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09/12/2008

Um debate sobre se Machu Picchu, a Cidade Perdida dos Incas, estava realmente perdida

The New York Times
Simon Romero

Em Cusco, Peru
Dos cartões postais exibindo sua imagem aventureira, usando chapéu de feltro, ao trem de luxo com seu nome gravado que segue até o pé da montanha que abriga Machu Picchu, há lembretes por toda parte aqui de Hiram Bingham, o explorador de Yale que há muito recebe o crédito pela revelação da chamada Cidade Perdida dos Incas para o mundo exterior, há quase um século.

Mas nos últimos meses, uma confluência de eventos contrários ameaça derrubar o legado de Bingham, o modelo para o fictício Indiana Jones. O Peru ameaça impetrar uma ação legal contra Yale para recuperar milhares de artefatos removidos por Bingham. Surgiu evidência que sugere que um aventureiro alemão pode ter chegado lá primeiro. E uma disputa está se acirrando em torno de quem era dono do local quando Bingham supostamente o descobriu.

Os círculos acadêmicos no Peru estão agitados com o debate revisionista. Não apenas Bingham pode não ser exatamente o pioneiro heróico como é retratado, mas pode ser que a Cidade Perdida dos Incas nunca esteve realmente perdida.

As disputas em torno de quem descobriu ou redescobriu o sítio sagrado se tornaram tão contenciosas que agora estão à altura da frase "as disputas de Machu Picchu", cunhada pelo escritor americano Daniel Buck em uma alusão à ode de Pablo Neruda, "Alturas de Machu Picchu".

Ninguém no campo dos estudos de Machu Picchu contesta seriamente o fato de que Bingham chegou às ruínas encobertas pela selva em 1911, as escavou, fotografou e em grande parte as apresentou ao mundo.

Mas suas reivindicações passaram a ser contestadas com o tempo.

"Hiram Bingham nunca imaginou que alguém investigaria obstinadamente sua trilha", disse Mariana Mould de Pease, uma historiadora peruana.

Logo após Bingham liderar suas expedições à Machu Picchu, surgiram alegações de que um missionário britânico, Thomas Payne, e um engenheiro alemão, J.M. von Hassel, chegaram antes dele lá. E mapas encontrados por historiadores mostram referências à Machu Picchu já em 1874.

A mais recente contestação vem das reivindicações recentemente publicadas que levantam a possibilidade de que um aventureiro alemão chegou a Machu Picchu e a saqueou décadas antes de Bingham sequer botar os pés no Peru. Registros mostram que o alemão, Augusto R. Berns, comprou terra nos anos 1860 no lado oposto da montanha de Machu Picchu, construiu uma serraria em sua propriedade e então tentou levantar dinheiro junto a investidores para saquear as ruínas incas próximas, tudo com a bênção do governo peruano.

"A informação de Berns é um assunto que precisa ser investigado mais a fundo", disse Jorge Flores Ochoa, um proeminente antropólogo peruano. "Hiram Bingham pintou a si mesmo como um grande explorador que se aventurou até os confins da Terra, mas era uma fantasia. A verdade é que outros, talvez muitos outros, chegaram a Machu Picchu muito antes dele."

Berns, um engenheiro, foi ao Peru para trabalhar na estrada de ferro peruana Ferrocarril del Sur. Um artigo publicado neste ano na revista "South American Explorer" por Paolo Greer, um cartógrafo do Alasca, ofereceu detalhes adicionais sobre Berns, mostrando como ele parou de cortar dormentes em sua propriedade nos anos 1880 e começou a tentar atrair investidores para exploração da área atrás de ouro e prata.

"As alegações de mineração de Berns provaram não valer nada", disse Greer em um e-mail. "Mas ele passou anos à procura de sítios incas, empregando guias locais que tinham conhecimento da área."

Além disso, disseram alguns acadêmicos, Bingham podia ter conhecimento das atividades de Berns. Mould de Pease disse que encontrou nos arquivos de Yale um documento do governo peruano de 1887 autorizando Berns a remover tesouros das áreas que incluíam Machu Picchu. Ela relatou sua descoberta em um livro de 2003.

"Se o documento estava em meio aos papéis de Bingham, então ele sabia que Berns podia ter chegado lá primeiro", ela disse.

Outros zombam da possibilidade de que Berns tenha colocado os pés em Machu Picchu, apontando para as discrepâncias nos prospectos ricamente formulados enviados aos investidores. Em um documento, Berns se referia a um "aparato antigo de lavagem de ouro" chamado "llamajcansha", que "nas línguas indígenas antigas significa 'terreno de ouro'".

"É improvável que os leitores dos prospectos nos Estados Unidos falassem quechuá", escreveu Buck em um ensaio publicado no jornal "La República" de Lima, se referindo à língua indígena falada nesta parte do Peru. "Caso contrário, como saberiam que llamajcansha significava 'terreno de lhama'."

Buck acrescentou: "Berns estava vendendo uma carga de estrume de lhama".

Os céticos também disseram que nenhuma prova substantiva surgiu de que Berns removeu artefatos de Machu Picchu.

Enquanto isso, em um esforço para assegurar maior controle sobre sua herança cultural, o governo do Peru disse no mês passado que impetraria uma ação legal contra Yale em um esforço para assegurar o retorno de milhares de artefatos que Bingham levou para a universidade. O Peru alega que os artefatos foram emprestados para Yale e portanto devem ser devolvidos. A ameaça de ação legal é uma mudança abrupta em relação a um recente entendimento preliminar entre Yale e o Peru, que parecia ter colocado as partes em um caminho para solução da disputa.

Ambos os lados no caso aproveitaram as revelações sobre Berns como evidência apoiando suas causas.

Um assessor de Cecilia Bakula, diretora do Instituto Nacional de Cultura em Lima, que administra o sítio de Machu Picchu, disse que ela não estava disponível para comentar. Mas na visão de Mould de Pease, a historiadora, a autorização dada para Berns mostra que o Peru tinha soberania sobre Machu Picchu antes de Bingham chegar lá.

Para Yale, as revelações de que um aventureiro anterior tinha planos para as ruínas incas pode reforçar sua visão de que os itens removidos por Bingham não são tesouros únicos nem artefatos criticamente importantes. "É bem possível que todos os tesouros tenham sido removidos pelo alemão, Augusto Berns, muitos anos antes da chegada de Bingham", disse R. Scott Greathead, um advogado que representa Yale.

Para complicar ainda mais as coisas, registros de propriedade indicam que as terras, incluindo Machu Picchu, foram repetidas vezes compradas e vendidas por famílias na área de Cusco antes da chegada de Bingham.

"Meu bisavô, Mariano Ignacio Ferro, era o dono de Machu Picchu quando Hiram Bingham alegou tê-la descoberto, e até mesmo ajudou o americano a encontrar o caminho até lá", disse Roxana Abrill Nunez, uma curadora de museu em Cusco que está travando uma batalha legal para ser indenizada pela perda por sua família de Machu Picchu. Ela alega que o Estado expropriou o sítio de sua família sem pagamento.

Para outros aqui em Cusco, as ações de um alemão antes esquecido pela história oferecem uma idéia sobre uma cidade que pode ter sido perdida e encontrada repetidas vezes desde que os incas a abandonaram, mesmo que tenha sido preciso o trabalho de Bingham para colocá-la na imaginação popular.

"Tudo o que sei é que qualquer coisa era possível nos anos turbulentos antes de Bingham chegar a Machu Picchu, com outros provavelmente chegando até mesmo antes desse alemão", disse David Ugarte Vega, um antropólogo da Universidade Nacional de San Antonio Abad, em Cusco.

"O que é certo é que a imagem de Bingham finalmente está sendo contestada", disse Ugarte Vega, "enquanto os descendentes daqueles grandes construtores responsáveis por Machu Picchu estão trabalhando como carregadores da mais nova onda de viajantes que vêm de longe para ver a cidade". George El Khouri Andolfato

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