UOL Notícias Internacional
 

05/12/2008

Médicos mexicanos, salvando vidas, temem pela própria

The New York Times
Marc Lacey
Em Tijuana (México)
O paciente sedado, com ferimentos de bala ainda frescos de um tiroteio na noite anterior, estava deitado em uma maca na unidade de terapia intensiva de um hospital particular de prestígio daqui no final do mês passado, com um cateter injetando fluidos intravenosos em seu braço. De repente, atiradores com expressão implacável invadiram a unidade e crivaram ainda mais balas nele. Desta vez, ele certamente estava morto.

Matadores perseguindo rivais dentro de unidades de terapia intensiva e pronto-socorros. Tiroteios em saguões e corredores. Médicos seqüestrados por resgate, ou ameaçados de morte caso um atirador ferido morra sob seus cuidados. Com velocidade alarmante, a violenta guerra das drogas do México está invadindo o aparente santuário dos hospitais do país, enervando o sistema de saúde e deixando funcionários temendo por suas vidas enquanto tentam salvar as vidas de outros.

"Lembra daquela cena do hospital de 'O Poderoso Chefão'?" perguntou o dr. Hector Rico, um otorrinolaringologista daqui. Naquela cena, Michael Corleone salva seu pai hospitalizado de um esquadrão da morte. "É como vivemos."

A violência ligada aos poderosos cartéis das drogas do México já matou mais de 5 mil pessoas neste ano, quase o dobro do número do ano passado, segundo levantamentos não oficiais dos jornais mexicanos. A região de fronteira entre os Estados Unidos e o México, crítica para a operação de tráfico dos cartéis, é o território mais violento de todos, com 60% de todos os assassinatos no país do mês passado ocorrendo nos Estados de Chihuahua e Baixa Califórnia, diz o governo. E levanta o temor de que a violência possa atravessar a fronteira, já que dezenas de vítimas da violência das drogas foram tratadas em um hospital de El Paso, Texas, no ano passado.

O governo federal argumenta que o aumento das mortes reflete a posição agressiva do presidente Felipe Calderón em relação aos cartéis, o que força os traficantes a uma guerra amarga pelo cada vez menor território restante.

A maioria das mortes parece ser resultado da disputa interna entre os traficantes. Mas muitos inocentes também estão morrendo, e a enxurrada de assassinatos horríveis -corpos são rotineiramente decapitados ou mutilados de outras formas e abandonados em lugares públicos com mensagens escritas à mão pregadas por perto- deixa pessoas de todas as atividades e classes sociais temendo a possibilidade de serem as próximas.

"Se um paciente está sangrando em uma sala de emergência, nós temos que nos concentrar nos ferimentos", disse Rico, que liderou médicos em protestos de rua contra o aumento da violência em Tijuana e arredores, onde 170 corpos foram descobertos apenas em novembro, o mês mais sangrento já registrado.

"Agora nós temos que vigiar nossas costas e nos preocuparmos com alguém invadindo com uma arma."

Os médicos se sentem particularmente vulneráveis. Quando deixam seus consultórios, eles dizem que correm o risco de serem seqüestrados visando resgate, como já ocorreu com duas dúzias de médicos nos últimos anos. Os médicos também se queixam das ameaças que recebem dos pacientes ou dos parentes dos pacientes. "Me salva ou te mato", foi o que um cirurgião ortopédico contou que um paciente lhe disse, certamente sem perceber a contradição.

Para aumentar a ansiedade, hospitais e funcionários do sistema de saúde precisam notificar as autoridades quando um paciente dá entrada com ferimento de bala ou faca, uma exigência legal que os traficantes conhecem muito bem. Isso leva a mais ameaças.

E há o risco de tiroteios.

As autoridades suspeitam que tanto os assassinos quanto a vítima na unidade de terapia intensiva no hospital particular, o Hospital del Prado, tinham ligações com os cartéis das drogas que estão espalhando o caos pelo México. Quem não estava por perto era a polícia, que recebeu um chamado das autoridades do hospital quando a vítima de arma de fogo, na faixa dos 20 anos, deu entrada, como exigido pela lei. A polícia só apareceu depois que os matadores vieram e partiram, deixando cartuchos de bala espalhados pelo chão do hospital.

O Hospital General de Tijuana, o principal hospital público da cidade, já foi cercado pela polícia e soldados duas vezes nos últimos 20 meses. Na primeira vez, em abril de 2007, homens armados invadiram o prédio para resgatar um companheiro do cartel que estava sendo tratado na sala de emergência ou para matar um rival, disse a polícia, que não sabe ao certo qual era o cenário. Dois policiais foram mortos e todos os matadores escaparam, exceto um.

Um vídeo gravado por um funcionário do hospital revelou uma cena assustadora, com dois policiais estaduais disparando dentro da sala de emergência para proteger os pacientes enquanto médicos, enfermeiros e outros se escondiam em armários, sob macas e onde quer que pudessem encontrar abrigo.

Uma idosa em uma cadeira de rodas é vista escondida sob um cobertor, enquanto um paciente vestindo camisola hospitalar é visto deitado no chão ao lado de seu leito.

Enquanto isso, pacientes em pânico eram escoltados para fora do prédio, alguns com cateteres em seus braços, até um campo esportivo próximo.

A segunda vez foi em abril, quando soldados em uniformes de camuflagem cercaram o Hospital General de Tijuana, o isolando enquanto os médicos tratavam oito traficantes que foram feridos em vários tiroteios na cidade. O Exército mexicano aparentemente estava tentando impedir uma repetição do tiroteios de 2007. Em um terceiro episódio recente, soldados foram enviados para o hospital após um alarme falso de bomba.

"O medo se tornou parte de nossas vidas", disse um dos médicos do Hospital General de Tijuana, falando sob a condição de anonimato por temer represálias do crime organizado. "Há pânico. Nós não sabemos quando estourará outro tiroteio."

A violência já está afetando o serviço, à medida que os hospitais blindam a si mesmos com mais policiais e guardas. Para protestar contra a onda de assassinatos, alguns médicos fecharam seus consultórios por um dia em novembro. E as clínicas de Tijuana estão regularmente fechando mais cedo, com mais e mais médicos se negando a atender no plantão noturno por ser considerado arriscado demais.

Em Ciudad Juárez, que faz fronteira com El Paso, o hospital da Cruz Vermelha local encerrou um atendimento de emergência 24 horas no início do ano, após homens armados terem matado quatro pessoas que estavam sendo tratadas por ferimentos a bala. O serviço de emergência agora termina às 22 horas.

Os paramédicos em Ciudad Juárez pararam temporariamente de tratar vítimas com ferimentos de bala em agosto, depois de receberem ameaças de morte por seus rádios de emergência. Eles retomaram o serviço de ambulância mais tarde no mesmo dia, mas apenas após receberam escolta policial armada.

Um episódio que ocorreu na madrugada de 5 de outubro em Tijuana mostra o novo ambiente complicado em que os funcionários do sistema de saúde se encontram. Após um grande tiroteio, dois homens feridos foram levados à Clínica Londres, uma clínica de saúde particular que fica fechada à noite. Havia apenas uma única enfermeira dentro da clínica trancada, cuidando dos pacientes, e ela inicialmente não abriu para o pequeno grupo de pessoas ansiosas do lado de fora.

A enfermeira não estava habilitada para tratar de vítimas de ferimentos de bala e a clínica não oferecia atendimento de emergência. Mas entre as pessoas do lado de fora estavam dois homens trajando uniformes policiais, que batiam ameaçadoramente à porta.

Temendo os homens de uniforme -os criminosos rotineiramente vestem uniformes policiais no México- ela acabou cedendo, ela disse às autoridades. O que aconteceu em seguida está envolto em confusão.

Avisados, o Exército e a polícia chegaram à clínica e perguntaram à enfermeira e dois outros funcionários da clínica, que tinham acabado de chegar, se estavam tratando de vítimas de ferimentos de bala, e eles informaram que não. Então, ao ouvirem um gemido vindo de outra sala, as autoridades descobriram os dois homens feridos -os homens de uniforme tinham fugido- e acusaram os funcionários a clínica e o grupo de pessoas que chegou com os pacientes de terem ligações com os narcotraficantes.

Os funcionários, que ficaram detidos por dois meses enquanto as autoridades decidiam se os indiciavam criminalmente ou não, negam ter feito qualquer coisa errada. "Não é verdade que esta é uma narcoclínica", disse o advogado deles, Rafael Flores Esquerro.

Outro médico de Tijuana, Fernando Guzman Cordero, também se viu negando ter ligações com os traficantes. Guzman, um cirurgião proeminente, foi seqüestrado em abril e sofreu um ferimento de bala na perna. Mas os seqüestrados o libertaram 36 horas depois, até mesmo lhe pagando o táxi para casa.

Então, duas semanas depois, após outro tiroteio em Tijuana, um grupo de vítimas de disparos foi levado para a clínica dele para tratamento. Em programas de rádio que recebem telefonemas e em sites de bate-papo na Internet, moradores locais se perguntavam se os traficantes estavam trabalhando junto com Guzman, algo que ele negou veementemente.

"As pessoas podem dizer o que quiserem", ele disse. "Elas dizem que eu forjei o seqüestro ou fiz um pacto com eles. Elas dizem um milhão de coisas. Eu sei quem sou. Por que me envolveria com criminosos?"

O problema que todos enfrentam em Tijuana, independente de sua atividade de trabalho, é que podem estar associados aos traficantes sem saberem. Os médicos dizem que agora fazem uma triagem cuidadosa dos pacientes. Os traficantes pagam bem e em dinheiro, mas não valem os problemas que trazem, dizem os médicos.

Mas os hospitais não têm esse luxo. "Nós não somos juízes", disse Carolina Aubanel Riedel, cuja família é dona do Hospital del Prado. "Nós tratamos aqueles que chegam." George El Khouri Andolfato

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