UOL Notícias Internacional
 

05/12/2008

Um tipo diferente de senador para os moradores do Alasca

The New York Times
William Yardley
Em Anchorage, Alasca (EUA)
Se um candidato quiser ser eleito para o Senado dos Estados Unidos pelo Partido Democrata no Alasca, às vezes é preciso que ele não haja como um democrata. É necessário defender a exploração de petróleo em reservas ecológicas e o direito à posse de armas de fogo, além de insistir que aqueles liberais que controlam o Congresso jamais imporão a vontade deles no Estado.

E quando o seu adversário republicano é condenado em um tribunal federal pouco antes do dia da eleição, não demonstre satisfação. Afinal de contas, ele é o senador Ted Stevens, que já foi eleito Cidadão Alasquiano do Século pelo parlamento do Estado.

É claro que isso foi no século passado.

O prefeito de Anchorage, Mark Begich, é o democrata que no mês passado conseguiu uma façanha outrora imaginável, ao tornar-se o segundo democrata do Alasca a obter uma cadeira em Washington desde que o pai dele foi membro da Câmara dos Deputados há quase quatro décadas.

A cadeira dele no Senado era ocupada por Stevens desde que Begich tinha seis anos de idade e o Alasca tinha apenas nove. Mas Begich, 46, sugere que houve um fator maior para a sua vitória do que apenas a escolha do momento propício para disputar com um Steven subitamente vulnerável, e que em outubro último foi condenado por não revelar presentes e reformas domésticas que recebeu de um executivo milionário do setor petrolífero.

"Somos agora um Estado bem mais maduro sob diversos aspectos", disse ele aos repórteres um dia após ter declarado vitória.

Conforme diz Begich, o Alasca é um Estado cada vez mais moderno no qual as pessoas ainda apóiam as propostas para a exploração de petróleo, a construção de oleodutos e a escavação de minas de ouro, mas onde também desejam novas calçadas com belos jardins, melhor financiamento para a educação dos filhos e algo que se aproxime da estabilidade financeira.

Sob o governo dele, Anchorage superou um profundo déficit financeiro, expandiu significativamente a sua força policial, reduziu os crimes violentos, expandiu o as suas instalações portuárias e acelerou o desenvolvimento do centro da cidade, incluindo a renovação do museu de história local, a construção de calçadas aquecidas e a inauguração um novo centro de convenções pouco antes da eleição.

Begich diz que foi o reconhecimento dessas novas prioridades que o ajudou a persuadir os eleitores a tomar a decisão "emotiva e difícil" de romper com Stevens, que, segundo ele, "perdeu o contato com o eleitorado".

Algumas pessoas, especialmente os republicanos, não estão aceitando essa história.

"Dá para entender por que ele está tentando justificar a sua vitória", diz Dave Dittman, profissional da área de pesquisas de opinião vinculado ao Partido Republicano. "Há uma certa verdade na história dele - o Estado está de fato mudando -, mas isso não teria sido suficiente para elegê-lo sem o julgamento de Stevens".

Begich é conhecido por cortejar os céticos, tendo se tornado prefeito em 2003 (ele evitou um segundo turno por apenas 18 votos) após ter perdido duas vezes. Ele é certamente um tipo de político diferente de Stevens, 85, um veterano da Segunda Guerra Mundial e advogado formado pela Universidade Harvard que, assim como vários outros políticos eleitos pelo Estado, mudou-se para o Alasca depois de adulto.

Begich, que nunca freqüentou uma universidade, nasceu e foi criado em Anchorage, a única cidade grande do Alasca. A mulher dele é ex-presidente do Partido Democrata estadual, e o seu pai, Nick, foi membro do Congresso. Quando jovem, Begich administrava prédios de apartamentos em Anchorage e, aos 26 anos, ele foi eleito para a não partidária Assembléia Municipal de Anchorage.

"Ele é um animal político", diz Debbie Ossiander, membro conservador da assembléia. "Begich é muito prático. E se ele consegue enxergar uma maneira de conseguir o que quer, move-se na direção certa para obter o desejado. Mas a base com a qual se sente confortável é a dos democratas".

O primeiro grande evento realizado no novo Centro Cívico e de Convenções Dena'ina, em Anchorage, cujo nome refere-se à tribo indígena da nação Athabascan que vive na área, foi a reunião anual da Federação dos Nativos do Alasca, um grupo estadual influente. Begich pediu pessoalmente que a federação retornasse a Anchorage após ela ter sido transferida para Fairbanks, em uma tática que reflete o seu estilo político.

Anchorage e as áreas rurais brigaram durante anos pelas verbas estaduais, mas Begich foi o primeiro prefeito a contratar um diretor de Questões Rurais.

"O governo foi palco de grandes antagonismos, e ele fez um esforço concreto para apaziguar os ânimos. E os frutos apareceram nos resultados eleitorais".

Begich conquistou a maioria da zona rural do Alasca em novembro, embora Stevens tenha garantido o fornecimento de tudo, desde água potável a pistas de aviação, às vilas remotas. Mas o nome de Begich é também muito conhecido nas áreas rurais.

O pai de Begich foi o primeiro democrata alasquiano eleito para a Câmara dos Deputados. Nick Begich conquistou o seu segundo mandato em 1972, algumas emanas após ter morrido quando o pequeno avião em que se encontrava desapareceu no sudeste do Alasca durante uma viagem de campanha. Don Young, um republicano, conquistou a cadeira dele em uma eleição especial realizada no ano seguinte. Ele ainda ocupa a cadeira . O último senador democrata pelo Estado, Mike Gravel, foi derrotado quando tentou a reeleição em 1980.

Begich é casado com Deborah Bonito, ex-presidente do Partido Democrata e proprietária de um pequeno negócio, e os dois têm um filho de seis anos. Quando a família mudar-se para Washington, D.C., Begich morará pela primeira vez fora do Alasca desde que era criança e o seu pai estava no Congresso. Begich tinha dez anos quando o pai morreu. Ele diz que ainda tem o hábito de manter ferramentas na sua caminhonete após ter passado anos ajudando a mãe, Pegge, a administrar e fazer a manutenção dos prédios de apartamentos da família. Ele também trabalhou como vendedor, e no setor de restaurantes e de imóveis.

Elegante nos seus trajes de negócios e apresentando modos cordiais, o prefeito exibe uma certa educação urbana que não é encontrada em muitos políticos do Alasca. Ele pode ser visto regularmente em eventos como almoços de donos de agências de financiamento de imóveis e reuniões na câmara de comércio. Begich também gosta de contar como costuma ir até os corredores dos supermercados e queixar-se dos preços altos com moradores que podem não saber que ele é o prefeito. Ele diz que compra pão amanhecido, que é mais barato.

Begich apresenta-se como um democrata ousado e do contra, mas torna-se mais evasivo quando discute certas questões sociais. Ele diz que se opõe à emendar a Constituição para banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo (os alasquianos aprovaram uma proibição estadual em 1998), e apóia a permissão para que casais do mesmo sexo recebam benefícios através dos seus parceiros. Begich não respondeu diretamente quando a reportagem perguntou mais de uma vez se ele é contra ou a favor do casamento de indivíduos do mesmo sexo. Ele apóia o direito ao aborto e diz que, de forma geral, opõe-se à pena de morte. Mas observa: "Algumas vezes tenho dúvidas quanto a essa questão".

Em uma entrevista concedida em um café de Anchorage, ele disse que trabalhará no sentido de repelir a legislação anti-terrorista conhecida como USA Patriot Act e que se opõe à permissão para que o governo realize interceptações de telefonemas e mensagens sem autorização judicial. Ele observa que Stevens apoiou o Patriot Act e as interceptações, quando "até Don Young votou contra essas medidas".

Young também votou contra o pacote de ajuda financeira de US$ 700 bilhões a bancos falidos neste outono, enquanto Stevens votou a favor. Begich diz que teria apoiado "relutantemente" a medida, mas que "como surgiram mais fatos a respeito disso, hoje em dia eu hesitaria bastante em votar a favor dela".

Begich diz que apoiará a ajuda federal às fábricas de automóveis caso elas apresentem um plano convincente para a construção de veículos mais econômicos e forneçam métodos de empréstimos seguros para que as pessoas comprem os veículos.

Begich diz que a sua maior prioridade em Washington será a política energética. Ele argumenta que a exploração de petróleo no Refúgio Nacional da Vida Selvagem Ártica poderá ser realizada com segurança devido ao aperfeiçoamento da tecnologia e que isso deve ser parte de uma política energética mais ampla que utilize também energia eólica, térmica, hidráulica e combustíveis renováveis. Afirmando que a política energética precisa ser modelada no contexto do aquecimento global, ele aponta para as lâmpadas que iluminam a Benson Boulevard, em Anchorage, e observa que a prefeitura está substituindo essas lâmpadas por outras de LED, que são mais econômicas.

"Os republicanos da nossa delegação só acordaram para a questão da mudança climática quando eu comecei a falar sobre isso", diz ele.

Enquanto Stevens ameaçou certa vez fazer campanha contra os parlamentares que não apoiassem as suas propostas, Begich diz que pretende conquistar as pessoas, e não passar com um rolo compressor sobre elas.

Quando lhe perguntam se ele será barulhento e agressivo no Congresso, Begich responde: "Serei barulhento e respeitoso. Há uma diferença. Sou barulhento quando preciso ser, mas Ted achava que as pessoas deviam favores a ele. Ninguém deve nada a ninguém nesta vida. É preciso conquistar o que se quer". UOL

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