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03/12/2008

Economia da China espera que cidadãos poupadores comecem a gastar

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim
Ele ainda não sabe disso, mas Dang Fu foi escolhido para salvar a economia chinesa.

Dang, 56, um plantador de painço de faces coradas que vive no nordeste da China, conseguiu nos últimos anos poupar dois terços da renda anual da sua família, um valor que equivale a US$ 2.200. Ele cultiva grande parte da sua alimentação, usa um casaco de inverno até que este vire um farrapo e só compra presentes para a mulher quando as reclamações dela ficam intoleráveis.

O presente que ele se concedeu no ano passado, uma televisão de 25 polegadas, ainda provoca uma expressão dolorosa em Dang. "É doloroso gastar tanto dinheiro", disse ele, enquanto caminhava pelos corredores de um supermercado na semana passada com a cunhada perdulária (ela só poupa a metade do salário).

Mas esse hábito entranhado de economizar, que já foi tido como uma virtude admirável por aqui, tornou-se um problema neste momento em que a economia do país desacelera-se, um fato que tem alimentado o medo do governo em relação ao desemprego e à instabilidade social, bem como quanto à possibilidade de que isto venha a ameaçar o poder do Partido Comunista.

Nas últimas semanas a economia da China, que antes parecia incapaz invulnerável, sofreu um desaquecimento drástico. O crescimento das exportações, um dos fatores que mais contribuíram para a expansão da China nos últimos dez anos, diminuiu e provavelmente reduzirá o crescimento geral do país no próximo ano, segundo o Banco Mundial. O mercado de ações está inerte e o valor dos imóveis em várias cidades caiu 30 ou 40%.

A taxa de crescimento da China com correção anual, que foi de 12% durante as Olimpíadas, já caiu para 9%, um número admirável para os padrões norte-americanos, mas que está perigosamente próximo do mínimo de 8% que, segundo os economistas chineses, é necessário para que se forneçam empregos às 20 milhões de pessoas que ingressam anualmente no mercado de trabalho. Na última segunda-feira, o J.P. Morgan reduziu a sua previsão de crescimento da China no quarto trimestre para 7,7%, e outros analistas prevêem que este número possa chegar a 5% no próximo ano.

Analistas do governo estão de olho nos consumidores, especialmente nas centenas de milhões de camponeses que poupam bastante, esperando que eles supram grande parte da necessidade de demanda. "Se pudermos injetar confiança nos consumidores e fazer com que eles gastem mais, poderemos ajudar a economia da China e contribuir também para estabilizar a economia global", afirmou na semana passada Zhu Guangyao, ministro-assistente das Finanças.

Mas pode ser difícil fazer com que as pessoas gastem mais, especialmente em um momento de desaquecimento econômico. Os gastos dos consumidores representam 35% do produto interno bruto da China, e esse número vem caindo desde a década de 1980, quando ficava na faixa dos 50%. Já a atividade do consumidor nos Estados Unidos é responsável por mais de dois terços da economia chinesa.

Para compensar as quedas das exportações e no setor de construção, os consumidores chineses teriam que aumentar em um terço os seus gastos, afirma Michael Pettis, professor de finanças da Universidade de Pequim. "Não sei se eles são capazes de fazer isso de forma tão rápida quanto o governo deseja", afirma Pettis.

O pacote de estímulos no valor de US$ 586 bilhões anunciado pelo governo no mês passado destina-se em grande parte a projetos para a construção de pontes e a pavimentação de estradas, mas inclui também várias iniciativas cujo objetivo é fazer com que Dang e os seus parentes poupadores tirem o dinheiro que está guardado debaixo do colchão.

As medidas incluem o subsídio à moradia a fim de persuadir os compradores de imóveis a preencher as suas novas habitações com mobília, e projetos de eletrificação rural que permitirão que os agricultores tenham acesso barato à energia elétrica. Na semana passada o banco central da China reduziu em mais de 1% as taxas de juros. Na segunda-feira, o governo criou um subsídio em 14 províncias, que fará com que a aquisição de telefones celulares e máquinas de lavar roupas torne-se mais barata.

Dang e a mulher dele, Zhang Fengxia, 52, são um exemplo ilustrativo do hábito chinês de economizar. Eles não usam bancos - "é melhor manter o dinheiro em casa", diz Zhang - e a maior gasto do casal foi com um trator usado, que eles compraram há alguns anos pelo equivalente a US$ 1.200. Todo dinheiro excedente é reservado para a aposentadoria e potenciais gastos com saúde.

Zhang balança a cabeça em negativa quando lhe perguntam se cogitaria comprar produtos a crédito, caso pudesse. "O que é cartão de crédito?", pergunta ela. "Nós só queremos garantir que teremos dinheiro suficiente para comprar comida".

Embora os altos índices de poupança sejam encontrados em toda a Ásia, a propensão dos chineses a poupar está enraizada em memórias profundas de escassez e em uma rede de segurança precária que obriga as pessoas a poupar dinheiro para educação, aposentadoria e gastos com saúde. O governo criou um sistema de saúde subsidiado no campo, mas a maioria dos chineses, rurais ou urbanos, vive com medo das emergências médicas.

Os médicos freqüentemente aumentam as suas magras receitas prescrevendo exames e remédios caros, e o tratamento é muitas vezes recusado aos pacientes que não podem pagar à vista. "O sistema de saúde é tão caro e distorcido que não importa o quanto a pessoa poupe. Se ela adoecer, ficará pobre", afirma Wang Tao, analista do USB Securities em Pequim. "Os problemas do setor de saúde dos Estados Unidos sequer se comparam aos da China".

Wang e outros analistas afirmam que, para que haja um aumento significativo dos gastos dos consumidores, terá que haver um crescimento da renda pessoal, além de reformas no setor de saúde e a criação de uma seguridade social confiável para os aposentados. "Isto é algo que demorará anos, e não meses", afirma Wang.

Por ora, pessoas como Li Xiuqin são as maiores promessas para a emergente economia de consumo da China. Secretária em uma firma de contabilidade de Pequim, Li, 28, ganha menos de US$ 600 por mês, mas gasta quase todos os yuans recebidos com roupas de marca, refeições em restaurantes e ligações pré-pagas no seu telefone celular Nokia púrpura e dourado.

Criada em uma fazenda de porcos na província de Hunan, ela ri do sistema de vida sofrido adotado pelos pais e avós. "O objeto mais caro que o meu pai adquiriu na vida foi um relógio de pulso", conta ela, enquanto compra um par de sapatos de salto alto de US$ 100 em um dos onipresentes shopping centers da capital chinesa. "Os dias de fome na China acabaram".

No entanto, por ora o número de poupadores supera o de gastadores. Em uma tarde recente, Li Xiaoyan, uma executiva de 30 anos de idade do setor de relações públicas, fazia compras com a mãe em um supermercado da rede francesa Carrefour.

Li zombava da forma como a mãe economiza, observando que esta comprou a sua última roupa há dez anos. A mãe, Xing Xiuqin, 60, balançou a cabeça para cima e para baixo, em sinal de aprovação, e gabou-se de que conseguiu poupar 80% da sua renda antes de aposentar-se de um emprego na área de engenharia. "Pessoas velhas só precisam de uma roupa", disse ela. "A gente deve poupar tudo para os filhos".

Li diz que a sua geração vive mais para o presente. Mas quando lhe perguntam quanto ela poupa, Li faz uma pausa para calcular. Cerca de metade da minha renda, afirma ela. "Tenho que começar a poupar para a educação superior do meu filho", diz ela. UOL

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