UOL Notícias Internacional
 

09/12/2008

O grupo suspeito no atentado de Mumbai

The New York Times
Eric Schmitt e Mark Mazzetti
Em Washington

Jane Perlez
Em Islamabad
O grupo militante paquistanês Lashkar-e-Taiba, suspeito de conduzir os ataques de Mumbai, ganhou força silenciosamente nos últimos anos com a ajuda do principal serviço de espionagem do Paquistão. Essa assistência permitiu ao grupo treinar e levantar fundos enquanto outros militantes estiveram sob pressão, disseram membros da inteligência e de combate ao terrorismo americanos.

Os agentes americanos dizem que não há provas para associar o serviço de espionagem, a Diretoria de Inter-Serviços de Inteligência, ou ISI, aos ataques de Mumbai. O ISI, contudo, compartilhou dados de inteligência e protegeu a Lashkar, disseram as autoridades. Os investigadores estão se concentrando em um líder da Lashkar que acreditam ser a principal ligação com o serviço de espionagem e maior ameaça do que tinham reconhecido anteriormente.

"As pessoas estão tendo que voltar e procurar todas as conexões", disse uma autoridade de combate ao terrorismo americana, que, como outras, falou sob condição de anonimato, pois a investigação ainda está em curso.

As autoridades paquistanesas negaram qualquer conexão do governo com o cerco do dia 26 a 29 de novembro, no qual nove atiradores e 163 outras pessoas morreram. No domingo, uma autoridade paquistanesa confirmou que as forças de segurança tinham iniciado uma operação contra pelo menos um campo da Lashkar em território paquistanês. A autoridade não deu detalhes sobre a operação, a primeira reação paquistanesa que se tem notícia contra o grupo suspeito de atacar Mumbai.

"O governo do Paquistão sempre disse que agiria a partir de qualquer evidência apresentada. Vamos garantir que ninguém use o território paquistanês para executar atividade militante", disse um membro do governo paquistanês, que falou sob condição de anonimato pois não estava autorizado a discutir detalhes sobre operações de segurança.

A Al Qaeda forneceu financiamento e suporte à Lashkar no passado, mas seus elos hoje são pouco claros. Altos membros da Al Qaeda usaram casas seguras da Lashkar como esconderijo. A Lashkar, contudo, não fundiu suas operações com a Al Qaeda nem adotou a marca, como fez o grupo terrorista argelino que mudou seu nome para a Al Qaeda no Magrebe, disseram as autoridades americanas.

Diferentemente de Osama Bin Laden e seus tenentes, que foram forçados a retirarem-se para redutos montanhosos das áreas tribais paquistanesas, os comandantes da Lashkar puderam operar mais ou menos em aberto, por trás da face pública de uma obra de caridade popular, com o apoio implícito de oficiais paquistaneses, disseram autoridades americanas.

Autoridades indianas e americanas acreditam que um alto comandante da Lashkar em particular, Zarrar Shah, é uma das principais ligações do grupo ao ISI. Os investigadores na Índia também estão examinando se Shah, especialista em comunicações, ajudou a planejar e executar os ataques em Mumbai.

"Ele é uma peça central nesse complô", disse uma autoridade americana.

Durante anos, analistas de inteligência americanos descreveram Lashkar como um grupo no Sul da Ásia com ambições fatais, porém limitadas. Entretanto, especialistas em terrorismo disseram que claramente a organização foi inspirada pelo sucesso da Al Qaeda em reunir fiéis para uma jihad global.

"Esse é um grupo que deixou, anos atrás, sua visão local e paroquiana e adotou uma visão da Al Qaeda", disse Bruce Hoffman, professor e especialista em terrorismo na Universidade de Georgetown, que acompanha a Lashkar de perto há anos.

A Lashkar-e-Taiba, que significa "exército dos puros", foi fundada há mais de 20 anos com a ajuda de agentes da inteligência paquistaneses para desafiar o controle indiano da Cachemira, região dominada por muçulmanos.

As autoridades indianas implicaram publicamente agentes da Lashkar em um ataque de 2006 aos trens urbanos de Mumbai e em um ataque de dezembro de 2001 contra o Parlamento Indiano. Entretanto, nos últimos anos, militantes da Lashkar apareceram em campos de batalha no Afeganistão e no Iraque, combatendo e matando americanos, disseram altas autoridades americanas.

Enquanto o Oriente Médio, Europa e Estados Unidos reprimiram as finanças da Al Qaeda, a Lashkar ainda tem uma organização de levantamento de fundos próspera no Sul da Ásia e na região do golfo Pérsico, inclusive na Arábia Saudita, disseram os agentes de combate ao terrorismo. O grupo usa primariamente sua ala de caridade, Jamaat-ud-Dawa, para levantar dinheiro, ostensivamente para causas no Paquistão.

Os ataques de Mumbai, que incluíram estrangeiros em seus alvos, pareceram se encaixar na ênfase crescente do grupo e determinação de elevar seu perfil para a constelação de jihadistas globais.

A Lashkar também tem um histórico de uso de grupos extremistas locais para obter informações e ajudas táticas em suas operações. Os investigadores em Mumbai estão seguindo pistas que sugerem que a Lashkar obteve ajuda de reconhecimento e logística do Movimento Islâmico de Estudantes da Índia, grupo fundamentalista que defende o estabelecimento de um Estado islâmico na Índia.

Um indiano preso em conexão com os ataques, Fahim Ahmad Ansari, tinha sido descrito antes por reportagens de um jornal indiano como ex-membro do Movimento Islâmico dos Estudantes, que se reuniu com agentes da Lashkar em Dubai em 2003.

Autoridades americanas disseram que os investigadores estavam estudando de perto a possibilidade dos atacantes terem tido algum tipo de apoio local em Mumbai.

Hoffman disse que Lashkar tinha desenvolvido operações de Internet particularmente sofisticadas e que membros da inteligência acreditavam que o grupo tinha forjado laços com organizações regionais terroristas, como a Jemaah Islamiyah na Indonésia, assistindo-as com suas próprias estratégias.

Apesar de o governo paquistanês ter banido oficialmente a Lashkar em 2002, autoridades americanas disseram que o grupo tinha mantido laços próximos desde então com o serviço de inteligência paquistanês. Agências de espionagem dos EUA documentaram reuniões regulares entre o ISI e agentes da Lashkar nas quais as duas organizações compartilhavam dados de inteligência sobre operações indianas na Cachemira.

"(A colaboração) vai além de compartilhar informações e inclui o levantamento de fundos e treinamento. E não são elementos revoltosos do ISI. O que está acontecendo é feito de uma forma bastante disciplinada", disse uma autoridade americana que acompanha o grupo.

Ainda assim, as autoridades em Washington disseram que ainda não têm qualquer elo direto entre a agência de espionagem paquistanesa e os ataques de Mumbai.

"Não acho que haja provas convincentes do envolvimento de autoridades paquistanesas, mas acho que o Paquistão tem a responsabilidade de agir", disse a secretária de Estado Condoleezza Rice no programa da CNN "Late Edition With Wolf Blitzer", no domingo.

Ela disse que as evidências mostravam que "os terroristas usaram território paquistanês".

Uma autoridade de combate ao terrorismo disse: "Uma coisa é dizer que o ISI está ligado à Lashkar e outra bem diferente é dizer que o ISI estava por trás dos ataques de Mumbai. As evidências nesta altura não vão tão longe".

Além disso, alguns analistas de terrorismo disseram que a dependência da Lashkar de seus patrocinadores originais diminuiu nos últimos anos. Com doadores ricos em abundância, uma via de recrutamento estabelecida e uma série de campos de treinamento, a Lashkar "superou o apoio do ISI", disse Urmila Venugopalan, analista do Sul da Ásia para o Grupo Jane's Information.

A proteção que agentes da Lashkar têm dentro do Paquistão permitiu que o grupo prosperasse enquanto os líderes da Al Qaeda eram forçados a se esconder em cavernas e transmitir mensagens ocasionais por meio de burros.

Em uma declaração pública em maio, Stuart Levey, subsecretário de tesouro para terrorismo e inteligência financeira, chamou a Lashkar de "afiliada perigosa da Al Qaeda que demonstrou sua disposição de assassinar civis inocentes".

Entretanto, outros analistas de terrorismo têm uma opinião mais complexa dos laços do grupo com a Al Qaeda. Por um lado, as duas organizações compartilham muitas posições: uma crença na interpretação rígida do Alcorão, um desejo de estabelecer um governo baseado em leis islâmicas estritas e a prioridade de tirar as tropas americanas do Afeganistão e do Iraque.

A Lashkar ajudou os combatentes da Al Qaeda a entrarem e saírem do Afeganistão. Em março de 2002, um tenente da Al Qaeda, Abu Zubaydah, foi capturado em uma casa segura da Lashkar em Faisalabad, no Paquistão, de acordo com um relatório do Departamento de Estado. Sete presos atualmente na prisão americana em Guantánamo, Cuba, são suspeitos de ter conexões de algum tipo com a Lashkar.

Nem sempre, contudo, Lashkar e Al Qaeda concordam, dizem os especialistas. Enquanto a Lashkar luta pela criação de um Estado pan-islâmico no Sul da Ásia, a Al Qaeda quer criar uma entidade ainda maior. A al Qaeda também está cansada do relacionamento da Lashkar com o ISI, disse uma autoridade americana.

Um porta-voz da Jamaat-ud-Dawa, ala de caridade da Lashkar, negou na semana passada que o grupo ou seu fundador, Haffiz Muhammad Saeed, tivessem qualquer conexão com os ataques de Mumbai. O atirador sobrevivente em Mumbai alegou ter conhecido Saeed em um campo de treinamento no Paquistão.

Na sexta-feira (05/12), Saeed fez o sermão costumeiro em sua mesquita em Lahore, Paquistão, onde milhares ouviram-no criticar o hinduismo, elogiar o islamismo e criticar Rice por visitar a região.

Cercado de seguranças, Saeed, 63, homem atarracado com uma barba enorme e não aparada, falou por 50 minutos para uma congregação extasiada, sentada em gramados amplos em Qadsiyyah, no centro de Lahore.

"Agora, Condoleezza Rice correu para a Índia e para o Paquistão porque os infiéis estão unidos", disse ele. "Se os infiéis não pararem suas atividades anti-muçulmanas, os muçulmanos não demorarão em se vingar". Deborah Weinberg

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