UOL Notícias Internacional
 

08/12/2008

Situação na Somália parece prestes a piorar, se possível

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Nairobi (Quênia)
O governo de transição da Somália parece ter finalmente morrido. Os etíopes que o têm mantido vivo há dois anos dizem que estão deixando o país, basicamente desligando os aparelhos.

Durante os últimos 17 anos, a Somália foi dilacerada pela anarquia, violência, fome e ganância. Parece que as coisas lá nunca podem ficar piores. Mas então elas ficam.

Os piratas da costa da Somália estão ficando mais atrevidos, astutos e de certa forma ricos, apesar de uma armada de navios ocidentais ao seu encalço. Os carregamentos de auxílio alimentar emergencial mal conseguem evitar a fome da maior parte da população de 9 milhões de somalis. A ala mais fanática do movimento rebelde islâmico da Somália está ganhando território e impondo a lei islâmica com sua própria marca dura, como por exemplo, chicoteando dançarinas e apedrejando uma menina de 13 anos até a morte.

Jeffrey Gettleman/The New York Times 
Somalis carregam alimentos doados pelas Nações Unidas. em Jowhar

E agora, com o governo à iminência de um colapso e os islamitas prestes a tomar o controle pela segunda vez, a questão mais importante dentro e fora da Somália parece ser: E agora?

"Será sangrento", prevê Rashid Abdi, analista da Somália no Grupo de Crise Internacional, um instituto de pesquisa que acompanha conflitos em todo o mundo. "Os etíopes decidiram deixar o governo de transição afundar. O caos se espalhará desde o sul até o norte. A época dos comandantes de guerra vai voltar".

Rashid vê a Somália se deteriorando num caldeirão de islamismo militante parecido com o Afeganistão, atraindo guerrilheiros linha-dura de Comores, Zanzibar, Quênia e outras áreas islâmicas vizinhas, num processo que parece já ter começado. Esses homens eventualmente voltarão para casa, espalhando a ética assassina.

"A Somália atingiu agora uma fase muito perigosa", disse. "A região inteira deve mergulhar em mais caos, infelizmente".

A maior parte das previsões diz algo parecido com isso: se os vários milhares de soldados etíopes se retirarem até janeiro, como afirmaram recentemente, os mais ou menos 3 mil pacificadores da União Africana que estão na Somália poderiam fazer o mesmo em breve, deixando a Somália totalmente aberta para os insurgentes islamitas que têm se aglomerado nos arredores da capital Mogadício.

O governo de transição, que na realidade controla apenas alguns quarteirões no país inteiro, entrará em colapso, assim como os 13 governos de transição anteriores. A única razão pela qual isso não aconteceu até agora são os etíopes.

O governo está uma bagunça nas últimas semanas - muitos diriam durante os últimos anos - com o presidente e o primeiro-ministro acusando-se amargamente em público pela crise do país. Mais de 100 dos 275 membros do parlamento estão no Quênia, recusando-se a voltar para casa, dizendo que serão assassinados.

Diplomatas ocidentais, oficiais da ONU e os etíopes finalmente parecem estar se voltando contra o presidente transitório, Abdullahi Yusuf Ahmed, um mal-humorado ex-comandante de guerra de seus 70 anos que se opôs a praticamente todas as propostas de paz.

"Yusuf deixou de ser visto como a solução e passou a ser visto como o problema", disse um diplomata ocidental no Quênia, falando sob condição de anonimato de acordo com o protocolo diplomático.

Mas o clã de Yusuf ainda o apóia, e os diplomatas ocidentais dizem que ele pode em breve fugir para a sua base de apoio no nordeste da Somália.

A maior parte dos analistas prevê que o povo de Mogadício, desgastado pela guerra, vai inicialmente receber bem os islamitas, por medo ou alívio. Em 2006, tropas islâmicas se aliaram aos anciões dos clãs e com homens de negócios para expulsar os comandantes de guerra que abusavam do povo somali desde que o governo central entrou em colapso pela primeira vez em 1991. Os seis meses em que os islamitas controlaram Mogadício foram, afinal, o período mais pacífico da história moderna da Somália.

Mas os islâmicos de hoje são um grupo mais duro e mais brutal do que os que foram expulsos pela invasão etíope, apoiada pelos Estados Unidos, no final de 2006. A velha guarda incluía muitos moderados, mas a maioria deles que tentou trabalhar com o governo de transição falhou, deixando-os fracos e marginalizados, e retirando uma influência mitigadora sobre os rebeldes linha-dura.

Além disso, as operações sangrentas e impopulares do exército etíope durante os últimos dois anos radicalizaram muitos somalis e mandaram centenas de homens desempregados - a maioria dos quais nunca foi para a escola, nunca foi parte de uma sociedade funcional e nunca teve nenhuma chance de fazer nada além de carregar uma arma - para os braços dos grupos militantes islâmicos.

O grupo mais militante é o Shabab, uma força insurgente que reúne vários clãs e que os Estados Unidos classificam como uma organização terrorista. Há apenas algumas semanas, o Shabab seqüestrou um homem que o grupo acusava de ser espião e lentamente serrou sua cabeça com uma faca sem fio, gravando todo o episódio em vídeo.

A Somália é quase 100% muçulmana, mas a maioria dos somalis são muçulmanos moderados. Muitos analistas acreditam que a onda islâmica rebentará em breve porque os somalis irão inevitavelmente se irritar sob a rígida lei islâmica, especialmente quando os islamitas tentarem proibir sua querida khat, a folha levemente estimulante e onipresente que os somalis mastigam como chiclete.

Então, dizem muitos analistas, os grupos islamitas irão engolir a si mesmos, com a Etiópia e outros países vizinhos apoiando facções rivais, e com os comandantes dos clãs entrando na briga. Osman Mohamed Abdi, vice-presidente da Rede de Desenvolvimento para a Juventude Somali, uma organização sem fins lucrativos em Mogadício, chama essa possibilidade de "a pior catástrofe feita pelo homem".

Duas possibilidades podem evitar esse banho de sangue, mas ambas tem poucas chances de acontecer.

A Etiópia poderia postergar sua retirada até que uma força pacificadora maior chegasse. Mas com Darfur e agora o Congo precisando de pacificadores, há poucos voluntários para a Somália sem lei.

Ou então o governo de transição poderia dividir o poder com os islamitas. Há um documento chamado Acordo de Djibuti, recentemente assinado no vizinho Djibuti, que abre caminho para islamitas moderados se juntarem ao governo de transição.

Mas o problema com o Acordo de Djibuti, diz Rashid do Grupo de Crises Internacionais, é que "os interlocutores não têm poder de fato".

O colapso do governo e o desastre humano que se seguirá significariam o fracasso total dos esforços norte-americanos na Somália.

Os Estados Unidos fracassaram desastrosamente em sua missão pacificadora do início dos anos 90. (Lembram de "Black Hawk Down" - "Falcão Negro em Perigo', filme de Ridley Scott?).
Em 2005 e 2006, a CIA pagou alguns dos mais temidos comandantes de guerra da Somália para lutar contra os islamitas. O tiro saiu pela culatra. No inverno de 2006, os Estados Unidos tentaram uma terceira abordagem, encorajando a Etiópia a invadir o país e apoiando os etíopes com ataques aéreos e inteligência norte-americana.

"O governo Bush fez um grande erro de cálculo", disse Dan Connell, que ensina política africana no Simmons College em Boston.

Ele comparou a situação com o envolvimento dos Estados Unidos no Líbano nos anos 80, "quando um aliado regional, Israel, nos levou para um Estado falido num esforço quixotesco para transformar um vizinho hostil num aliado conivente".

Isso apenas radicalizou a população, disse ele, acrescentando que na Somália, "novamente, nos tornaremos alvos". Eloise De Vylder

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