UOL Notícias Internacional
 

09/12/2008

Um buraco no chão entra em erupção, para alegria da Estônia

The New York Times
Ellen Barry
Em Tuhala (Estônia)
Todo dia, as pessoas atravessam a mata cheia de gelo, vestindo traje de neve, jaquetas de couro e saltos perigosos, até chegarem ao ponto onde a água fica agitada. Segundo a lenda, as bruxas de Tuhala estavam em uma sauna no subsolo, batendo vigorosamente uma na outra com varas de vidoeiro, ignorando a comoção que causam na superfície.

O famoso Poço da Bruxa de Tuhala entrou em erupção na semana passada pela primeira vez em três anos, atraindo peregrinos de toda a Estônia. Inalando as baforadas de vapor, os visitantes seguram pingentes para testar campos de energia e mantêm dedos com artrite perfeitamente imóveis sobre as pedras.

"A Estônia é cheia de magia natural", disse Mari-Liis Roos, 37 anos, uma tradutora que veio para Tuhala com seu marido e filho. "É difícil descrever. Às vezes você não quer explicar essas coisas, porque é muito pessoal."

A Estônia foi forçada a adotar uma série de sistemas de crença ao longo dos séculos, do catolicismo ao luteranismo à ortodoxia russa ao ateísmo soviético. Dezessete anos após ganhar a independência da União Soviética, a Estônia é um dos países mais seculares do mundo; no censo de 2000, apenas 29% de seus cidadãos se declararam seguidores de uma religião em particular.

Mas isso não significa que são ateístas. Ansiando por uma fé nacional autêntica, os estonianos se viram atraídos pelas religiões animistas que precederam o cristianismo: Taarausk, cujo deus era adorado nos bosques, e Maausk, que é traduzida como "fé da terra".

As crenças antigas sobreviveram na forma de contos folclóricos. Nas histórias, os pecados dos seres humanos reverberam na natureza - lagos voam para punir aldeões gananciosos, ou florestas partem durante a noite, para nunca mais retornar. As árvores exigem o respeito de um cumprimento com o chapéu, e buracos no chão devem ser alimentados com moedas.

No caso de Tuhala, o mundo físico exige essas explicações. A cidade, que acredita-se ter 3 mil anos de idade, fica situada no maior campo de carste poroso, onde 15 rios subterrâneos fluem por um labirinto de cavernas, audíveis mas invisíveis para os habitantes humanos.

Um resultado é sumidouros grandes o bastante para engolir cavalos - o Buraco do Cavalo, como é conhecido, apareceu em 1978 - ou pessoas, como no Buraco da Sogra. Riachos aparecem e desaparecem como fantasmas.

A mais famosa excentricidade é o Poço da Bruxa. Os geólogos acreditam que após chuvas que causam inundação, a pressão da água subterrânea cresce a ponto da água esguichar para fora do solo, geralmente por alguns poucos dias. Toda vez que acontece, pessoas viajam grandes distâncias para vê-la.

Ellu Rouk, uma mulher magra de 69 anos e com olhos azul-claros, se afastou a pé lentamente após alguns poucos momentos ao lado do poço. Ela disse ter um profundo envolvimento com o mundo natural. Seu aliado especial é o vidoeiro em seu quintal, tão poderoso que um vizinho malicioso planejava matá-lo, ela disse. Quando ela corta rosas e as coloca em um vaso, ela disse, elas criam raízes.

Esses dramas, ela disse, são uma "herança" de seus ancestrais.

"Há um velho deus estoniano, Taara", disse Rouk. "Ele vive. Ele existe. Apesar de haver gente que gostaria de se livrar dele."

"Os cristãos não têm respeito pela natureza", ela acrescentou.

A magia parece ter voltado à moda, disse Evi Tuttelberg, que vive em uma casa de fazenda de 500 anos, próxima do poço. Tuttelberg, 80 anos, costumava rir quando sua sogra dizia ter visto demônios flamejantes voando sobre Tuhala. Na época de sua sogra, as pessoas deixavam oferendas de dinheiro e alimento no "zimbro sagrado" e falavam de câmaras subterrâneas secretas escondidas nos campos.

Então a Estônia entrou no seu longo período soviético, e bruxas e elfos da floresta desapareceram do discurso público. O mesmo aconteceu com o Poço da Bruxa, ela disse.

"Ninguém costumava falar a respeito", ela disse. "Era apenas um buraco no chão."

Mas neste ano, foi uma maravilha. Um odor fresco e de argila ascendeu do chão da floresta; um musgo verde intenso brotou sob os pés, e água se congelou em contas nos galhos sem folhas. Pessoas traziam no carrinho seus filhos recém-nascidos até a beira d'água e assistiam uma névoa ascender das plantações.

Ants Talioja, cuja família é dona das terras há 11 gerações, caminhava ao redor orgulhoso e distraído, como um maître de restaurante. Quando ele parou de se mover por um momento, entretanto, sua expressão era de dor. Há planos para construção de uma pedreira de calcário a cerca de dois quilômetros e meio do Poço da Bruxa, a Talioja disse que teme que o projeto drenará a água que corre misteriosamente sob Tuhala.

Isso significa que a erupção deste ano pode ter sido a última. Talioja, 62 anos, nasceu sobre esse fluxo de água, e ele disse que acredita que ela deu certos dons para sua família; uma mulher em sua família viveu até os 105 anos de idade.

A mineradora ofereceu canalizar água doce potável para compensar os 1.000 poços que poderiam secar, ele disse. Mas estava claro pela expressão grave no rosto de Talioja que a água encanada não servia como substituta. George El Khouri Andolfato

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