UOL Notícias Internacional
 

07/12/2008

Polícia evitou ataque anterior contra Mumbai

The New York Times
Robert F. Worth e Hari Kumar*
Em Mumbai, Índia
A polícia indiana evitou um ataque que visava destruir prédios importantes e provocar o caos em Mumbai no começo desse ano, desmantelando uma quadrilha de homens paquistaneses e indianos chefiados pelos mesmos dois líderes militantes com base no Paquistão que foram acusados dos ataques devastadores da semana passada, disse a polícia.

O plano evitado em fevereiro também envolvia o Lashkar-e-Taiba, grupo paquistanês acusado dos ataques da semana passada, disse a polícia.
Isso sugere que o grupo militante concebeu seu plano com bastante antecedência e que fez contatos mais profundos com os muçulmanos indianos radicais do que os investigadores estavam dispostos a admitir.

Ruth Fremson/The New York Times 
Soldado da Força Policial Nacional da Índia faz a segurança do aeroporto de Mumbai

O episódio também revelou outro lapso significativo de segurança por parte da inteligência e da polícia indianas, que há alguns meses tinha vislumbres de um plano para o ataque de Mumbai e até mesmo uma forte indicação dos alvos visados.

Os investigadores disseram estar analisando a possibilidade de que os homens que realizaram o ataque da semana passada - acredita-se que todos paquistaneses - tinham cúmplices indianos locais.

Eles não encontraram nenhum até agora, mas disseram que estão investigando um participante do ataque mal sucedido, Faheem Ahmed Ansari, indiano de Mumbai, como possível suspeito. Oficiais dizem que ele e outros cinco supostos co-autores do plano foram presos inicialmente pela conexão com um ataque a uma delegacia do norte da Índia.

Depois da prisão, Ansari disse aos investigadores que ele também havia feito o reconhecimento de alvos em Mumbai. Não está claro se essa pesquisa teve algum papel no planejamento dos ataques da semana passada, que as autoridades agora dizem que mataram 163 pessoas.

Os seis homens presos em fevereiro ainda estão em poder das autoridades.

Ansari foi pego com oito a dez esboços feitos à mão de locais em Mumbai, aparentemente baseados em suas viagens de reconhecimento, disse Amitav Yash, superintendente da força tarefa especial da polícia no Estado de Uttar Pradesh, onde os homens foram presos.

Ele e os outros acusados tinham rifles AK-47, pistolas, granadas e munição, acrescentou Yash, o mesmo tipo de armas dos dez responsáveis conhecidos até agora pelos ataques que aterrorizaram Mumbai na semana passada.

Outras semelhanças entre os planos são impressionantes. Os seis homens suspeitos do ataque de fevereiro foram acusados de planejar um atentado à principal estação de trem de Mumbai - um dos primeiros alvos atingidos na semana passada - além da bolsa de valores da cidade, hotéis importantes e outros lugares.

Assim como os homens do ataque da semana passada, os membros do primeiro grupo não esperavam voltar vivos, disseram aos investigadores.

Eles também disseram à polícia que tinham sido dirigidos por dois líderes do Lashkar-e-Taiba: Zaki ur-Rehman Lakhvi, e um homem conhecido como Yusuf ou Muzammil, mostram os relatórios da polícia.
Esses dois homens planejaram e coordenaram os ataques da semana passada, e continuaram dando instruções por telefone para os pelo menos dez homens que realizaram os ataques, enquanto eles aconteciam, disseram investigadores na Índia.

Depois da prisão em fevereiro, um dos seis homens disse aos investigadores que havia recebido quatro meses de treinamento de uma agência de espionagem paquistanesa, a Inter-Services Intelligence, ou ISI, disse a polícia. Oficiais da polícia indiana disseram que não conseguiram verificar a declaração.

A ISI ajudou a fundar o Lashkar-e-Taiba há duas décadas, apesar de suas atuais conexões com o grupo, que foi oficialmente banido, não serem claras. A crença de que a agência de espionagem é cúmplice de terroristas sediados no Paquistão é quase que universal na Índia.

A Índia não acusou o governo do Paquistão de envolvimento nos ataques a Mumbai, mas forneceu evidências do envolvimento do Lashkar e pressionou o Paquistão para agir de forma decisiva contra o grupo.

Com o ressentimento popular contra o Paquistão crescendo por aqui, as tensões entre os dois rivais nucleares aumentou para um nível que não era visto em anos.

O Lashkar negou qualquer participação nos ataques. Mas nos últimos anos, o grupo vem tentando recrutar mais muçulmanos indianos para sua causa, dizem oficiais indianos. Ele tem sido ajudado pelo ressentimento local contra a maioria hindu, assim como pelo crescimento global do islamismo linha-dura.

Durante o ataque na semana passada, dizem que um dos autores mencionou um massacre hindu de muçulmanos em 2002 antes de matar um dos reféns, aparentemente na tentativa de identificar sua causa com a dos muçulmanos indianos.

Um experiente oficial de contraterrorismo disse que é muito provável que cúmplices locais estejam envolvidos no ataque. "Eles não conseguiriam chegar aos lugares onde chegaram sem ajuda local", disse o oficial, falando sob condição de anonimato por causa do inquérito em andamento. "Eles se movimentaram muito rápido. Eles devem ter tido mais assistência no local".

Um oficial americano disse que a investigação revistou o local onde os terroristas apareceram e qualquer evidência recolhida dos corpos dos atiradores mortos pode revelar mais pistas em relação a algum tipo de apoio local.

Depois da prisão em fevereiro, Ansari contou aos investigadores que cresceu em Mumbai e mudou-se para a Arábia Saudita em 2006 para trabalhar, como muitos jovens indianos. Um imã da mesquita local o inspirou com os discursos sobre a jihad.

Mais tarde, recrutas do Lashkar se aproximaram dele, e não demorou para que ele viajasse ao Paquistão pelo mar, onde passou por um treinamento físico, militar e de inteligência nos campos do Lashkar, disse Yash, líder da força-tarefa policial. Ele recebeu um passaporte paquistanês e outros documentos para facilitar sua movimentação.

Yash acrescentou que os interrogatórios de Ansari e seus companheiros haviam "contado bastante sobre as interações entre o Lashkar e a ISI", disse. "Eles estão totalmente entrelaçados".

Sob ordens de Lakhvi, comandante do Lashkar, Ansari viajou para Mumbai no outono de 2007 para começar a fazer o reconhecimento para um ataque, disseram oficiais. Ele disse que, em 31 de dezembro, participou de um ataque contra a sede da polícia em Rampur, a 160 quilômetros a noroeste de Nova Déli, no qual sete policiais foram mortos.

Na época, ele fazia parte de uma equipe de militantes do Lashkar: três da cidade indiana de Lucknow; um de Bihar, no norte da Índia; e os dois paquistaneses, dizem os oficiais.

O líder era um muçulmano indiano chamado Saba'uddin Ahmed, um jovem com boa escolaridade, vindo de uma família afluente em Bihar. Foi ele que recebeu quatro meses de treinamento de um oficial da ISI, além de um ciclo de treinamento anterior nos campos do Lashkar, de acordo com documentos da polícia.

Ahmed também esteve envolvido em pelo menos outra missão anterior, dizem os documentos: um ataque ao Instituto Indiano de Ciência em Bangalore em 2005, no qual um cientista foi morto.

Depois do ataque aos quartéis da polícia em Rampur, "nos disseram para ir para Mumbai para fazer uma operação suicida", disse Ansari à polícia, de acordo com um relatório feito depois de sua prisão.

Discursando em Mumbai na sexta-feira, o novo ministro de interior da Índia, Palniappan Chidambaram, admitiu que houve "lapsos" na forma como a Índia lidou com a crise e disse que o governo estava tentando "melhorar a eficácia dos sistemas de segurança".

O ressentimento em relação aos ataques da semana passada foi dirigido não apenas contra o vizinho Paquistão, mas também contra o próprio governo indiano por não ter feito mais para preveni-los. No maior demonstração de indignação pública até agora, dezenas de milhares marcharam em Mumbai e outras cidades em todo o país.

"O povo da Índia tem um sentimento de dor e raiva que nunca sentiu antes", disse o primeiro-ministro, Manmohan Singh, em Nova Déli.

* Somini Sengupta contribuiu com a reportagem em Mumbai, e Eric Schmitt em Washington Eloise De Vylder

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