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02/12/2008

Enquanto o medo tomava conta de Mumbai, heróis começaram a aparecer

The New York Times
Somini Sengupta
Em Mumbai
Em qualquer dia comum, Vishnu Datta Ram Zende usa o sistema o sistema de som da maior estação ferroviária de Mumbai para direcionar as hordas de viajantes aos seus trens.

Mas na última quarta-feira, pouco antes das 22h, quando ele ouviu uma alta explosão e viu pessoas correndo pela plataforma, ele pegou seu microfone e calmamente direcionou a multidão em pânico para a saída mais próxima. A estação, o Terminal Victoria, estava repentinamente sob ataque, o início de um cerco de três dias promovido por um punhado de homens jovens altamente armados.

"Caminhem para a parte traseira e deixem a estação pelo Portão Nº 1", ele entoava alternadamente em hindi e marathi, mal parando para respirar até a plataforma ficar vazia. Logo, os homens armados localizaram sua cabine e dispararam, perfurando uma das janelas. Zende não ficou ferido.

Da noite para o dia, Zende se tornou um dos novos heróis de Mumbai. Enquanto a cidade enfrentava um dos ataques terroristas mais horríveis na história do país, muitos cidadãos comuns como Zende, 37 anos, exibiram uma graça extraordinária.

Muitas vezes eles o fizeram sob um risco pessoal considerável, realizando atos de heroísmo que não eram exigidos por seus empregos. Sem o pensamento rápido e bom senso deles, o número de mortos certamente seria maior do que os 173 confirmados na segunda-feira.

Não longe da estação de trem, enquanto o mesmo grupo de atiradores invadia o Taj Mahal Palace & Tower Hotel, um subchefe de cozinha chamado Nitin Minocha e seus colegas de trabalho conduziram mais de 200 clientes do restaurante para uma ala de quartos privados chamada The Chambers.

Pelo restante da noite, eles prepararam lanches, serviram refrigerantes, arrumaram cigarros e então, quando informados que estava seguro, tentaram conduzi-los para fora pelos fundos. Eles queriam assegurar que seus hóspedes, muitos deles da superelite de Mumbai, permanecessem no maior conforto possível.

"A única coisa era proteger os hóspedes", disse o chef Hemant Oberoi. "Eu acho que minha equipe fez um excelente trabalho fazendo isso. Nós perdemos algumas vidas fazendo isso."

Ao todo, seis funcionários da cozinha foram mortos. Outro funcionário do hotel, um funcionário da manutenção do turno da noite, foi baleado no abdome e permanecia em estado crítico na segunda-feira.

Minocha, 34 anos, recebeu dois tiros no braço esquerdo. Ele ficou dormente.

Ele podia ver que o osso foi despedaçado. Ele entrou em pânico.

"Eu sou um chef", ele disse para si mesmo. "Eu trabalho com ambas as mãos."

Mesmo após sua tentativa abortada de evacuação, os funcionários do hotel ajudaram a trazer água para seus hóspedes e ergueram lençóis para criar toaletes improvisados. Ao lado na Nariman House, a sede de uma organização religiosa judaica, onde homens armados fizeram reféns, vizinhos ajudavam na evacuação segura de vizinhos.

Em outro hotel, o Oberoi, os funcionários conduziram a clientela do restaurante para a cozinha e dali para a saída.

No Terminal Vitória, também conhecido como Terminal Chhatrapati Shivaji, os avisos de Zende impediram muitos viajantes de cruzarem o caminho de dois atiradores. "Me ocorreu que devia avisar as pessoas para não irem para aquele lado", ele disse.

Os agressores já tinham disparado contra a outra ala da estação ferroviária de 130 anos, a enchendo de cadáveres, enchendo as janelas de buracos de bala.

Na escolha de seus alvos, os atiradores não poupavam nem ricos nem pobres, nem ocidentais e nem indianos.

No Taj, por exemplo, Minocha estava trabalhando no restaurante Golden Dragon quando os atiradores invadiram o lobby do hotel. Ele abriu a porta, viu a confusão e prontamente a fechou. Ele e seus colegas escoltaram os clientes do restaurante para o restaurante japonês mais caro da cidade, e finalmente para o clube The Chambers, onde os hóspedes foram convidados a sentar e esperar.

"Eles fizeram tudo o que podiam", disse Bhisham Mansukhani, que tinha ido à festa de casamento de um amigo naquela noite, antes de ser conduzido ao The Chambers.

Nas horas que se seguiram, os funcionários tentaram manter todo mundo calmo e bem alimentado. A certa altura, Minocha lembrou em seu leito de hospital na segunda-feira, ele viu o domo vermelho do hotel em chamas.

Bem antes do amanhecer, os hóspedes tentaram partir em grupos de quatro. Os funcionários do hotel montaram um cordão. Algumas pessoas saíram. Outras não. Repentinamente veio uma rajada de balas. Foi quando Minocha foi atingido duas vezes no antebraço.

Os disparos provocaram uma correria. Minocha conseguiu sair do hotel, gritando por ajuda para seu braço ensangüentado. Aqueles que ainda estavam lá dentro voltaram para o The Chambers, o momento em que o homem da manutenção, chamado Rajan Kamble, foi baleado.

A bala atravessou seu abdome, perfurando seus intestinos, que um casal que estava jantando no restaurante, Prashant e Tilu Mangeshikar, ambos médicos, tentaram colocar de volta no lugar com algumas bandagens e lençóis de cama.

Prashant Mangeshikar disse que mesmo quando ficaram presos dentro de um cômodo no The Chambers, os jovens funcionários do hotel permaneceram incomumente calmos. "Tudo era uma enorme confusão. A maioria tinha entre 20 e 25 anos. Mas ninguém perdeu a calma."

No Terminal Vitória, os atiradores agiam com fria precisão.

Eles atacaram primeiro o setor de longa distância do Terminal Vitória, com uma rajada de fogo no salão de espera. Os passageiros que esperavam estavam prestes a embarcar no lento e lotado trem dos pobres para Varanasi, com partida marcada para as 23h55, um dos muitos que transportam trabalhadores migrantes entre o interior da Índia e sua cidade dos sonhos.

Satya Sheel Mishra, que dirige um restaurante no segundo andar chamado Re-Fresh Food Plaza, viu os dois atiradores assumirem posição e dispararem. Sete balas perfuraram suas janelas. Agachado no chão, ele viu os homens atirarem indiscriminadamente e então marcharem para o outro lado da estação, onde Zande dava os avisos para os trens para os subúrbios.

Zende viu os atiradores passarem diante de sua janela. Então ele se agachou no chão e os ouviu se preparando para atirar. Uma bala atravessou uma janela, mas outro disparo não. Acima de seu microfone, uma estátua do deus-elefante hindu Ganesh, que seria um removedor de obstáculos, estava dentro de uma caixa azul com luz vermelhas piscando ao seu redor. Zende telefonou para sua esposa. "Eu estou no escritório. Estou bem. Não se preocupe."

Zende entrou para a companhia ferroviária aos 19 anos, quando seu pai, um guarda ferroviário, morreu. Com o colegial incompleto, Zende começou na base da escada, ascendendo profissionalmente até chegar à cabine de som. Agora ele viaja uma hora e meia em cada direção de sua casa, em um canto operário no extremo norte da cidade, naturalmente próximo da ferrovia. Ele ganha pouco mais de US$ 300 por mês.

Na segunda-feira, uma mulher subiu pelos degraus estreitos e íngrimes até sua cabine para parabenizá-lo: "Sr. Zende, o senhor fez um excelente trabalho. Precisamos de mais pessoas como você".

Ela se recusou a dizer seu nome. Ela disse que era uma cientista aposentada que saiu de casa pela primeira vez desde que os ataques começaram. Ela se queixou dos políticos.

Então se despediu. "Jai Hind", ela disse, ou "vida longa à Índia"

Zende respondeu serenamente, "Jai Hind". George El Khouri Andolfato

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