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08/12/2008

Rádios universitárias conservam seu apelo

The New York Times
Ben Sisario
Uma caixa de pizza e meia dúzia de laptops estavam abertos na sala de estar cheia de pôsteres no porão onde funciona a WRPI, a estação de rádio do Instituto Politécnico de Rensselaer, em Troy, Nova York.
Enquanto uma máquina de refrigerantes zunia, os estudantes se preparavam para gravar uma banda de metal local e debater se o reggae é um estilo fundamentalmente dos anos 70 ou "transcende as barreiras do tempo".

Cenas parecidas já se repetiram inúmeras vezes nas estações de rádio universitárias, que por gerações serviram como ponto de encontro para conhecedores de música e como um campo de treinamento para a indústria musical. Mas quando os alunos-DJs da WRPI saem do estúdio, quase nunca ouvem a rádio, dizem os próprios.

Nathaniel Brooks/The New York Times 
Steven Malinski usa seu laptop para se ligar aos computadores de uma estação de rádio

"Mesmo quando estou no carro, normalmente ouço mais meu iPod do que a estação", diz Blair Neal, diretor musical da rádio.

Numa era de blogs e MySpace, a rádio universitária pode parecer um anacronismo, um remanescente analógico no mundo digital. Com os jovens ouvindo cada vez menos rádio, as estações de estudantes não têm mais a influência que tinham quando deram a bandas como R.E.M. e Nirvana o primeiro impulso para o estrelato.

Mas em vez de colidir com a Internet, as cerca de 700 estações universitárias em toda a América do Norte perseveraram à margem dela, estabelecendo-se no papel de um meio mais lento, porém mais leal, em relação à instabilidade da blogosfera. E graças à continuidade da paixão de quem trabalha nelas, as rádios continuam surpreendentemente bem sucedidas no que se refere à promoção. De acordo com muitos na indústria musical, elas desempenham um papel maior do que normalmente se reconhece no lançamento de novos nomes.

"As rádios universitárias ainda são extremamente importantes", diz Kris Chen, executivo da XL Recordings, que empresaria artistas como Vampire Weekend e Devendra Banhart. "E à medida que as rádios universitárias chegam mais longe por causa da Internet, sua utilidade cresceu e se adaptou".

Em muitos casos, os próprios DJs são blogueiros. Neal, um lacônico jovem de 23 anos, estudante de artes eletrônicas, contribui com o blog da WRPI.

"Eu adoro ser a primeira pessoa a ouvir sobre alguma coisa e lançar o disco para um grupo de amigos para ver o que eles pensam", disse ele no precário estúdio auxiliar da estação, onde as bandas locais são gravadas toda semana.

Durante décadas o coração das rádios universitárias tem sido uma programação que tende entre o anárquico e o inspirador, à medida que os jovens DJS cedem a seus caprichos, livres dos formatos estreitos das estações comerciais. (A maior parte das rádios dos campi são financiadas pelas próprias faculdades). No seu auge nos anos 80 e 90, as estações serviram como uma fonte fundamental de encorajamento para novas bandas e eram ouvidas com atenção pelos principais selos de gravação.

Com a redução nos orçamentos promocionais das gravadoras, e o abismo entre o gosto universitário e a música comercial, poucos acreditam que as rádios universitárias ainda funcionem como catalisadoras de bandas pop de grande apelo. Mas para muitos alunos cativados por fazer rádio - e receber telefonemas de ouvintes às 3 da manhã - só isso já basta.

"Acho que a estação diz mais respeito às pessoas que estão envolvidas nela do que a quem ouve", diz Lyzi Diamond, diretora musical da KWVA na Universidade de Oregon em Eugene, onde toda semana ela orgulhosamente pendura uma cópia do pôster da revista Billboard [com a lista das músicas mais ouvidas] riscado com um X.

Ela tem dois blogs: um para suas listas de músicas e outro para sua poesia.

Em Nova York em outubro para participar da Maratona Musical CMJ, evento fundamental do passado e do presente das rádios universitárias, Diamond, 19, estava determinada a promover sua rádio. Entre um cigarro e outro do lado de fora dos bares de Lower East Side, ela distribuía canetas esferográficas com o slogan da KWVA ("Você não pode se formar sem ela") e conhecia os rostos por trás das vozes telefônicas e apelidos de Internet dos outros promotores e colegas DJs de todo o país.

Esse grupo coeso é uma valiosa rede alternativa de promoção, assim como os blogs mais influentes, dizem muitos da indústria musical. Mas alguns se preocupam com a escassez de ouvintes.

Números confiáveis sobre a audiência das rádios universitárias são escassos, mas as tendências mostram que a audiência em idade universitária dá cada vez menos atenção ao rádio. De 1998 a 2007, a quantidade de tempo que pessoas de 18 a 24 anos passavam ouvindo rádio caiu 18%, enquanto entre as pessoas de 35 a 64 anos, caiu apenas 9%, de acordo com o serviço de medição de audiência Arbitron.

"Hoje a audiência das rádios universitárias caiu consideravelmente", disse Norman Prusslin, professor de mídia na Universidade do Estado de Nova York em Stony Brook, que é presidente do Sistema Interuniversitário de Transmissão, uma organização que advoga pelas rádios.

Na WRPI, são os alunos que operam e mantém todo o equipamento, desde um elaborado sistema de telefonia dos anos 70 - com seu bizarro emaranhado de fios que toma uma parede inteira - até o Power Mac G5 e a nova mesa de mixagem de 24 canais. Dan Weeks, 20, engenheiro-chefe, disse que estava muito ocupado com o equipamento de um show, mas que a importância da estação no campus foi o que o atraiu.

"Meus pais estudaram aqui", disse Weeks, "E na época deles, a estação de rádio era sensacional. Todos a ouviam. Eu voltei esperando que fosse a mesma coisa".

E então? A estação tem a mesma influência?

"Talvez não tão abrangente", respondeu, "porque a rádio era provavelmente bem mais popular na época. Mas com certeza ela ainda tem um impacto".

Para atingir novas audiências, a universidade e outras estações não comerciais tomaram a liderança na transmissão via Internet: 60% têm transmissão via Web, comparados com 36% de todas as estações, de acordo com o serviço online RadioTime.

A KALX da Universidade da Califórnia, em Berkeley, uma das rádios universitárias mais influentes, têm em média 60 ouvintes simultâneos em sua transmissão via Internet, e freqüentemente tem mais de 100, disse Sandra Wasson, gerente geral. Mas a maioria das estações não tem quase nada.

"Podemos ver nos nossos registros que fomos ouvidos no Sri Lanka e na Austrália", disse Joel Willer, diretor de transmissão da Universidade de Lousiana em Monroe. "Mas ainda estamos falando de uma média mundial de menos de duas dúzias de pessoas".

Em resposta à erosão da audiência das rádios não-virtuais, os selos e os empresários de artistas têm procurado a Internet para promover sua música. Tom Gates, agente de bandas de rock independente como Brand New e Format, disse que para muitos de seus artistas - especialmente os mais jovens - as rádios universitárias são um gasto desnecessário.

"São US$ 1.500 que eu poderia usar para filmar um show e colocá-lo em cinco blogs diferentes, que podem nos render alguns milhares de visitas", disse Gates. "Ao contrário das rádios universitárias, que podem atingir apenas algumas centenas de pessoas".

Alguns acreditam que vale a pena gastar dinheiro para atingir essas centenas. Duas das bandas de rock independente de maior sucesso nos últimos anos, Vampire Weekend e Arcade Fire, são com freqüência vistas como símbolos da mutante era dos blogs. Mas suas gravadoras dizem que as rádios universitárias tiveram um papel bem maior em sua boa sorte do que os sites. "A Internet recebeu muito crédito pelo sucesso do Arcade Fire", disse Mac McCaughan, um dos donos do selo da banda, Merge. "A rádio universitária é um barômetro maior do que as pessoas gostam e do que estão ouvindo do que os blogs".

Deixando a promoção de lado, as estações servem há tempos a outra importante função: oferecer uma conexão para os empregos na indústria das gravadoras, que é preenchida em todos os níveis com alunos das rádios universitárias. Bobby Haber, chefe-executivo da CMJ Network - e ex-diretor musical da WBRS da Universidade Brandeis - criou uma revista especializada, College Media Journal (agora CMJ New Music Report), em 1978, depois de perder um emprego na promoção da CBS Records. "Foi devastador", diz ele.

Muitas das posições nas principais gravadoras desapareceram. Mas no lugar existe um mercado maior e mais descentralizado para promotores, publicitários, empresários e especialistas em merchandising, principalmente nas companhias pequenas, mais ágeis e independentes.

Diamond, da rádio da Universidade de Oregon, disse que foi picada pelo bichinho do radio pela primeira vez no colégio em Oakland, Califórnia.
Por algum motivo uma rádio comercial de rock interrompeu sua programação, e ela ficou impressionada com a possibilidade de diversão e poder. "Do nada a rádio cortou sua programação e começou a tocar sons de desenho animado durante o dia inteiro, só isso", lembra-se.
"Era como: 'Nossa, eles podem fazer isso. Isso pode de fato acontecer'".

Mas Diamond, que está estudando planejamento e política pública, disse durante um show lotado numa tarde no Cake Shop, um pequeno clube do Lower East Side, que ela não considera uma carreira no rádio, ou na indústria da música; ela não gostaria de trabalhar numa estação em que não pudesse tocar nada do que quisesse.

Enquanto a multidão se agitava e outra banda começava a tocar, ela disse que por enquanto sua vida era consumida pela KWVA.

"No fim das contas seus amigos podem desaparecer, seu emprego pode desaparecer", disse Diamond, "mas a rádio sempre estará lá. E é muito legal ter alguma coisa com a qual se pode contar". Eloise De Vylder

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