo recuo de Medvedev de lá para cá, os russos aparentemente tomaram. George El Khouri Andolfato

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